Do título ao colapso: Ponte Preta destrói ano histórico em poucos meses
Campeã nacional pela primeira vez em 2025, Macaca perdeu jogadores, acumulou salários atrasados, sofreu duas quedas e viu projeto de SAF fracassar
A conquista da Série C prometia abrir uma nova era no Moisés Lucarelli, mas foi seguida pela temporada mais caótica da história
Campinas, SP, 02 (AFI) – A imagem da Ponte Preta erguendo a taça da Série C de 2025 parecia encerrar décadas de frustrações. O primeiro título nacional em 125 anos deveria representar o início da reconstrução de um dos clubes mais tradicionais do país.
A comemoração, porém, durou pouco. Em menos de um ano, o campeão virou lanterna, o elenco se desfez, os jogadores entraram em greve e a equipe acumulou dois rebaixamentos na mesma temporada.
A derrota por [PLACAR] para o Cuiabá, neste sábado, apenas confirmou uma queda construída muito antes de a bola rolar na Arena Pantanal.
Novembro de 2025: a esperança
O título da Série C levou milhares de torcedores às ruas de Campinas e devolveu a Ponte à segunda divisão. Marcelo Fernandes, responsável pela arrancada decisiva, teve o contrato renovado para 2026.
Havia a expectativa de que o acesso aumentasse as receitas, fortalecesse o elenco e criasse um ambiente favorável para a reorganização financeira.
Mas os atrasos salariais já faziam parte da rotina do clube. O título escondeu temporariamente os problemas, sem eliminá-los.
Janeiro de 2026: paralisação antes da estreia
A primeira grande crise ocorreu ainda na pré-temporada. Jogadores paralisaram as atividades durante aproximadamente duas semanas por causa das pendências financeiras.
O elenco campeão perdeu peças importantes, enquanto as contratações encontraram obstáculos. Um transfer ban impediu o registro de reforços nas primeiras rodadas do Campeonato Paulista.
A equipe começou o ano sem preparação adequada, com um grupo enfraquecido e sob forte instabilidade interna.
Fevereiro: primeira queda e saída do campeão
A derrota por 2 a 0 para a Portuguesa, no Canindé, decretou o rebaixamento da Ponte no Campeonato Paulista com uma rodada de antecedência.
A Macaca somou apenas um ponto nos sete primeiros jogos e registrou o pior início de temporada de sua história.
Marcelo Fernandes, campeão nacional poucos meses antes, deixou o comando após a última rodada do estadual. Rodrigo Santana foi contratado para conduzir o time na Copa do Brasil e na Série B.
Abril: duas vitórias e uma falsa reação
A Ponte venceu o Avaí por 2 a 1 e o América-MG por 1 a 0 em sequência. Foram os únicos triunfos do clube nas primeiras 28 rodadas da Série B.
A vitória sobre o América, em 24 de abril, parecia indicar o começo de uma recuperação. Na realidade, abriu o maior jejum sem vitórias já registrado na história da competição.
Maio e junho: nova troca no comando
Rodrigo Santana deixou o cargo no fim de maio. O auxiliar Edson Boaro assumiu interinamente e dirigiu a equipe em duas partidas.
Boaro, revelado pela Ponte e participante da Copa do Mundo de 1986, também deixou o clube. Ele afirmou estar havia 15 meses sem receber e posteriormente buscou a Justiça para cobrar os valores.
Márcio Zanardi foi anunciado em junho. Encontrou a Ponte na vice-lanterna, com oito pontos e seis jogos consecutivos sem vencer.
Julho: bloqueios impedem reação
A janela de transferências deveria permitir uma reformulação, mas a Ponte estava proibida de registrar jogadores.
O clube acumulou dois transfer bans impostos pela Fifa e outro determinado pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas. Os bloqueios estavam relacionados a dívidas não quitadas.
Sem poder inscrever reforços e com um elenco cada vez menor, a equipe atravessou julho sem vencer e ampliou a distância para os concorrentes diretos.
Agosto: duas goleadas, greve e risco de W.O.
A crise atingiu o ponto mais dramático em agosto. A Ponte perdeu por 6 a 0 para o Vila Nova, resultado que representou sua maior derrota nacional até então.
Dias depois, os jogadores anunciaram greve. Em nota, o grupo denunciou atrasos de aproximadamente seis meses e afirmou sentir-se abandonado pela diretoria.
Márcio Zanardi pediu demissão no mesmo dia. Gilson Kleina aceitou retornar ao clube pela sexta vez, mas estreou sem os atletas profissionais.
Para evitar uma derrota por W.O., a Ponte relacionou somente jogadores da base contra o América-MG. Os jovens perderam por 2 a 0 em Belo Horizonte.
A paralisação terminou sem que todos os débitos fossem quitados. Parte do elenco voltou a treinar por respeito à instituição e à torcida, enquanto outros atletas buscaram rescisões.
Setembro: fundo do poço
A derrota por 2 a 0 para o São Bernardo fez a Ponte alcançar 20 jogos sem vencer e estabelecer o maior jejum da história da Série B.
Pouco depois, o Londrina aplicou outro 6 a 0. O resultado ganhou peso simbólico porque o adversário havia sido derrotado pela Macaca na decisão da Série C de 2025.
A sequência chegou a 22 partidas e 149 dias. O jejum só terminou com a vitória por 1 a 0 sobre o CRB, no Moisés Lucarelli.
O triunfo, entretanto, não representou uma reação. Na rodada seguinte, a Ponte perdeu para o Botafogo-SP, adversário direto, e passou a ter pelo menos uma derrota diante de todos os outros 19 participantes da competição.
A solução de R$ 1,1 bilhão também fracassou
Enquanto o futebol afundava, a diretoria apresentou a SAF como principal caminho para evitar o colapso financeiro.
A proposta divulgada girava em torno de R$ 1,1 bilhão. O pacote incluía recursos para dívidas, futebol, categorias de base, centro de treinamento e modernização do Moisés Lucarelli.
Antes de discutir a venda ou o investidor, porém, os associados precisavam autorizar a criação da empresa. A aprovação exigia dois terços dos votos.
Foram registrados 234 votos favoráveis, mas eram necessários 256. A proposta acabou rejeitada e o procedimento terá de ser reiniciado caso a diretoria decida retomar o projeto.
Outubro: queda consumada
A Ponte chegou à 31ª rodada com somente 13 pontos, 22 atrás do primeiro clube fora da zona de rebaixamento.
A derrota para o Cuiabá confirmou a queda com sete rodadas de antecedência, igualando o rebaixamento mais precoce da história da Série B por pontos corridos.
O clube que começou o ciclo como campeão nacional terminou a temporada na segunda divisão estadual e na terceira divisão brasileira.
A queda da Ponte em dez atos
- Título da Série C em 2025;
- Paralisação durante a pré-temporada;
- Transfer ban e elenco enfraquecido;
- Rebaixamento no Campeonato Paulista;
- Saída de Marcelo Fernandes;
- Início desastroso na Série B;
- Greve por salários atrasados;
- Debandada e uso da base para evitar W.O.;
- Rejeição da SAF pelos associados;
- Rebaixamento à Série C na 31ª rodada.





































































































































