Futebol elege pouco, mas continua poderoso: como clubes e torcidas entraram na eleição

Derrota de ídolos nas urnas não reduziu o peso político do esporte

Poucos nomes ligados ao esporte conquistaram mandato em 2026, mas o futebol continuou presente no centro do debate político

Luís Fabiano

Campinas, SP, 05 (AFI0 – Os resultados das eleições de 2026 produziram uma aparente contradição. Ídolos como Vanderlei Luxemburgo, Edmundo, Luís Fabiano e Marcelinho Carioca foram derrotados, mas o futebol permaneceu como uma poderosa ferramenta de identidade, mobilização e pressão política.

A influência não pode ser medida apenas pelo número de ex-atletas eleitos. Ela também aparece na maneira como candidatos utilizam apelidos, camisas, símbolos e vínculos com clubes para se apresentar aos eleitores.

Aparece ainda nos bastidores de Brasília. Às vésperas da eleição, alguns dos maiores clubes do País desafiaram uma medida do governo federal e procuraram o Supremo Tribunal Federal para proteger contratos milionários com casas de apostas.

A camisa virou cartão de apresentação

Diversos candidatos levaram para as urnas nomes construídos durante a carreira esportiva. Dinei apresentou-se com a ligação à torcida do Corinthians. Washington manteve o “Coração Valente”. Donizete continuou sendo identificado como “Pantera”.

Luís Fabiano explorou a imagem de artilheiro e sua história com o São Paulo. Edmundo permaneceu associado principalmente ao Vasco. Danrlei utilizou uma relação histórica com o Grêmio que se mantém mesmo décadas depois do encerramento de sua carreira.

A estratégia busca transformar memória afetiva em confiança política. O candidato não precisa ser apresentado do zero: o eleitor já conhece o nome, recorda conquistas e possui alguma reação emocional àquela trajetória.

O limite aparece quando a identidade esportiva não vem acompanhada de uma base política. A torcida reúne pessoas com posições ideológicas, interesses e realidades diferentes. Vestir a mesma camisa não significa escolher o mesmo candidato.

Clubes evitaram candidatos, mas entraram no debate

As instituições esportivas costumam evitar apoio oficial a candidaturas. A aproximação direta pode dividir torcedores, criar problemas internos e comprometer relações com diferentes governos.

Isso não significa neutralidade diante de decisões capazes de afetar receitas. A proibição das casas de apostas colocou clubes e governo em lados opostos justamente nos últimos dias da campanha eleitoral.

Flamengo, Botafogo, São Paulo, Ponte Preta, Vitória, Guarani e Portuguesa pediram ao STF para participar de uma ação contra a medida que determinou o encerramento das operações das bets no Brasil.

Os clubes alegaram que o fim abrupto dos contratos poderia provocar atrasos salariais, vendas emergenciais de jogadores e dificuldades para manter as equipes nas competições.

Dinheiro das bets aproximou rivais

A reação formou uma aliança incomum. Clubes de Estados, divisões e tamanhos diferentes passaram a defender o mesmo interesse econômico.

No futebol paulista, dirigentes também participaram de reuniões para avaliar as consequências da proibição e possíveis medidas conjuntas. A estimativa discutida pelo setor apontava impacto de até R$ 1 bilhão por ano somente em patrocínios diretos.

A mobilização ocorreu durante uma eleição na qual as apostas se transformaram em tema político. O governo defendeu a proibição como uma medida de proteção contra endividamento, dependência e problemas sociais. Os clubes sustentaram que os contratos haviam sido assinados dentro de um mercado regulamentado pelo próprio poder público.

Nesse caso, o futebol não tentou eleger um candidato. Tentou influenciar uma decisão de Estado que ameaça parte de seu modelo financeiro.

Torcidas são grandes, mas não são uniformes

A tentação de tratar uma torcida como bloco eleitoral esbarra na diversidade de seus integrantes. Clubes populares reúnem eleitores de esquerda, direita e centro, diferentes classes sociais e regiões do País.

Isso explica por que a idolatria não garantiu votos a alguns candidatos. Marcelinho Carioca é reconhecido por milhões de corintianos, mas recebeu 2.494 votos no Distrito Federal. Luís Fabiano é um dos maiores artilheiros do São Paulo, mas terminou com 9.613 votos na disputa para deputado federal.

A identidade clubística pode abrir espaço nas redes, gerar entrevistas e facilitar eventos. Na urna, porém, o eleitor separa com frequência o jogador admirado do político que pretende representá-lo.

Ex-dirigentes também foram derrotados

Nem mesmo a experiência de comando em grandes clubes assegurou sucesso. Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo, não conseguiu renovar o mandato de deputado federal. Marcos Braz, antigo vice-presidente de futebol rubro-negro, também não foi eleito.

Os resultados mostram que a visibilidade proporcionada por cargos esportivos possui prazo e alcance limitados. Administrar um clube expõe o dirigente a milhões de torcedores, mas também cria rejeição entre rivais e dentro da própria torcida.

A política partidária exige alianças, presença regional e atuação em temas que ultrapassam o futebol. O currículo esportivo pode impulsionar uma candidatura, mas também carrega desgastes acumulados durante a gestão.

Os casos de Danrlei e Luiz Lima

Danrlei e Luiz Lima aparecem como exceções entre os principais candidatos ligados ao esporte. Ambos foram eleitos deputados federais.

O ex-goleiro do Grêmio recebeu 105.079 votos no Rio Grande do Sul e confirmou a capacidade de transformar identificação esportiva em uma base política permanente. Luiz Lima garantiu a vaga pelo Rio de Janeiro com 37.711 votos.

Os dois casos indicam que o esporte funciona melhor como origem do que como programa completo. A fama oferece capital inicial, mas a permanência depende da construção de uma carreira própria na política.

ONDE O FUTEBOL ENTROU NA ELEIÇÃO

  • Ex-atletas utilizaram apelidos e histórias construídas nos clubes;
  • Dirigentes tentaram converter exposição administrativa em votos;
  • Candidatos buscaram identificação com grandes torcidas;
  • Clubes evitaram apoio partidário oficial para não dividir suas bases;
  • A proibição das bets transformou o futebol em grupo de pressão;
  • Sete clubes recorreram ao STF contra a medida do governo;
  • Poucos esportistas foram eleitos, mas o setor manteve influência econômica e institucional.