Rebaixada, endividada e sob transfer bans: o tamanho da reconstrução da Ponte Preta para 2027

Macaca terá de reformular o elenco para disputar a Série C enquanto enfrenta bloqueios para registrar jogadores, salários atrasados, perda de receitas e uma dívida

O rebaixamento antecipado representa apenas a primeira parte do problema da Ponte Preta

Série B - 2026 - Ponte Preta
Ponte Preta rebaixada na Série B

Campinas, SP, 05 (AFI) – O rebaixamento para a Série C colocou fim à agonia da Ponte Preta dentro da Série B, mas abriu uma corrida muito mais difícil fora de campo. Com seis jogos ainda pela frente, a Macaca já precisa planejar 2027 sem saber quando poderá registrar reforços, quais jogadores permanecerão e de onde virão os recursos para sustentar a próxima temporada.

A reconstrução começa por um problema elementar: a Ponte está submetida a transfer bans. As punições impedem o clube de registrar novos atletas enquanto as pendências que motivaram os bloqueios não forem regularizadas.

Isso não significa que a diretoria esteja proibida de conversar com jogadores ou assinar contratos. Na prática, porém, qualquer reforço contratado não poderá ser inscrito nas competições até que o clube pague as dívidas, renegocie os valores ou consiga suspender as sanções.

Ponte acumula diferentes bloqueios

Um dos impedimentos foi determinado pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas, a CNRD, depois que a Ponte deixou de pagar parcelas de um acordo coletivo firmado para quitar aproximadamente R$ 18 milhões devidos a jogadores, treinadores, clubes e intermediários.

O clube também recebeu punições da Fifa. Uma delas envolve valores relativos ao mecanismo de solidariedade do Iguazú Nippon, do Paraguai. Outra está relacionada a uma dívida decorrente da passagem do zagueiro boliviano Luis Haquin pelo Moisés Lucarelli.

A Ponte chegou a acumular três bloqueios simultâneos. Como não houve anúncio oficial sobre a retirada completa das punições, a Macaca continua dependendo da regularização desses processos para voltar ao mercado de maneira efetiva.

O histórico recente mostra o tamanho do risco. No início de 2026, o clube demorou para conseguir registrar reforços e precisou disputar as primeiras rodadas do Campeonato Paulista com um elenco reduzido, completado por jogadores das categorias de base. A improvisação terminou com o rebaixamento estadual.

Dívida pode superar R$ 380 milhões

As proibições são apenas uma parte de uma crise financeira mais ampla. A dívida total da Ponte é estimada em pelo menos R$ 380 milhões e pode ser ainda maior, dependendo da atualização de processos, encargos e obrigações que continuam em discussão.

Durante a Série B, jogadores e funcionários conviveram com atrasos que chegaram a seis meses. O elenco profissional entrou em greve e, diante do risco de uma derrota por W.O., a Ponte recorreu aos jovens da base para enfrentar o América-MG.

A falta de pagamentos também provocou uma debandada. Atletas procuraram a Justiça, obtiveram rescisões e deixaram Campinas justamente quando o clube mais precisava de alternativas para tentar evitar o rebaixamento.

Em menos de um ano, a equipe que havia conquistado o primeiro título nacional da história da Ponte foi desfigurada. O resultado apareceu na tabela: lanterna isolada, duas quedas na mesma temporada e uma das piores campanhas já registradas na Série B.

Queda reduz poder financeiro

A Série C oferecerá à Ponte uma exposição nacional menor, menos jogos com grande audiência e uma capacidade mais limitada de atrair patrocinadores. O clube também perderá força nas negociações comerciais e deverá reduzir novamente a folha salarial.

O impacto pode ser ampliado pelo fim dos contratos com empresas de apostas. A Ponte está entre os clubes que recorreram ao Supremo Tribunal Federal contra a proibição das bets, sob o argumento de que a ruptura dos acordos ameaça o pagamento de salários e a manutenção das atividades esportivas.

O desafio será cortar despesas sem montar um elenco incapaz de lutar pelo acesso. A Macaca conhece o tamanho dessa armadilha: depois de conseguir subir em 2025, não preservou a estrutura do time campeão e regressou à terceira divisão na temporada seguinte.

SAF ainda não oferece resposta imediata

A transformação em Sociedade Anônima do Futebol aparece como possível saída, mas não representa dinheiro disponível de maneira automática. O processo enfrentou disputas internas, questionamentos judiciais e dúvidas sobre as condições apresentadas pelos interessados.

Mesmo que um investidor seja aprovado, será necessário definir quais dívidas entrarão na operação, quanto será destinado imediatamente ao futebol, quem assumirá os passivos e quais garantias serão oferecidas ao clube associativo.

A SAF, portanto, pode fazer parte da reconstrução, mas não elimina a urgência. A Ponte precisa resolver os transfer bans, negociar com credores, normalizar os salários e começar a montagem do elenco antes do Campeonato Paulista.

Base volta ao centro do projeto

As categorias de base deverão ocupar um espaço importante. Os jovens já foram utilizados em situação emergencial durante a greve e podem oferecer alternativas mais baratas para o elenco de 2027.

O aproveitamento dos garotos, no entanto, precisa ocorrer dentro de um planejamento. Lançar atletas prematuramente apenas para completar escalações pode comprometer o desenvolvimento dos jogadores e reduzir o valor dos principais ativos do clube.

Gilson Kleina e o departamento de futebol terão os últimos jogos da Série B para avaliar quem poderá permanecer. A decisão não envolve apenas desempenho: idade, salário, duração do contrato, possibilidade de negociação e adaptação à Série C entrarão na conta.

A queda foi confirmada com antecedência suficiente para a Ponte iniciar imediatamente o trabalho. O problema é que, antes de contratar, o clube terá de recuperar o direito de registrar. Antes de prometer o acesso, precisará voltar a pagar. E, antes de pensar em reconstrução, terá de evitar que 2027 comece com os mesmos improvisos que destruíram 2026.

Os obstáculos da Ponte para 2027

  • Resolver os bloqueios impostos pela CNRD e pela Fifa;
  • Negociar dívidas com jogadores, treinadores, clubes e intermediários;
  • Normalizar salários e demais obrigações trabalhistas;
  • Definir quais jogadores possuem contrato e interesse em permanecer;
  • Reduzir a folha sem desmontar completamente o elenco;
  • Estruturar o aproveitamento das categorias de base;
  • Avançar ou redefinir o projeto de SAF;
  • Compensar a perda de receitas provocada pelo rebaixamento;
  • Montar um time competitivo para o Paulista e a Série C.

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