Ponte Preta recusou proposta bilionária? Decisão sobre SAF deixa clube na estaca zero
Maioria dos associados votou pela transformação do futebol em empresa, mas apoio não atingiu os dois terços exigidos
A votação tratava apenas da autorização para transformar o departamento de futebol em empresa.
Campinas, SP, 24 (AFI) – A Ponte Preta recusou uma proposta de R$ 1 bilhão em meio à maior crise financeira de sua história? A repercussão da votação realizada no Moisés Lucarelli criou essa impressão, mas o que aconteceu foi diferente.
Os associados não analisaram valores, contratos, garantias nem a identidade de possíveis investidores. A assembleia decidiu exclusivamente se autorizava a criação de uma Sociedade Anônima do Futebol para administrar o departamento de futebol da Macaca.
Sem alcançar o quórum exigido pelo estatuto, a transformação foi rejeitada. Como consequência, uma possível proposta de aproximadamente R$ 1 bilhão, anunciada pela diretoria, não avançou para a etapa de discussão.
Maioria votou pela SAF, mas proposta foi rejeitada
A assembleia reuniu 384 dos 676 associados que estavam aptos a votar. Foram registrados 234 votos favoráveis à criação da SAF e 150 contrários.
Apesar de o “sim” ter vencido por uma margem de 84 votos, a aprovação dependia do apoio de dois terços dos presentes. Eram necessários 256 votos favoráveis. Portanto, faltaram 22 votos para que o processo continuasse.
O resultado da votação
| Situação | Número |
|---|---|
| Associados aptos | 676 |
| Participantes | 384 |
| Votos pela SAF | 234 |
| Votos contra a SAF | 150 |
| Votos necessários | 256 |
| Votos que faltaram | 22 |
Na prática, aproximadamente 61% dos participantes apoiaram a mudança. O estatuto, entretanto, exigia pelo menos 66,7%.
O clube não colocou R$ 1 bilhão em votação
Esse é o ponto central para compreender o caso. Não havia na cédula o nome de um investidor nem uma proposta financeira. Os associados encontraram apenas as opções “sim” e “não” para a criação da SAF.
A votação serviria para referendar uma decisão anterior do Conselho Deliberativo, que havia aprovado a possibilidade de separar o departamento de futebol das demais atividades da associação.
O modelo apresentado previa que a futura empresa administrasse o futebol profissional e as categorias de base. Segundo a direção, os demais patrimônios e atividades sociais da Ponte não seriam automaticamente incluídos na operação.
Somente depois dessa autorização seria possível analisar formalmente investidores, contratos e condições para uma eventual venda de participação na SAF. Qualquer negócio ainda precisaria passar novamente pelos órgãos internos do clube.
De onde surgiu o valor de R$ 1 bilhão?
A diretoria da Ponte afirma ter recebido uma proposta próxima de R$ 1 bilhão de um grupo de investidores. O plano divulgado previa a distribuição dos recursos em três frentes:
- R$ 300 milhões para o pagamento de dívidas;
- R$ 300 milhões para o futebol e as categorias de base ao longo de dez anos;
- R$ 400 milhões para modernizar o Moisés Lucarelli e o centro de treinamento.
O valor, portanto, não significava que R$ 1 bilhão seria depositado imediatamente nos cofres do clube. Tratava-se de uma projeção de investimentos distribuídos entre dívidas, futebol e infraestrutura.
Também não houve votação sobre a capacidade financeira do grupo, as garantias do investimento, o percentual da SAF que seria negociado ou os mecanismos de proteção da associação. Esses pontos só seriam analisados nas fases seguintes.
Por que parte dos associados votou contra?
A discussão sobre a SAF foi atravessada pela disputa política interna. Integrantes da oposição questionaram a condução do processo e recorreram à Justiça para exigir medidas de controle na assembleia.
A votação precisou contar com a presença de tabeliães, filmagem e divulgação antecipada da lista de associados aptos. A primeira tentativa de realizar a assembleia, em agosto, terminou sem votação depois de confusão e decisões judiciais.
Depois da rejeição, opositores à atual administração comemoraram o resultado. Do lado de fora do estádio, torcedores protestaram contra o presidente Luiz Antônio Alves Torrano e o vice-presidente e diretor de futebol Marco Antonio Eberlin.
A resistência não significava necessariamente uma rejeição definitiva ao modelo de SAF. Parte dos contrários cobrava mais transparência, acesso aos documentos, garantias e participação na construção do processo.
O que acontece agora?
Com a derrota na assembleia, o processo voltou à estaca zero. A diretoria não pode simplesmente retomar a negociação com o investidor e assinar um contrato.
Se decidir insistir na criação da SAF, precisará reiniciar o caminho previsto no estatuto:
- Formar uma nova comissão para estudar o projeto;
- Produzir um parecer sobre o modelo;
- Encaminhar o tema ao Conselho Fiscal;
- Submeter a proposta ao Conselho Deliberativo;
- Convocar outra assembleia de associados;
- Alcançar novamente o quórum de dois terços.
Somente depois dessas etapas uma proposta de investimento poderia ser oficialmente avaliada e submetida às aprovações internas necessárias.
Decisão acontece no pior momento da história
A rejeição ocorreu enquanto a Ponte atravessa uma crise financeira, administrativa e esportiva. A dívida é estimada pela própria diretoria em aproximadamente R$ 380 milhões, enquanto o déficit mensal estaria próximo de R$ 2,8 milhões.
Os atrasos salariais provocaram uma greve do elenco e uma debandada de jogadores. Em determinados casos, as pendências com atletas e funcionários chegaram perto de um ano.
Dentro de campo, a Macaca foi rebaixada no Campeonato Paulista e ocupa a lanterna da Série B. A vitória sobre o CRB encerrou uma sequência de 22 partidas sem vencer, mas o clube continua muito próximo de retornar à terceira divisão.
Afinal, a Ponte recusou R$ 1 bilhão?
Não diretamente. Os associados rejeitaram a autorização para criar a SAF, etapa indispensável para que a possível proposta bilionária fosse analisada posteriormente.
Não houve avaliação do contrato, das garantias financeiras nem das condições do investidor. Por isso, afirmar simplesmente que a Ponte recusou R$ 1 bilhão distorce o que foi decidido.
O efeito prático, porém, é inegável: sem a criação da SAF, a negociação anunciada pela diretoria ficou bloqueada e o clube voltou ao ponto inicial na busca por uma saída para a crise.





































































































































