Executivo vê 'reserva de mercado' prejudicial ao Brasileirão

A partir de 2027, os clubes das Séries A e B terão de se adaptar a uma nova regra aprovada nesta semana

O cronograma prevê oito estrangeiros por partida em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e, finalmente, cinco em 2030

Brasileirão-2026
Brasileirão. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Campinas, SP, 23 (AFI) – A redução do limite de estrangeiros no Brasileirão já começa a gerar críticas no futebol nacional. A partir de 2027, os clubes das Séries A e B terão de se adaptar a uma nova regra aprovada nesta semana, que prevê a diminuição gradual do número de atletas estrangeiros relacionados por partida, passando dos atuais nove para cinco até 2030.

A mudança foi aprovada por clubes e Federações durante as discussões para o regulamento das duas principais divisões nacionais. O cronograma prevê oito estrangeiros por partida em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e, finalmente, cinco em 2030. Bahia, Flamengo e Londrina foram contrários à proposta.

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Além da limitação aos estrangeiros, também foi aprovada uma alteração relacionada à formação dos elencos. A partir de 2027, os clubes poderão inscrever até 50 jogadores no Brasileirão, sendo obrigatória a presença de pelo menos 20 atletas com até 23 anos. A exigência será ampliada progressivamente até 2030, quando metade das vagas deverá ser destinada a jogadores dessa faixa etária.

A CBF defende que as mudanças podem ampliar as oportunidades para atletas mais jovens formados no futebol brasileiro. Durante as discussões, a entidade apresentou dados sobre a idade média dos jogadores do Brasileirão, atualmente em 28,5 anos, número superior ao registrado nas principais ligas da Espanha, França e Itália.

A restrição aos estrangeiros, porém, é vista de maneira diferente por Romeu Carvalho de Castro, jornalista e executivo de futebol. Em artigo, ele critica a redução gradual e argumenta que a medida pode diminuir a capacidade de internacionalização do Campeonato Brasileiro.

Para Romeu, limitar a presença estrangeira pode gerar efeitos como aumento dos valores pagos por jogadores brasileiros e perda de atratividade internacional da competição.

A INCOERÊNCIA DA RESERVA DE MERCADO

REDUZIR ESTRANGEIROS ENFRAQUECE O BRASILEIRÃO

A decisão da CBF de reduzir gradativamente de 9 para 5 o número de estrangeiros relacionados por partida até 2030 é incoerente com o momento do futebol brasileiro e vai na contramão do mundo.

O argumento de “proteger o jovem brasileiro” é nobre, mas o remédio está errado.

Hoje, vivemos o recorde de internacionalização do nosso campeonato. Em 2026, são 172 estrangeiros em atividade. Cada um desses atletas traz consigo um novo mercado. Quando um Arrascaeta joga, o Uruguai assiste.

Quando um Gómez joga, o Paraguai assiste. Quando temos colombianos, equatorianos, argentinos, paraguaios e venezuelanos em campo, multiplicamos o interesse internacional no Brasileirão. Isso amplia audiência, amplia direitos de transmissão, amplia valor comercial e, consequentemente, amplia o valor técnico da nossa liga.

Reduzir estrangeiros é reduzir a vitrine internacional do produto Brasileirão justamente quando o mundo começa a olhar para cá.

A reserva de mercado terá um efeito colateral imediato e previsível: inflação do atleta nacional mediano. Ao fechar o mercado, os clubes serão obrigados a disputar os mesmos jogadores brasileiros, sem que haja qualidade equivalente disponível.

Vamos pagar mais caro por menos qualidade. O resultado não será mais jovens em campo, mas um campeonato mais caro, mais velho e menos competitivo. Os dados da própria CBF já mostram que a idade média subiu para 28,5 anos – mas isso não é culpa do estrangeiro qualificado, e sim da má gestão de elenco e da falta de política de transição da base.

O melhor exemplo mundial desmonta a tese da CBF: a Premier League.

A liga mais valiosa e mais vista do mundo é a que tem maior número de estrangeiros. Nem por isso a Inglaterra deixou de formar. Pelo contrário: convivendo e competindo diariamente com os melhores do mundo dentro de casa, a Inglaterra chegou a duas finais de Eurocopa e foi semifinalista e quartilista nas duas últimas Copas. A presença estrangeira não enfraqueceu a Seleção. Qualificou-a.

O futebol não se desenvolve se protegendo dele. Se desenvolve se expondo ao melhor.

O que precisamos não é limitar o estrangeiro, é qualificar o brasileiro para competir com ele. Cota obrigatória de Sub-23 em lista, como a CBF também propôs, faz todo o sentido. Fechar a fronteira para talento, não.

Se o objetivo é valorizar o futebol brasileiro, a medida aponta exatamente para o lado oposto.

Romeu Carvalho de Castro
Jornalista e Executivo de Futebol