Brasil de Oliveira virou tema de filmes e rendeu vários livros. Foi um dos idealizadores da torcida Gaviões da Fiel e fez história.
Trinta anos sem o jornalista Brasil de Oliveira, que ensinava como se comentar futebol. Ele morreu com apenas 46 anos.
Por ARIOVALDO IZAC
Campinas, SP, 9 (AFI) – Como tenho citado de forma recorrente respeitáveis analistas de futebol do passado de Campinas, veio a lembrança deste dez de setembro, data que marca o 30º ano da morte do jornalista Brasil de Oliveira, o Brasa.
Apesar de todo jeito de sexagenário, ele morreu aos 46 anos de idade, mas contava histórias do futebol com riqueza de detalhes.
Imaginem se o ‘velho Brasa’ deixaria de citar nominalmente Marco Eberlin, diretor de futebol da Ponte Preta, como o responsável direto pela degradação que transformou o clube.
BRASA, INCOMPARÁVEL
Cabe recapitular texto que publiquei há seis anos, quando citei a singularidade dele no jornalismo esportivo de Campinas, incomparável no segmento.
Na ocasião, lembrei do evangelho de João, da Bíblia Sagrada, no capítulo 17 e versículo 16, em sermão de Jesus Cristo: ‘Vivo no mundo, mas não sou do mundo’.
Na doutrina dos evangélicos pentecostais do passado, isso significava que membros daquelas comunidades deveriam ficar alheios às coisas materiais e terem apego apenas às espirituais.
CATÓLICO E COMUNICATIVO
Brasil Oliveira foi um católico praticante, devoto de Nossa Senhora Aparecida, todavia pode-se dizer que vivia no mundo, mas parecia um ser de outro mundo.
Por quê? Ora, você conhece alguém lúcido, sábio e comunicativo ser totalmente desprendido de bens patrimoniais?
ROUPA DO CORPO
Difícil, mas o Brasa era assim. E testemunhou isso no ar, na antiga Rádio Educadora de Campinas, um dos veículos de comunicação que trabalhou:
“Meu patrimônio se resume a algumas anotações telefônicas, alguns livros e a roupa do corpo”.
Automóvel? Nem pensar. Quanto tinha dinheiro esbanjava, ao se transportar de táxi.
‘Durango’, como ocorria na maioria das vezes, usava ônibus ou apelava aos amigos para a carona.
Brasa era capaz de interromper o sono de amigo durante a madrugada.
PAPO FURADO
Assunto sério? Que nada. O telefonema, invariavelmente, era para ‘papo furado’.
E seus amigos entendiam que ele ficava atordoado com a solidão e o perdoavam.
Pronto, a humildade parava aí. Quando a discussão com amigos ou companheiros de trabalho se restringia ao seu ofício, o jornalismo esportivo, no alto de sua arrogância, dizia que estava anos luz à frente dos jornalistas esportivos.
“Só João Saldanha sabia mais que eu”, vangloriava-se.
Brasil de Oliveira virou tema de filmes e rendeu vários livros.
INFORMANTES
A rede de informantes dele se estendia de Norte a Sul do País. ‘Tomava’ literalmente uma linha telefônica da sucursal da Agência Estado, em Campinas, e nem se importava com o zunido.
Brasa era singular. Da mesma forma que contava cativantes histórias em botequim, se expressava no rádio. E no bar, antes mesmo de ser diagnosticado paciente cardíaco, detestava bebida alcoólica.
Era um boêmio que varava madrugadas bebendo água Lindoya ou Coca-Cola.
Claro que também se empanturrava com guloseimas, contrariando prescrição alimentar de seu cardiologista.
Seu ponto de encontro preferido era o Largo do Rosário, área central de Campinas.
E dali para o Éden Bar, em frente, local onde se falava de futebol, política e comportamento humano.
Ali, frequentadores participavam de rodas pra se detectar quem sabia mais, quem tinha o raciocínio mais rápido.
POLÍTICA E GAVIÕES DA FIEL
Embora politizado, Brasa era avesso às discussões políticas. Provavelmente por conta de resquícios dos tempos de estudante ativista, quando sofreu repressão da Polícia Federal, em São Paulo, no período da ditadura militar.
Brasil de Oliveira foi um dos idealizadores da torcida do Corinthians, Gaviões da Fiel no final dos anos de 1960.
O bom coração do Brasa espatifou em 1996, prestes a completar 47 anos de idade. E espatifou porque era desproporcional, enorme para comportar a legião de amigos.
CACHORRO MORTO
Como se vê, Brasa era diferente em quase tudo. Ensinava aos seus discípulos que não se deve chutar ‘cachorro morto’.
Alertava que comentarista de futebol tem a obrigação de opinar sobre o perfil do jogador contratado por um clube, ou deve se calar para sempre.
“Quem age de forma contrária é oportunista”, dizia.





































































































































