Do título ao rebaixamento, presidente do Primavera-MT desabafa
O cenário representa uma mudança brusca para um clube jovem, presidido e fundado por Bruno Manfio
A reflexão do dirigente ganha ainda mais força pelo contraste com o que o próprio Primavera viveu recentemente
Primavera do Leste, MT, 01 (AFI) – De campeão Mato-Grossense em 2025 a rebaixado no Campeonato Estadual na atual temporada e sem vaga no calendário nacional para 2027, o Primavera-MT viveu, em apenas um ano, o verdadeiro dilema do “céu ao inferno”
O cenário representa uma mudança brusca para um clube jovem, presidido e fundado por Bruno Manfio, que havia comemorado, há pouco tempo, a conquista estadual e projetado uma temporada histórica com a participação em competições nacionais.
A trajetória profissional do Primavera começou com dificuldades. Em sua primeira experiência na Segunda Divisão do Campeonato Mato-Grossense, o clube não conseguiu avançar da primeira fase, somando apenas dois pontos, com dois empates e duas derrotas.
A evolução, porém, foi rápida. Na temporada seguinte, o Primavera conquistou o acesso à elite estadual após superar o Grêmio Sorriso nas semifinais. Na decisão, venceu a Atlética Araguaia por 3 a 2 e levantou o título da Segunda Divisão.
Após se estabelecer entre os principais clubes de Mato Grosso em 2024, o Gigante Roxo viveu uma campanha histórica em 2025. Depois de avançar na primeira fase, eliminou o Nova Mutum nas quartas de final e superou o Mixto nas semifinais, com a classificação conquistada nas cobranças de pênaltis.
Na grande decisão, o desafio era ainda maior. Do outro lado estava o Cuiabá, clube consolidado no cenário nacional e favorito ao título. Após perder o primeiro jogo por 2 a 1, o Primavera venceu por 1 a 0 na Arena Pantanal e levou a disputa para os pênaltis.
Nas cobranças, o Gigante Roxo venceu por 4 a 2 e conquistou o primeiro título da elite mato-grossense de sua história. A conquista também garantiu vagas inéditas na Copa do Brasil, Copa Verde e Série D de 2026.
O SONHO NACIONAL VIROU FRUSTRAÇÃO
O título estadual abriu as portas para uma temporada que poderia representar um novo patamar para o Primavera. Pela primeira vez, o clube teria um calendário repleto de desafios nacionais.
Mas os resultados de 2026 ficaram muito abaixo das expectativas.
O primeiro grande golpe aconteceu justamente no Campeonato Mato-Grossense. Atual campeão, o Primavera terminou a competição na nona colocação entre dez equipes e acabou rebaixado para a Segunda Divisão, após conquistar apenas uma vitória, uma derrota e incríveis sete empates, em nove jogos.
Na Copa do Brasil, o clube conseguiu avançar em sua estreia nacional ao vencer o Bragantino-PA por 2 a 1. Na segunda fase, porém, foi eliminado pelo Atlético-GO após derrota por 1 a 0.
A campanha na Copa Verde também não trouxe os resultados esperados, com o Primavera terminando na última colocação de seu grupo.
A última esperança estava na Série D. Na rodada decisiva da primeira fase, o Gigante Roxo precisava de um resultado positivo para seguir na briga pela classificação, mas sofreu uma dolorosa derrota de virada por 2 a 1 para o Brasiliense, mesmo atuando com dois jogadores a mais.
A eliminação deixou o clube fora do mata-mata e, consequentemente, sem uma vaga em competições nacionais para a temporada de 2027.
PRESIDENTE FAZ DESABAFO
Em meio ao cenário vivido pelo clube, Bruno Manfio publicou um longo desabafo nas redes sociais. Mais do que falar apenas sobre o rebaixamento do Primavera, o dirigente fez uma reflexão sobre a realidade financeira dos clubes que estão na base da pirâmide do futebol brasileiro.
Para o presidente, existe uma visão equivocada de que o futebol, por movimentar cifras milionárias em grandes campeonatos, seja uma indústria financeiramente saudável em todos os seus níveis.
“A gente tem essa referência do futebol espetáculo, com estádio cheio, atletas de primeira prateleira e milhões envolvidos. Mas essa é a realidade da Copa do Mundo, da Premier League e da Série A. Essa realidade não existe na base da pirâmide.”
Manfio apontou especialmente para a dificuldade de encontrar fontes de receita capazes de manter clubes menores durante toda a temporada.
Segundo ele, o Primavera recebeu valores que, somados, não seriam suficientes sequer para cobrir uma parte significativa dos custos mensais de um elenco profissional.
“As linhas de receita que sustentam o futebol que a gente assiste na televisão não existem na base da pirâmide.”
A reflexão do dirigente ganha ainda mais força pelo contraste com o que o próprio Primavera viveu recentemente. Em 2025, o clube celebrava a conquista do Estadual e a chegada inédita ao cenário nacional. Antes da temporada de 2026, Manfio já havia reconhecido que o calendário cheio representaria um enorme desafio para uma equipe de orçamento reduzido.
UM PROBLEMA QUE VAI ALÉM DO PRIMAVERA
O principal ponto levantado pelo presidente é um dos maiores dilemas do futebol de menor expressão no Brasil: como sobreviver sem receitas constantes?
Clubes das divisões inferiores convivem com estádios de público reduzido, pouca arrecadação com bilheteria, contratos curtos de jogadores e praticamente nenhuma receita relevante de direitos de transmissão.
No caso do Primavera, a própria diretoria precisou buscar alternativas fora das fontes tradicionais de receita. Durante a Série D de 2026, por exemplo, o clube lançou uma campanha envolvendo o sorteio de um terreno recebido em uma negociação de patrocínio, em uma tentativa de ampliar a exposição do parceiro e criar novas possibilidades comerciais.
E existe outro problema estrutural: a formação e a negociação de atletas.
Para muitos clubes pequenos, revelar um jogador e realizar uma grande venda poderia representar uma mudança completa de patamar financeiro. Mas esse processo exige investimento em categorias de base, estrutura, profissionais e tempo justamente elementos difíceis de manter quando a sobrevivência do clube depende do resultado do próximo campeonato.
Em cidades distantes dos principais centros do futebol brasileiro, o desafio pode ser ainda maior. Atrair jovens talentos, mantê-los por tempo suficiente e competir com clubes maiores que possuem estruturas mais consolidadas transforma a formação de atletas em um projeto caro e de longo prazo.
ENTRE O SONHO E A SOBREVIVÊNCIA
O Primavera-MT se tornou, em pouco tempo, um retrato dos extremos do futebol brasileiro. Em 2025, derrotou o poderoso Cuiabá e conquistou o título estadual. No ano seguinte, disputou pela primeira vez Copa do Brasil, Copa Verde e Série D.
Mas, ao fim da temporada, o clube se viu rebaixado no Estadual e fora do calendário nacional de 2027.
O desabafo de Bruno Manfio, portanto, ultrapassa a situação específica do Gigante Roxo. A reflexão do presidente é sobre um modelo em que centenas de clubes trabalham durante meses apostando praticamente tudo em resultados esportivos, sem possuir receitas capazes de garantir estabilidade.
Para sobreviver, não basta apenas sonhar com títulos e acessos. É preciso encontrar um modelo que permita aos pequenos clubes permanecerem vivos tempo suficiente para continuar sonhando.





































































































































