O que travou a SAF bilionária da Ponte Preta no momento mais crítico de sua história

Dúvidas sobre o formato da nova empresa, suspeitas envolvendo o colégio eleitoral e exigências de transparência levaram ao adiamento da votação

A Justiça não proibiu a Ponte Preta de votar a criação da SAF. Duas decisões impuseram regras para esclarecer o alcance da autorização e documentar quem participaria da assembleia

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Ponte Preta segue em situação delicada na temporada

Campinas, SP, 25 (AFI) – A votação que poderia abrir caminho para a criação da SAF da Ponte Preta foi travada por uma combinação de disputas políticas, dúvidas jurídicas e falta de estrutura para cumprir determinações judiciais expedidas poucas horas antes da assembleia.

A reunião estava marcada para segunda-feira (24), no estádio Moisés Lucarelli, mas terminou sem que os associados votassem. Em meio a discussões dentro do Salão Nobre, protestos e gritos de “renúncia”, o presidente do Conselho Deliberativo, José Armando Abdalla Júnior, decidiu adiar a deliberação.

Ao contrário do que a confusão pode sugerir, a Justiça não suspendeu nem proibiu a criação da SAF. Uma das decisões, assinada pela juíza Maria Raquel Campos Pinto Tilkian Neves, da 6ª Vara Cível de Campinas, determinou expressamente a manutenção da assembleia.

O documento, obtido pela reportagem, mostra que o ponto central da disputa era a transparência do processo e a regularidade das pessoas habilitadas a votar.

Suspeitas sobre o colégio eleitoral

A ação foi apresentada por um grupo de associados que levantou dúvidas sobre a composição do colégio eleitoral. Os autores citaram decisões anteriores que identificaram indícios de irregularidades na exclusão de conselheiros e resistência da Ponte Preta ao cumprimento de ordens para apresentar documentos.

Também foi mencionada uma perícia ainda não concluída sobre a integridade do cadastro associativo. Esse banco de dados é utilizado para determinar quais associados estão aptos a participar e votar nas decisões do clube.

Na avaliação da magistrada, os elementos apresentados eram suficientes para justificar a criação de mecanismos independentes de documentação. A decisão ressaltou que, sem registros confiáveis, seria difícil reconstruir posteriormente o processo de credenciamento, votação e apuração em caso de novas contestações judiciais.

A juíza autorizou a gravação audiovisual completa da assembleia e determinou a presença de um tabelião para produzir uma ata notarial dos acontecimentos.

O tabelião teria de perguntar individualmente a cada votante se as mensalidades estavam em dia e registrar a forma de pagamento utilizada: boleto bancário, Pix ou dinheiro. As informações deveriam constar na ata para permitir uma futura verificação judicial da habilitação dos associados.

A decisão também impediu que os autores da ação sofressem suspensão ou restrição de seus direitos políticos dentro do clube apenas por terem procurado a Justiça.

O pedido para a presença de um oficial de Justiça fiscalizando diretamente o credenciamento e a votação, entretanto, foi negado. A magistrada entendeu que essa medida representaria interferência excessiva na autonomia interna da associação.

Transformação ou separação do futebol?

Uma segunda decisão atingiu outro ponto considerado decisivo: o que exatamente seria autorizado pelos associados.

O edital apresentava duas possibilidades. Na transformação, toda a Ponte Preta deixaria o modelo associativo e passaria a ser uma Sociedade Anônima do Futebol. Na cisão, somente os departamentos de futebol profissional e de base seriam separados e transferidos para uma nova empresa.

A diferença é profunda. Na cisão, a associação continuaria existindo e poderia preservar sob seu controle o estádio Moisés Lucarelli, o Clube das Paineiras, o CT do Jardim Eulina e as demais atividades sociais.

A Justiça determinou que, antes do início da discussão, a mesa esclarecesse qual dos dois modelos seria submetido aos associados. A medida tentava impedir que uma autorização genérica fosse posteriormente utilizada para justificar uma operação diferente daquela compreendida pelos votantes.

A oposição também questionava o alcance da decisão. Pelo Estatuto Social, depois de autorizada a criação da SAF, a Diretoria Executiva poderia celebrar contratos e adotar as providências necessárias para concretizar o projeto.

Os críticos da condução adotada não se declararam contrários à SAF, mas argumentaram que os associados precisavam saber com precisão quais poderes seriam entregues à diretoria.

Clube não conseguiu cumprir exigências

Com as decisões entregues pouco antes do começo dos trabalhos, a Ponte Preta avaliou que não possuía condições operacionais para realizar a votação naquele momento.

A diretoria jurídica afirmou que o clube não estava preparado para cumprir todas as exigências, especialmente o registro individual da situação financeira dos votantes e a documentação integral dos trabalhos.

Por prudência, o presidente do Conselho Deliberativo encerrou a reunião. A decisão evitou que uma votação realizada sem o cumprimento das determinações pudesse ser anulada posteriormente.

A oposição, por outro lado, sustentou que uma equipe de filmagem já estava no estádio, mas não recebeu autorização para entrar no Salão Nobre. As partes também divergiram sobre a disponibilidade dos profissionais necessários para acompanhar a assembleia.

R$ 1 bilhão não estava em votação

Apesar de o projeto ser tratado como uma SAF de aproximadamente R$ 1 bilhão, a proposta financeira de um possível investidor não seria aprovada naquela reunião.

A assembleia votaria apenas a autorização para a Ponte criar sua SAF. A identidade da empresa interessada, os contratos, a transferência das ações e os compromissos financeiros ainda precisariam passar por outras etapas internas.

O projeto discutido nos bastidores prevê R$ 300 milhões para o pagamento de dívidas, outros R$ 300 milhões em investimentos no futebol durante dez anos e aproximadamente R$ 400 milhões destinados à modernização do Majestoso.

A proposta também prevê que o investidor controle 85% das ações, enquanto a associação mantenha 15%. Os termos definitivos, porém, ainda dependeriam de análise e aprovação do Conselho Deliberativo.

Adiamento agrava crise

O impasse acontece no pior momento esportivo e financeiro da história recente da Ponte Preta. Lanterna da Série B e há 18 partidas sem vencer, a equipe também sofre com salários atrasados e três punições que impedem o registro de reforços.

Os jogadores afirmam estar há aproximadamente seis meses sem receber e haviam estabelecido o dia 25 de agosto como prazo para uma solução. O grupo anunciou que poderia interromper as atividades e deixar de entrar em campo caso atletas e funcionários não fossem pagos.

A expectativa era que a aprovação da SAF permitisse a entrada de um aporte emergencial. Como a votação não aconteceu, a promessa feita ao elenco ficou sem sustentação e aumentou a possibilidade de um novo protesto na reapresentação.

Para retomar o processo, o Conselho Deliberativo precisará publicar outro edital e respeitar o intervalo estatutário de 15 dias até a nova assembleia. Ainda não existe uma data confirmada.

A SAF bilionária, portanto, não foi barrada por uma decisão contrária ao modelo. O que interrompeu o processo foi a ausência de respostas claras sobre o formato da empresa, a desconfiança sobre quem poderia votar e a incapacidade do clube de cumprir, naquela noite, as exigências de transparência impostas pela Justiça.

A decisão da 6ª Vara Cível de Campinas foi proferida no processo nº 4037198-44.2026.8.26.0114.