O que existe por trás do alerta de Zanardi de que a Ponte pode 'fechar'

Salários atrasados, funcionários sem receber há mais de um ano, campos precários, elenco reduzido e reforços impedidos de estrear ajudam a explicar o desabafo do treinador

Márcio Zanardi afirmou que a transformação em SAF se tornou essencial para a sobrevivência da Ponte Preta.

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Ponte Preta está em crise sem fim

Campinas, SP, 17 (AFI) – O alerta feito por Márcio Zanardi depois do empate por 1 a 1 com o Náutico não foi apenas uma frase de impacto provocada pelo momento ruim da Ponte Preta. Quando afirmou que o clube precisa se transformar em SAF para não “fechar”, o treinador expôs uma estrutura que deixou de oferecer condições básicas ao futebol e aos funcionários.

Os atrasos salariais são a face mais conhecida da crise, mas estão longe de ser o único problema. Há relatos de trabalhadores sem receber há mais de um ano. Campos do centro de treinamento, alimentação, fisioterapia, quantidade de profissionais e materiais utilizados na rotina do elenco também foram mencionados por Zanardi ao descrever as dificuldades enfrentadas diariamente.

“O clube precisa de dinheiro, precisa virar SAF, senão vai fechar. Isso é realidade”, afirmou o treinador.

A dimensão humana apareceu em outro trecho do desabafo. Zanardi pediu que a situação não fosse observada apenas pela perspectiva dos jogadores e lembrou funcionários que recebem salários muito menores, como seguranças e profissionais da cozinha. Segundo ele, o elenco continua entrando em campo também por essas pessoas.

Jogadores exaustos e preparação sem treino

A precariedade já interfere diretamente na preparação da equipe. Com um grupo reduzido e desgastado, Zanardi decidiu não realizar atividades em campo antes do confronto com o Vila Nova, marcado para quarta-feira (19), em Goiânia. Os dias anteriores à viagem serão destinados à recuperação física, com uma sessão de vídeo prevista para a véspera da partida.

A medida busca evitar novas lesões em um elenco que já acumula baixas. Diego Porfírio, Danilo Barcelos e Jonathan Cafu estão fora por problemas musculares. Rodrigo Souza e Murilo Cavalcante também são dúvidas. Sem peças suficientes para promover rodízio, a comissão técnica tem mantido em campo jogadores que apresentam sinais de esgotamento físico e mental.

O cenário ajuda a explicar a sequência de 16 partidas sem vitória na Série B, com 13 derrotas. A Ponte ocupa a última colocação, com dez pontos em 22 rodadas, e caminha para sofrer o segundo rebaixamento na mesma temporada, depois da queda no Campeonato Paulista.

Reforços contratados, mas impedidos de jogar

Mesmo diante da necessidade de renovar o elenco, a Ponte não consegue utilizar os jogadores contratados durante a janela de transferências. O clube enfrenta três transfer bans — dois aplicados pela Fifa e um pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas — que impedem o registro de novos atletas.

Ao todo, 11 reforços aguardam liberação. Estão nessa situação o goleiro Douglas Marques; os zagueiros Alex Nascimento, Hiago Ribeiro e Diogo Silva; os laterais Williams Bahia e Jota; o volante Otávio; os meias Cesinha, David Braw e Enzo Boer; e o atacante João Neto.

A consequência aparece na escalação e no banco de reservas. Contra o Náutico, 11 dos 18 jogadores relacionados haviam sido formados nas categorias de base da Ponte. Entre eles estava Matheus Souza, lateral-esquerdo de 17 anos que fez sua estreia profissional e deixou o gramado emocionado.

A utilização dos jovens poderia representar apenas uma escolha esportiva, mas, neste caso, também revela a falta de alternativas. A base passou a preencher os espaços deixados por atletas lesionados, jogadores que saíram por falta de pagamento e reforços que não podem ser inscritos.

SAF é tratada como saída para a crise

É nesse contexto que Zanardi defende a transformação da Ponte em Sociedade Anônima do Futebol. A proposta será analisada pelos associados em assembleia marcada para 24 de agosto, no Moisés Lucarelli.

O projeto prevê R$ 300 milhões para o pagamento de dívidas, outros R$ 300 milhões para investimentos no futebol ao longo de dez anos e R$ 400 milhões para a modernização do Majestoso e melhorias no centro de treinamento. Também está previsto um aporte inicial de R$ 10 milhões, condicionado ao cumprimento de exigências jurídicas e financeiras.

A aprovação da SAF, entretanto, não resolverá imediatamente todos os problemas nem representa garantia automática de recuperação. O negócio ainda dependerá da execução do contrato, da capacidade financeira dos investidores e da fiscalização das obrigações assumidas.

O que o pronunciamento de Zanardi evidencia é que a discussão deixou de tratar apenas do futuro esportivo. A Ponte tenta evitar o rebaixamento para a Série C enquanto luta para sustentar o próprio funcionamento. Hoje, montar um time competitivo é apenas uma parte do desafio. A prioridade passou a ser recuperar as condições mínimas para que o clube consiga trabalhar.