Dívida milionária e rombo mensal: os números que empurraram a Ponte para a SAF

Presidente estima passivo de R$ 300 milhões e déficit de aproximadamente R$ 3 milhões por mês

É uma matéria de serviço e bastidor para responder à principal pergunta do torcedor: por que a Ponte precisa virar SAF?

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Moisés Lucarelli

Campinas, SP, 14 (AFI) – A possível transformação da Ponte Preta em Sociedade Anônima do Futebol não é apenas uma tentativa de modernizar a administração do clube. Os números apresentados pela própria diretoria indicam que a mudança se tornou uma alternativa para enfrentar uma crise que compromete salários, contratações e o futuro esportivo da Macaca.

Segundo o presidente Luiz Antônio Torrano, o endividamento da Ponte gira em torno de R$ 300 milhões. Além do passivo acumulado, o clube opera com um déficit mensal estimado em R$ 3 milhões — diferença entre o que arrecada e o valor necessário para manter suas atividades.

Na prática, a conta não fecha. A falta de recursos provocou atrasos nos pagamentos de jogadores, integrantes da comissão técnica e funcionários. O clube também acumulou processos trabalhistas, perdeu atletas e sofreu punições que impediram a inscrição de reforços.

Uma das sanções foi aplicada pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas da CBF após o atraso de três parcelas de um acordo coletivo. Na ocasião, os pagamentos pendentes somavam cerca de R$ 600 mil. A Ponte alegou que havia dinheiro reservado, mas que a liberação dependia de procedimentos judiciais.

O transfer ban agravou um problema que já atingia diretamente o campo. Sem liberdade para registrar jogadores e pressionada pela necessidade de reduzir a folha salarial, a diretoria passou a trabalhar com menos alternativas para reforçar o elenco.

A sequência de dificuldades ajuda a explicar por que a criação de uma SAF ganhou força nos bastidores. O projeto apresentado ao clube pode movimentar até R$ 1,1 bilhão e prevê um aporte inicial, novos investimentos nos primeiros anos e medidas para reorganizar as dívidas.

A proposta também inclui recursos para recuperar a competitividade do futebol e modernizar estruturas como o centro de treinamento e o Estádio Moisés Lucarelli. Os detalhes financeiros e operacionais, entretanto, permanecem sob cláusulas de confidencialidade.

O valor de R$ 1,1 bilhão não significa que todo o dinheiro será depositado imediatamente nos cofres da Ponte. A quantia representa o potencial global da operação, que pode reunir o investimento inicial, aportes futuros, pagamento de obrigações e melhorias na infraestrutura ao longo dos anos.

Dirigente vê aporte como saída imediata

Ao anunciar o avanço das conversas, Torrano afirmou que o investimento inicial seria suficiente para solucionar as pendências que provocaram o transfer ban e colocar em dia os pagamentos de atletas, comissão técnica e funcionários.

O dirigente também revelou que a Ponte havia recebido duas propostas. Uma foi considerada insuficiente para as necessidades do clube. A outra avançou e passou a ser tratada como a principal alternativa para a reestruturação financeira.

Caso a operação não seja aprovada pelos associados, o aporte inicial poderá ser convertido em empréstimo, conforme a possibilidade apresentada pelo presidente. As condições desse eventual financiamento ainda precisarão ser detalhadas.

Conselho dá primeiro passo

O Conselho Deliberativo autorizou o prosseguimento do processo de constituição da SAF. Em reunião realizada no Moisés Lucarelli, 106 dos 128 conselheiros presentes votaram favoravelmente à continuidade — aprovação de aproximadamente 83%.

A decisão não representa a venda imediata do futebol. Ela permite que o processo avance para as próximas etapas previstas no estatuto da associação.

Uma Assembleia Geral Extraordinária está marcada para 24 de agosto. Os associados deverão deliberar sobre a constituição da empresa que poderá assumir o departamento de futebol.

Mesmo com o amplo apoio no Conselho, questões fundamentais ainda precisam ser esclarecidas: quem são todos os investidores, qual participação será negociada, como os aportes serão distribuídos, quais garantias serão oferecidas e qual poder permanecerá com a associação.

Crise também aparece dentro de campo

O desequilíbrio financeiro teve reflexos diretos no desempenho esportivo. Depois de conquistar a Série C em 2025, a Ponte foi rebaixada no Campeonato Paulista e passou a ocupar a lanterna da classificação da Série B.

A combinação de atrasos, redução do elenco, perda de jogadores e limitações para contratar tornou a reação mais difícil. Com isso, a eventual SAF pode herdar um clube ameaçado de disputar a Série C do Campeonato Brasileiro e a Série A2 do Paulista em 2027.