Mauro Silva recorda conquista do Bragantino que completa 30 anos em 2020

Campeão com o Massa Bruta em 1990, ex-jogador relembra de momentos de determinação e superação daquela equipe

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Campeão com o Massa Bruta em 1990, ex-jogador relembra de momentos de determinação e superação daquela equipe

Bragança Paulista, SP, 12 - Até 1990, apenas a Inter de Limeira havia conquistado o maior campeonato estadual do país sendo uma equipe do interior de São Paulo. No ano que representava o fim da década de 80, o Bragantino repetiu o feito.

Da empolgante campanha daquele elenco, muitos jogadores, além do treinador, surgiram para o futebol e tiveram carreiras consolidadas. Um deles é atual vice-presidente da FPF, Mauro Silva. Na semana que completa 30 anos do fim da primeira fase daquele campeonato, o antigo volante falou sobre a determinação e a superação que aquele time demonstrou para ser campeão.

“Realmente para uma equipe do interior, essa ambição, esse desejo, parecem quase uma utopia, dependendo das circunstâncias. É que nós tínhamos algumas características especiais naquele Bragantino. Um treinador muito ambicioso e determinado, como era o Vanderlei Luxemburgo. Um grupo jovem querendo construir uma carreira de sucesso. Além de tudo, éramos um grupo muito determinado e motivado. Inclusive, tínhamos acabado de conquistar a Série B do Campeonato Brasileiro, o que também nos permitia sonhar”.

Foto: Rodrigo Corsi/FPF
Foto: Rodrigo Corsi/FPF
Ainda em 1989 o Bragantino já vinha surpreendendo, quando foi campeão da Série B do Brasileiro e garantiu acesso à elite do futebol nacional. No ano seguinte, veio o tão sonhado título paulista. Somente mais dois clubes interioranos o fizeram desde então.

O Ituano em 2002 e 2014 e o São Caetano em 2004. Segundo o camisa 5 da emblemática 'Carijó', o título da segunda divisão nacional deu certa confiança àquele jovem elenco que viria, inclusive, a ser vice campeão brasileiro em 1991.

“A partir do momento que você vence uma competição desse nível, que naquele ano havia 96 clubes participando, a gente começou a acreditar e a sonhar grande. Então a gente começou sim o campeonato, apesar de parecer muito difícil competir com as equipes da capital, com o pensamento de que precisávamos sair com o maior objetivo que era ser campeão, e lutar para conquistar esse sonho. Aconteceu. Tanto que depois quase fomos campeões brasileiros da Série A. Então era aquela coisa de pensar grande e trabalhar muito”, afirma.

A CAMPANHA
O Campeonato Paulista de 1990 contava com 24 participantes, que se dividiram em duas chaves com 12 clubes em cada. Do Grupo 1, se classificariam sete equipes, enquanto cinco avançavam do Grupo 2.

Os outros 12 eliminados foram divididos em dois grupos para uma repescagem em que os dois melhores de cada chave se juntariam aos 12 classificados anteriormente. As 14 equipes foram divididas em dois grupos de sete em que os campeões de cada grupo avançavam à decisão: Bragantino e Novorizontino.

“Você tem que acreditar. Sempre falo que é preciso ter otimismo e pensar grande, mas o trabalho tem que estar junto. A dedicação no treino, a alimentação, o descanso. O 'treinamento invisível', que a gente utiliza essa expressão muitas vezes, não é só você treinar. É preciso se alimentar bem, descansar, estudar os adversários, saber os pontos fortes e fracos do seu próprio time. Todo esse conjunto de variáveis faz um time ser campeão. Lógico, também um treinador com capacidade, com esquema tático, com poder de jogo adequado. É um conjunto de fatores”, ressalta o meia daquela campanha.

 Fotos: Reprodução
Fotos: Reprodução
Terceiro colocado na primeira fase, o time comandado por Vanderlei Luxemburgo cresceu quando valia vaga na decisão. Alcançou sete vitórias, quatro empates e apenas uma derrota. O que o levou à primeira colocação com 18 pontos, um a mais que o Corinthians, segundo colocado.

“São alguns ajustes que você acaba fazendo durante a competição. Por mais que você tenha um planejamento, uma ideia de como jogar e se posicionar, durante a competição, por conta do conhecimento e experiência de estar no campo com o adversário, que você consegue ajustar alguma coisa. Às vezes há a dificuldade em determinado momento, quando individualmente a performance de desempenho não é o que o time pode entregar, você acaba ajustando algum posicionamento. Quando uma peça não está rendendo tão bem, você tira e coloca outra, até você deixar o time redondo. Esses ajustes acontecem”, explica Mauro Silva, que completou.

“Foi o que aconteceu com a gente. Até porque, éramos uma equipe jovem, um treinador jovem. Com as suas ideias e convicções, mas também disposto a ajudar, a corrigir a rota do trajeto. Isso aconteceu. Tínhamos muita convicção e confiança dentro das nossas possibilidades. Conforme você está dentro de campo, também, às vezes com uma derrota, você perde, mas aprende muito. Esses ajustes acontecem durante a competição, e foi importante porque soubemos fazer esses ajustes no momento certo”.

FINAL CAIPIRA
Quem despontava na outra chave era o Novorizontino. Também sofrendo apenas uma derrota, somou 16 pontos, desbancando o Palmeiras, que terminou na segunda colocação, com um ponto a menos que o líder. Era a primeira vez que dois times do interior decidiam o Paulistão.

“O Novorizontino também era um time muito bom, muito organizado, com um treinador experiente, que era o Nelsinho Batista. Naquela final, eu cheguei com o tornozelo machucado, com muita dor. O Vanderlei insistiu muito para que o médico daquela época desse um jeito e me colocasse em campo. Ele disse ‘Mauro, você vai ter que entrar, nem que seja para jogar 20 minutos do primeiro tempo. Quero que você comece o jogo pelo efeito positivo que isso vai causar no time, no adversário’. Chegamos naquela final com alguns outros jogadores também em situações físicas bem delicadas”, revela.

Ambas as cidades representantes respiravam aquela decisão. As finais foram disputadas em partidas de ida e volta. A primeira, em Novo Horizonte, no Jorge Ismael de Biasi e a segunda em Bragança Paulista, no então Marcelo Stéfani. Nas duas ocasiões, os estádios tiveram lotação máxima, com um público de 15 mil pessoas. Mesmo com a pressão, Mauro diz que o foco fazia diferença naquele momento.

“É preciso que um time tenha talento, com as peças adequadas, uma soma de variáveis. Mas, com tudo isso, o trabalho e a dedicação de sair para jogar sem salto alto, com a faca nos dentes e sangue nos olhos, faz uma grande diferença”, explica.

Tanto na partida de ida, quanto na de volta, o Novorizontino saiu à frente no placar. Apesar disso, o Massa Bruta conseguiu igualar o marcador nas duas ocasiões, o que garantiu o título paulista. Inclusive, no segundo jogo, o gol de empate veio logo após o tento sofrido. Cinco minutos depois do gol de Fernando, em jogada de escanteio, Tiba invade a grande área superando dois marcadores e bate cruzado para marcar o gol que traria a maior alegria ao torcedor alvinegro.

 Foto: Rodrigo Corsi/FPF
Foto: Rodrigo Corsi/FPF
“A gente tinha tanta vontade de vencer, de ser campeão paulista e convicção no nosso trabalho, que éramos muito constantes e um dos pontos fortes era não se abalar. Entrávamos em campo sabendo que poderíamos sofrer gol e que continuaríamos concentrados na partida. Foi, inclusive, dessa maneira que chegamos até essa final”, relembra.

DO BRAGANTINO PARA O MUNDO
Devido à campanha incontestável, o elenco do Bragantino chamou atenção, despertou interesses de clubes e levou atletas à seleção. O técnico Vanderlei Luxemburgo também teve sua ascensão e, depois da conquista, foi anunciado pelo Flamengo.

Hoje, Luxemburgo acumula cinco títulos do Brasileirão, além de passagem pela Seleção Brasileira e Real Madrid. Mauro Silva ficou até a temporada seguinte, quando participou da campanha que levou a equipe ao vice-campeonato do Brasileirão de 91, sendo derrotado pelo São Paulo.

Na sequência teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira, sendo campeão do mundo em 1994, enquanto fazia história pelo Deportivo La Coruña, por onde atuou por mais de uma década. Atualmente é vice-presidente da Federação Paulista de Futebol.

“Sabíamos que é com a conquista que se põe o nome na história. Também sabíamos que era a oportunidade de muitos atletas jovens, que buscavam espaço, aparecer para o futebol brasileiro. Tanto que aconteceu na sequência de o Bragantino colocar seis jogadores na Seleção Brasileira, além de negociar jogadores para o futebol mundial", lembrou Mauro, como se fosse ontem.

Mateus Bezerra, Especial para o site da FPF, Sob supervisão de Raoni David