Veja como Parreira chegou a clube do interior paulista antes de buscar o tetra

A curiosa história do técnico Carlos Alberto Parreira, que se rendeu ao futebol do interior paulista antes de chegar à Seleção

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A curiosa história do técnico Carlos Alberto Parreira, que se rendeu ao futebol do interior paulista antes de chegar à Seleção

Campinas, SP, 26 (AFI) - A TV Globo reprisou neste domingo à tarde (26) a final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato mundial. No comando de ‘Romário e Mais Dez’ estava Carlos Alberto Parreira, um técnico muito contestado por suas teorias e métodos de trabalho. Um carioca da gema e que, curiosamente, só chegou à Seleção Brasileira, após uma rápida passagem por um time do interior paulista: o Bragantino.

Parreira: vice-campeão brasileiro em 1991
Parreira: vice-campeão brasileiro em 1991

O que poucos sabem é que no extenso currículo de Parreira, dirigir o Bragantino no Campeonato Brasileiro de 1991, foi a mola propulsora para chegar à Seleção e levantar o tetra, sonhado há 24 anos, e por seu caminho de sucesso até 2010 quando anunciou a aposentadoria.

CAMPEÃO CAIPIRA
Em 1990 o Bragantino tinha atingido o auge de sua história ao conquistar o título paulista em cima do Novorizontino, naquela que ficou conhecida como a “Final Caipira”.

O time era dirigido por Vanderlei Luxemburgo, que um ano antes (1989), já tinha sido campeão brasileiro da Série B.

A intensa convivência com o clã Chedid provocou um desgaste natural que eclodiu com divergências por pagamento de bichos e prêmios pelo título paulista. Luxemburgo estava no seu limite e achava que poderia alçar novos voos fora dali.

“Se não acertarem tudo (pagamento) e melhorarem as condições de trabalho, eu não fico mais aqui” – ameaçou o treinador.

VAMOS ACHAR UM MELHOR
Tanto, que ele pediu demissão e deixou a peteca quente nas mãos de Nabi Chedid, deputado

Nabi Chedid: escolha certa
Nabi Chedid: escolha certa

estadual, e patrono do clube. O cartola, então vice-presidente da CBF, acreditava num futuro diferente para seu time de coração.

“Nós vamos arrumar um técnico melhor!” – retrucou.

Passou a determinação de encontar o substituto ao filho Marco Chedid, que atuava como diretor de futebol. Marquinho, como era chamado, achava o pedido do pai como ‘uma missão impossível’.

Aflito, ele passou noites em prantos até que, de forma despretensiosa achou a improvável solução.


NOME SURPREENDE
A ideia partiu do jornalista Brasil de Oliveira, um expert em futebol e que trabalhou muito tempo para o jornal ‘O Estado de S.Paulo’ – o Estadão – até 1996, quando morreu prematuramente aos 46 anos.

Brasil Oliveira: de barba na frente de Maradona
Brasil Oliveira: de barba na frente de Maradona

O ‘Brasa’ era um apaixonado por futebol que devorava os espaços esportivos diariamente, inclusive jornais cariocas como os jornais O Globo e Jornal dos Sports,

Com seu jeito único, Brasa tratou de acalmar o amigo com uma sugestão improvável.

“Marquinho, fica tranquilo, meu filho. Você vai arrumar um técnico para tocar o seu Bragantino”.

Depois disparou sua indicação, recebida, é claro, com total desconfiança:

“Pegue o Carlos Alberto Parreira. Ele acaba de voltar do futebol árabe e quer trabalhar no Brasil em qualquer clube que lhe dê condições de realizar um grande trabalho. Ele nem se importa com salário, porque já ganhou muito petrodólares. Pronto, tá resolvido!”.

ACERTO DIFÍCIL
Marco Chedid não achava viável, imaginando as exigências que Parreira faria para trabalhar no Bragantino. Mesmo assim, ligou para seu pai, que estava em São Paulo e recebeu a carta branca

Marquinho: missão impossível
Marquinho: missão impossível

para contactar com o candidato. O próprio Brasil de Oliveira usou sua influência para rapidamente descobrir o telefone de Parreira no Rio de Janeiro.

Era dia 23 de dezembro. Cordial, Parreira deve ter se surpreendido do outro lado da linha, mas usou palavras educadas para marcar um encontro no dia seguinte em sua casa. Seria um papo frente à frente.

A reunião foi franca e rápida. Parreira confirmou sua intenção de trabalhar num clube brasileiro e que este clube poderia ser o Bragantino desde que houvesse um alinhamento de ideias e um planejamento.

REUNIÃO COM O 'CHEFE'
Alguns dias depois, aconteceu a segunda reunião, então em São Paulo, contou com a presença de Nabi Chedid, que habilmente desenhou um cenário no qual Parreira, num curto prazo, poderia chegar ao comando da Seleção Brasileira.

O técnico também surpreendeu ao confirmar sua exigências para assumir o clube: um salário condizente para cobrir suas despesas ao lado da esposa, um apartamento confortável e dois carros novos – um para ele e outro para sua esposa - para uso.

ACERTO BARATO

Parreira e Zagalo em 1994
Parreira e Zagalo em 1994

Saiu barato para os Chedid. O martelo foi batido por cinco mil dólares – atualmente uns 30 mil reais – de salário. Era a metade do que custava Luxemburgo.

Parreira foi instalado num confortável apartamento no melhor prédio de Bragança Paulista, tendo na garagem dois carros novos do modelo Monza-GM, sinônimo de luxo na época.

Depois disso, todos conhecem a história. O Bragantino foi vice-campeão brasileiro em 1991 – dia 9 de junho – e quatro meses depois (em outubro) Parreira assumiria a seleção brasileira no lugar de Paulo Roberto Falcão. No dia 17 de julho de 1994, Parreira conquistou o tetra mundial em Los Angeles.