Morre Avallone, ícone do Jornalismo Esportivo

Como jornalista ele tinha seu estilo próprio, era ético, competente e era dono de uma cultura invejável.

por SÉRGIO CARVALHO - - - Campinas

Por Sergio Carvalho

Quem gosta de futebol sabe de quem estou falando. Falo de Roberto Avallone, um ícone do jornalismo esportivo brasileiro, que morreu na manhã desta segunda feira, 25 de fevereiro, em São Paulo.

Como jornalista ele tinha seu estilo próprio, era ético, competente e era dono de uma cultura invejável. Como ser humano Avallone era uma figura muito especial.Tive o privilégio de conhece-lo a muitos anos atrás, quando cheguei em São Paulo vindo de São José do Rio Preto e ele ainda era um simples integrante da equipe esportiva do Jornal da Tarde, que marcou época na mídia impressa da capital paulistana.

UM GRANDE INOVADOR
Avallone fazia naquele período coberturas de clubes, acompanhava jogos da Seleção e colaborava na edição das páginas de esportes do então moderno JT. Nessa época ele já mostrava todo seu talento e competência dentro de uma área jornalistica que ele adorava. Aos poucos ele cresceu como profissional e assumiu a editoria de esportes do jornal.

Também criou uma coluna esportiva que falava sobre futebol e abordava todos os assuntos que envolviam os grandes e até pequenos clubes do futebol de São Paulo. Sua coluna rapidamente transformou-se num autêntico sucesso e ele passou então a dividir a função de editor de esportes e colunista do jornal.

MESA REDONDA
Com o prestigio em alta, ele acabou por ser convidado para participar da Mesa Redonda da TV Gazeta, líder de audiência nas noites de domingo na capital paulista. Muitos não acreditavam no seu sucesso. Afinal, Avallone até ali só tinha fama como homem de jornal e muitos não acreditavam que ele vingaria num programa ao vivo de televisão.

Rapidamente, no entanto, ele provou que tinha sim talento de sobra para trabalhar tanto em jornal como em tv. Destacou-se na participação da Mesa e foi convidado pela direção da emissora para ser o apresentador oficial do Mesa Redonda todos os domingos.

CRIADOR DE BORDÕES
Avallone aceitou e, a partir dali, passou a criar bordões, a impor seu estilo e a se firmar como um dos melhores apresentadores de programas esportivos de TV em todo o País, A partir de seu comando, a Mesa Redonda cresceu em prestigio e atingiu índices fantásticos de audiência. E assim foi durante muitos e muitos anos, sempre aos domingos, depois de cada rodada do Campeonato Paulista ou Campeonato Brasileiro.

Sua equipe, na época, tinha Fernando Solera, egresso da Rádio e TV Bandeirantes. Dalmo Pessoa, comentarista de prestigio da Rádio Gazeta e depois da Rádio Bandeirantes. Na sequência, outras figuras da crônica esportiva paulistana foram se integrando ao programa. Flávio Prado, Wanderley Nogueira Chico Lang e vários outros.

PROGRAMA OBRIGATÓRIO
Para os fanáticos do futebol o Mesa Redonda passou a ser um programa obrigatório em todos os domingos à noite. Mas uma coisa precisa ser dita. Apesar da fama e competência dos integrantes do programa, o sucesso da Mesa tinha mesmo tudo a ver com comando seguro e qualificado de seu titular, o apresentador Roberto Avallone.

Paralelamente, ele manteve sua coluna no Jornal da Tarde e deixou a editoria esportiva do JT para Mario Marinho. Como diretor esportivo da TV Gazeta, Roberto Avallone era muito exigente. Cobrava duro seus repórteres, exigia independência de seus comentaristas e fazia questão de ser extremamente independente em seus comentários quando abordava temas futebolísticos.

PALMEIRENSE ASSUMIDO
Curioso é que Avallone, ao contrário de um grande número de jornalistas esportivos, nunca se incomodou em dizer publicamente que era um "palmeirense" de coração. Sua moral era tão grande que essa revelação não prejudicou em nada a sua imagem.

Com Avallone no comando da Mesa as cotas publicitárias aumentaram sensivelmente e o programa passou a ser o mais valioso da TV Gazeta. Diretoria da empresa se entusiasmou Mas Avallone não se acomodou no trabalho dominical da Mesa Redonda.

OUTROS PROGRAMAS
Dinâmico, ele criou ainda outros programas esportivos diários na TV Gazeta. Nessa época, tive o privilegio de ser convidado varias vezes para participar da Mesa Redonda e minha amizade com Avallone cresceu, o que até hoje muito me orgulha.

Também tive oportunidade de cobrir Copas do Mundo com ele. Foi um grande parceiro nessas viagens. Avallone não era daqueles que vestia a camisa da Seleção. Procurava não misturar as coisas. Se fosse necessário criticar duro, ele o fazia. Mas se a Seleção merecesse elogios, também os fazia.

CHEGOU A RENOVAÇÃO
O tempo passou e um dia Roberto Avallone foi chamado pela diretoria da empresa. Achavam que era preciso "renovar" a equipe e diminuir salários. Avallone entendeu e resolveu deixar a TV Gazeta. Passou então por outras emissoras. Mais recentemente participou como convidado de um programa da SporTV comandado pelo jornalista André Rizek.

Ali ele voltou a ser o verdadeiro Avallone: polêmico, divertido, ético e competente. Foi uma de suas ultimas boas participações em programas esportivos de tv com grande audiência. Até que, na manhã dessa segunda feira, quando eu lia o noticiário jornalístico pela internet, soube da morte deste velho e querido amigo de lutas.

TRISTEZA PELA DESPEDIDA
Fiquei triste e até um pouco chocado. Nem sabia que ele tinha problemas no coração. Mas aconteceu. A imprensa esportiva brasileira perdeu um de seus integrantes mais qualificados. Abriu-se uma enorme lacuna nessa área, que talvez nem venha a ser preenchida.

Peço que Deus o tenha e conforte sua família. Que ele seja muito bem recebido lá do outro lado da vida.

Pelo homem e profissional que foi, Avallone certamente merece essa acolhida!!!

SÉRGIO CARVALHO - -
Sérgio Carvalho é um dos ícones do jornalismo esportivo brasileiro. Sua coluna ganhou mais de cincoenta prêmios durante o período em que foi publicada pelo Diário de São Paulo (antigo Diário Popular) durante mais de vinte anos. Hoje é um dos pontos de referência entre os colunistas do Futebol In
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