Emoções, sim. Mas não vendam ilusões. Neymar-fake é um exemplo prá nunca mais esquecer

Até porque é preciso separar as coisas: vender emoções, sim. Vender ilusões, não.

por DALMO PESSOA - - - São Paulo

Depois da Copa de 2014, a revista Veja abriu suas páginas amarelas para contar a história de Galvão Bueno como o maior narrador da atualidade na televisão e retratar seu fanatismo como torcedor da seleção:

“Eu não exagero na narração e nos gols do Brasil. Afinal, eu sou um vendedor de emoções”.

Na verdade, narrador que não põe emoção no seu trabalho está fadado a ficar em casa na próxima Copa. É a regra do jogo, mas, às vezes, o fanatismo atrapalha e ridiculariza o profissional.

Até porque é preciso separar as coisas: vender emoções, sim. Vender ilusões, não.

Porque aí seria uma coisa falsa, para iludir e enganar o torcedor e passar aos jogadores uma falsa competência. Até porque gostamos de trocar uma ponte por dia em nosso ego.

Esse comportamento midiático contamina todo mundo e poucos vêem o futebol com as lentes da isenção.

Isto, naturalmente, nos leva a erros incríveis. Talvez essa postura é que a gente não levanta uma Copa há 16 anos.

TUDO VERDE E AMARELO
As razões são muitas porque a gente vê tudo verde e amarelo abaixo da linha do Equador. Quando chegamos lá fora, a conversa é outra. E perdemos tempo com o elogio fácil aos nossos jogadores, como se fossem campeões, por antecipação.

E sentimos a necessidade de formar herois e talvez isto explique os dois fracassos de Neymar-fake em duas Copas.

Gostamos de formar ídolos de proveta – não estou dizendo que Neymar é um deles, mas seu comportamento deveria iluminar os cérebros daqueles que pensam que basta rotular um jogador como craque e pronto: vamos ganhar tudo! Não é assim.

Aquela seleção de ouro de 1982 era bem melhor que a atual e que jogou na Rússia às vezes a luz do Sol engana. O pessoal pensa que é ouro, mas não passa de latão de bijuteria de terceira categoria.

NADA DE ILUSÕES
Se a vida nos ensina lições e mais lições, não vamos nos iludir mais. É bom que sejamos lúcidos nas análises e menos exagerados no elogio fácil que inebria o torcedor e no fim faltam-nos lenços para enxugar as lágrimas do nosso desespero e dos nossos fracassos.

Vem aí a Copa América. Nada de achar que, se formos campeões, a pátria está salva. O futebol sul-americano está no fundo do poço e não temos mais o direito de nos enganarmos.

Até porque, em 2022 temos que nos livrar desse fanatismo do já ganhou. Já ficamos 24 anos sem vencer uma Copa e agora somamos 16 anos. Claro que é tudo difícil, pois somos formadores de jogadores, que rendem milhões e milhões de euros e dólares. E os jovens que vão embora perdem sua identidade e não formamos um time do nível de 1982, 94 e 1970.

NEYMAR-FAKE
Chega de ilusões. Em 2022, Neymar-fake terá 29 anos. Se ele aprendeu a lição de duas Copas, em que fracassou, ótimo. Outros surgirão, mas já começaram a encher a bola – troca de próteses no ego de cada um. Neymar terá estrutura emocional e psicológica para se recuperar?

O futuro está nos pés de Diogo (Santos), Vitinho, Vinicius, Pedro e outros que ainda podem surgir? Que a mídia seja ponderada. Se não, teremos Gabriel Jesus - não é Gabriel jejum (não fez nenhum gol).

Vendam, sim, emoções, mas evitem a bajulação que não ajuda nada. Afinal, babação de ovos já mandou muito embora campeão mais cedo com a faixa do fracasso.

A marquetagem se encarrega de botar o fermento do eu sou mais eu. Quem não gosta de uma massagem no ego? Lembro-me muito bem quando decidiram segurar Neymar-fake antes de 2014. O raciocínio foi o seguinte:

1. Vamos renovar com Neymar, segurá-lo aqui. O Santos vai ganhar a Libertadores e vai vencer o Mundial de Clubes contra o temível Barcelona.

2. Mais do que isso: Neymar será consagrado na Copa de 2014. Vamos ser campeões do mundo e Neymar vai reinar por muito tempo no futebol europeu e o dinheiro chegará à Vila Belmiro em contêineres.

ESTRELA NÃO BRILHOU
Deu errado porque Neymar se machucou e sua estrela não brilhou. Antes, Neymar vendido – uma operação digna de uma laundry (lavanderia) ganhou dinheiro como se fosse dono de poço de petróleo.

Uma semana antes do jogo recebeu do Barcelona 10 milhões de euros - conforme disse numa carta o ex-presidente do Santos, Laor, aberta por sua ordem só depois de sua morte.

Neymar foi vendido um ano antes da decisão com o Barcelona. Não se diga que fracassou na Espanha, mas, ao lado de Messi, foi mais um figurante do que um protagonista.

Antes da Copa da Rússia alguns críticos exageraram nas badalações. Tínhamos um bom técnico, jogadores de nomeada, como Neymar, Marcelo, Paulinho, William, Felipe Coutinho e outros que nos levariam ao título.

OS PACHECÕES
Os Pachecões diziam: com o menino Neymar, a Copa está no papo. Já vimos outros filmes como o da Rússia. Lembram-se de 82 ? Tínhamos um time bem superior ao time de 2018 e bastou um ex-presidiário comedor de macarrão – Paulo Rossi – com seus gols e fomos chorar nossas ilusões nas camas quentes de Sarriá.

Vamos aguardar, se Galvão Bueno parar em 2022, outros vendedores de ilusões. Preferimos emoções e não oba-oba pegajoso que é a mais pura enganação e exploração da fé e da paixão do torcedor pela seleção.

LEI PELÉ FOI DESASTRE
Seria bom que compreendêssemos que hoje a realidade do futebol é outra. Já fomos os maiores do mundo e, desde a Lei Pelé, apesar dos milhões de dólares e euros com a diáspora dos nossos jogadores, a dificuldade de se formar um time bom para voltarmos a sermos campeões do mundo é muito grande.

Não venham com essa história de ganhar a Copa América. Os cucarachos do Cone Sul, exceção ao Uruguai, que se salva com a garra de seus jogadores, mas também na hora agá não ganha. Precisamos de um banho de humildade, inclusiva à mídia.

Afinal estamos perdendo até a credibilidade. Chega de craques de proveta, de Neymar-fake. É hora de revisitar o futebol que ganhou cinco Copas, sem fakes.

DALMO PESSOA - -
Um dos mais importantes e polêmicos jornalistas esportivos do país, foi colunista do Notícias Populares, jornal de maior venda avulsa da capital por vários anos. Falando uma linguagem direta para o torcedor, ele era temido pelos dirigentes e pelos que pisavam no tomate. E Carlos Caldeira Filho,
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