Década de 60, a dureza de se pular muros de estádios para assistir às partidas

Década de 60, a dureza de se pular muros de estádios para assistir às partidas

por ARIOVALDO IZAC - - - Campinas

Na coluna Cadê Você, uma semana após a morte do treinador Oswaldo Alvarez, o Vadão, o enfoque dele enquanto atleta.

Na troca de informações com o parceiro João da Teixeira sobre o futebol de Campinas de meados da década de 60, lembrei-me do magrelão 'durango', que eu era, e ávido por assistir à jogos nos estádios Brinco de Ouro e Moisés Lucarelli.

À época, menores de até 12 anos não pagavam ingressos, desde que acompanhados dos pais ou responsáveis.

Meu pai era avesso a futebol, e por isso me questionava 'qual a graça de ver 22 homens de calças curtas correndo atrás de uma bola?'

Logo, ao dirigir-me aos estádios, implorava a um adulto qualquer pra permissão da companhia, como se responsável fosse para que o porteiro liberasse a entrada.

Nos portões de ambos os estádios não havia catraca para registro de acesso de cada torcedor.

O bilhete era rasgado e depositado em urna de madeira. Quando eu mal passava pelo portão já saía no 'pinote', e sequer reconheceria a fisionomia daquele que enganosamente foi projetado como meu responsável.

TREVO

Confissão de que minha cabeça se transformou num 'trevo' foi quando obrigatoriamente teria que pagar ingresso.

Pagar como, se nem moeda havia em bolsos das calças?

O jeito foi me juntar a um bando de 'durangos' para colocar em prática a operação 'pular muros' de ambos os estádios, nos tidos jogos mais atraentes.

No Moisés Lucarelli, apesar do muro mais alto e representando perigo maior para o salto, havia mais liberdade para se pular no espaço entre numerada descoberta à época e vitalícias.

Quem evitava o risco do salto, a opção era se juntar à turma da linha do trem da Fepasa, à época antiga Companhia Paulista.

Pois é, tanto sacrifício para visão de apenas metade do campo, da meta dos portões principais.

Aí, por volta de 15 ou 20 minutos do segundo tempo, era uma correria incrível aos portões, já liberados, para que se pudesse acompanhar o restante da partida no estádio.

BRINCO DE OURO

O local estratégico para se pular o muro do Brinco de Ouro era através da arquibancada central, em época que a dependência tobogã não havia sido construída.

A facilidade para se pular o muro encorajava 'durangos' que ficavam no morrinho da Nova Campinas, com visibilidade parcial do gramado.

E com aumento de invasores, dirigentes do Guarani contrataram seguranças, e os municiaram com ripas e até eucaliptos cortados para ataque aos penetras.

Lamentavelmente testemunhei amigos de bolsos vazios, como os meus, golpeados.

Jornalista Roberto Diogo
Jornalista Roberto Diogo

Felizmente, minhas pernas atléticas ajudaram-me nas fugas.

Eis o retrato de um tempo que de certo jamais se repetiu em décadas posteriores.

Graças a Deus!

ROBERTO DIOGO

Na interação com o parceiro jornalista Roberto Diogo, a revelação de quem presidia o Guarani à época e o homem que escalava seguranças pra descer a madeira em quem tentasse pular o muro da arquibancada central do Guarani.

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ARIOVALDO IZAC - -
Jornalista esportivo há 35 anos. Trabalhou, como jornalista, nas emissoras de Rádio Brasil, Educadora, Central, Jequitibá e Capital (São Paulo). Nos jornais: Diário do Povo e Jornal de Domingo, ambos de Campinas, e editor de Economia e Opinião do Jornal Todo Dia, de Americana.
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