Destino impediu nova resenha de futebol com mestre Cilinho

Morre ex-treinador de Ponte Preta, São Paulo, Guarani e Corinthians. Um inovador, um revolucionário, um mestre!

por ARIOVALDO IZAC - - - Campinas

A chegada do novo executivo de futebol do Guarani, Michel Alves, é focalizada na postagem abaixo.

Uma semana antes do Carnaval de 2018 telefonei para o então treinador Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, propondo que colocássemos a resenha em dia sobre esse inesgotável assunto chamado futebol, mas ele estava de malas prontas para o Rio de Janeiro, com missão de também ultimar preparativos da Escola de Samba Acadêmicos de Salgueiro, a convite dos diretores.

Demorei pra retomar o contato, e neste hiato, já na primeira quinzena de abril, ele sofreu avc (acidente vascular cerebral) e foi internato em estado grave no Hospital da PUC-Campinas.

De certo Cilinho teria muito a contar sobre o empobrecimento do futebol brasileiro, com essa europerização que burocratizou demais a boleirada.

Não deu tempo, nem possibilidade. Nesta quinta-feira ele morreu aos 80 anos de idade.

Três meses depois de receber alta hospitalar, estava lúcido, mas com paralisação do lado esquerdo do corpo e perda da fala. Aí ocorreu preparo psicológico para que assimilasse aquela situação, com estágio lento de recuperação.

Fui informado, há dois meses, que Cilinho já balbuciava, o que dava indícios de retomar a comunicação verbal.

Todavia, o destino estava traçado. Amigos próximos informaram que o estado de saúde era irreversível, e dona Priscila, esposa dele, esteve sempre presente até o último momento, quando na tarde desta quinta-feira, na varanda de sua residência, em condomínio no distrito de Sousas, em Campinas, morreu sentado em poltrona.

DOBRADINHA

Assim, além da convivência formal e informal com Cilinho desde a década de 70, a última vez que nos encontramos foi a convite dele, para que saboreasse uma dobradinha preparada exclusivamente por ele, o cozinheiro, há 21 anos.

Da resenha, na antiga residência dele na Rua Antonio Lapa, bairro Cambuí em Campinas, a sobremesa foi conceito de futebol, com participação ativa do também saudoso conselheiro pontepretano Carlos de Carvalho, conhecido na roda de amigos como Carlão Perna de Pau.

Cilinho disse que iria abolir terminantemente os chamados chuveirinhos, situação que favorece quem defende.

“Lateral tem que ser preparado como se fosse atacante para trabalhar a bola no chão e até finalizar”, projetava à época, como advinhar que posteriormente o lateral fosse ser transformado em ala, e com funções definidas.

Cilinho falava no melhor aproveitamento das características dos jogadores. Logo, na ausência de atacantes altos ou sem estilo para cabeceio em sua equipe, desconsiderava a bola aérea ofensiva. “Bola perdida tem que ser evitada”.

Claro que o mestre discorria sobre diferentes temas, sem se vangloriar que em 1970 abdicou de um lateral-direito, em transcorrer de partidas, para que a Ponte Preta ganhasse mais um atacante na troca.

Na ocasião sacou Nelsinho Baptista, lateral-direito de marcação, para colocar o ponteiro-direito Vicente.

Na rearranjo ofensivo, o ponteiro-direito Alan juntou-se ao então meia-direita Dicá e centroavante Manfrini.

Lateral descoberta? Não. Zagueiro Samuel era incumbido de fazer a cobertura.

Quem, em sã consciência, àquela época, tinha tamanha ousadia?

Você sabia que o zagueiro Marcão, formado na base da Ponte Preta nos anos 70, já falecido, foi transformado em centroavante que explorava os quase dois metros de altura para fazer gols na Ferroviária? Coisa de Cilinho.

PRÉ-JOGO E BOLA ROLANDO

Se está devidamente incorporado à cultura do futebol treinadores sacarem volantes e até zagueiros para se colocar em campo atacantes, Cilinho - sempre à frente da maioria - já fazia isso nos anos 70.

Num dérbi campineiro, corajosamente trocou o quarto-zagueiro Araújo pelo centroavante Nelson Oliveira, para se juntar a Manfrini. E a Ponte Preta não perdeu o jogo.

A ousadia de Cilinho só não surpreendia o seu amigo de infância e ex-diretor de futebol da Ponte, Peri Chaib.

“Bastam cinco minutos de bola rolando para ele ter pleno domínio sobre as peças do xadrez”, confessou.

Ambos frequentaram o Mercadão (mercado municipal de Campinas) e estiveram juntos no clube varzeano Gazeta Esportiva, onde o mestre iniciou o processo de aprendizagem como treinador.

Próximo capítulo na nova postagem.

ARIOVALDO IZAC - -
Jornalista esportivo há 35 anos. Trabalhou, como jornalista, nas emissoras de Rádio Brasil, Educadora, Central, Jequitibá e Capital (São Paulo). Nos jornais: Diário do Povo e Jornal de Domingo, ambos de Campinas, e editor de Economia e Opinião do Jornal Todo Dia, de Americana.
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