Sampaoli valoriza conceitos técnicos do passado e implementa tática da modernidade

Sampaoli valoriza conceitos técnicos do passado e implementa tática da modernidade

por ARIOVALDO IZAC - - - Campinas

Quem se dispuser a comentários sobre o envolvimento de Ponte Preta e Guarani em mais uma rodada desta Série B do Campeonato Brasileiro, não se faça de rogado.

Quem quiser discutir os motivos que fizeram do treinador argentino Jorge Sampaoli uma referência à treinadorzada brasileira, vamos nessa.

É voz corrente que Sampaoli, do Santos, tem o DNA de ofensividade.

Todavia não nos esqueçamos que ele pensa no todo, e não apenas em atacar & atacar.

Além da singular exigência tática, trabalha tecnicamente o atleta.

Nenhum clube, absolutamente nenhum clube do futebol brasileiro atinge o elevado índice de desarme de jogadas de que o Santos.

E isso não ocorre por acaso.

E sabem o que faz Sampaoli? Treina antecipação de jogadas, a exemplo daquilo que faziam treinadores como o saudoso Armando Renganeschi no Guarani, nos anos 60.

Ele soube condicionar principalmente o também saudoso quarto-zagueiro Eraldo a tomar a bola do adversário sem recorrer às faltas.

Depois surgiram os também zagueiros Tininho e Amaral, no mesmo diapasão, lapidados por Zé Duarte, já falecido, também no Guarani.

Nos tempos em que treinador de equipe principal trabalhava o aprimoramento do atleta, Cilinho fez do saudoso volante Teodoro um 'ladrão' de bola por excelência, assim como mostrou ao igualmente falecido zagueiro Samuel os atalhos pra o 'bote' e tomar a bola de hábeis atacantes adversários sem a necessidade de se recorrer às faltas.

NAS COSTAS

Da escola argentina Sampaoli copia o desarme de seus jogadores com o adversário de costas. Isso é feito quando seus atacantes e meio-campistas participam da recomposição.

No caso específico, basta um toquinho, com o devido cuidado visando evitar faltas, para se desarmar a jogada.

Evidente que a 'pegada em dupla' aumenta a capacidade do time roubar a bola. Se um é driblado, outro, na sobra, dá o combate e com amplas possibilidades de desarme.

E por admirar antigas esticadas na bola do então quarto-zagueiro portenho Daniel Passarella, Sampaoli faz de seu zagueiro Gustavo Henrique um lançador para que atacantes de beirada recebam a bola quando fazem a diagonal.

INTENSIDADE

Por que o Santos consegue ter intensidade?

Primeiro porque a intensidade não é contínua. Estrategicamente, após rápidas transições ao ataque, o time tem sabedoria para 'respirar', ao ficar de posse de bola.

Assim, com esse tempero, o Santos consegue colocar o maior número possível de jogadores quando defende, e chega com muita gente no ataque, com volúpia de jogo.

Com sabedoria Sampaoli aumenta - entre aspas - o tamanho do campo, ao abrir simultaneamente dois jogadores em cada beirada de campo, quer sejam atacantes ou laterais.

Assim, com capricho nos passes, por vezes com recuo, a bola rola de lado a lado do gramado, e o adversário vai cansando sem roubá-la.

Além de tudo isso, o repertório de ensaio em bola parada convence. Reflexo disso foi o primeiro gol santista na vitória sobre o Palmeiras por 2 a 0, através do zagueiro Gustavo Henrique, na quarta-feira passada.

Jogadores se alinham numa paralela à risca da grande área, num espaçamento inferior a dois metros de um para o outro, e aí o adversário se confunde.

Parabéns, Sampaoli. Ao recorrer a valores do passado você valoriza a essência, naturalmente implementando conceitos táticos do presente.

Do limão você faz, como poucos, uma saborosa limonada.

ARIOVALDO IZAC - -
Jornalista esportivo há 35 anos. Trabalhou, como jornalista, nas emissoras de Rádio Brasil, Educadora, Central, Jequitibá e Capital (São Paulo). Nos jornais: Diário do Povo e Jornal de Domingo, ambos de Campinas, e editor de Economia e Opinião do Jornal Todo Dia, de Americana.
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