Ênio Andrade deixa ensinamento a Doriva de como fazer ligação direta com êxito

Saudoso treinador gaúcho sabia trabalhar bola alongada da defesa ao ataque

por ARIOVALDO IZAC - - - Campinas

Se há consenso sobre arrumação da ‘cozinha’ da Ponte Preta, e atribui-se ao treinador Doriva a organização geral de marcação, tem sido reiterada a cobrança para criação e definição de jogadas ofensivas, principalmente quando o time é acuado na condição de visitante.

Se, por vezes, atacantes pontepretanos ficam isolados e o rendimento aquém do esperado - por falta de fluxo de meio-campistas e laterais -, uma alternativa proposta ao treinador Doriva seria se mirar no exemplo de um dos mais renomados treinadores do passado: o saudoso gaúcho Ênio Vargas de Andrade.

Quando Ênio desembarcou em Campinas em julho de 1983, para substituir o seu conterrâneo Cláudio Duarte, trouxe no currículo o título de campeão brasileiro pelo Grêmio, dois anos antes.

Ao ser apresentado no Guarani, e como convém aos soberbos, Ênio ignorou o tempo nublado e escondeu o rosto num sofisticado ray-ban.

Seu cartão de visita foi pavio curto no trato à imprensa, ocasião em que infestou a roda com contínuas baforadas de cigarros. Logo, a impressão foi a pior possível.

No obrigatório acompanhamento do trabalho dele como treinador bugrino, a partir de um empate por 1 a 1 com o Botafogo de Ribeirão Preto, em Campinas, a constatação inequívoca foi de um profundo conhecedor de futebol.

Ênio teve percepção de como encaminhar o meia Neto para o chute forte e com efeito, mas à época impressionou ao quebrar o conceito de que o melhor caminho para se vencer uma partida seria dominar o meio de campo.

LIGAÇÃO DIRETA

Com necessidade de improvisar o desengonçado zagueiro Darcy como volante - na prática um terceiro zagueiro -, quebrar a cabeça sobre o que fazer com limitados volantes como Toninho catarinense, Biro-Biro (sósia do corintiano) e Vicente; ou meias como Banana, Éverton e Paulo Sérgio, o treinador recorreu à velha escola futebol argentina de ligação direta da defesa ao ataque, porém pensada e trabalhada para obtenção de êxito, como fazia o ótimo quarto-zagueiro Daniel Passarella.

Nada a ver, portanto, com a becaiada que rifa bola de forma inconsequente.

Assim, o quarto-zagueiro bugrino Gotardo, do campo defensivo, foi treinado exaustivamente para alongar a bola ao ponteiro-direito Chiquinho Carioca, que fechava em diagonal, determinado a concluir a jogada, ou servir o centroavante pernambucano Roberto.

Nos tempos de Grêmio, mesmo com meio de campo qualificado, com Paulo Isidoro e Vilson Tadei, Ênio procedia variação de esquema. Já havia adaptado o quarto-zagueiro uruguaio Hugo de Leon para alongar a bola ao ponteiro-direito Tarciso, no mesmo estilo de ‘fazer o facão’.

PERSISTÊNCIA

Tolo de quem no convívio diário com Ênio não sugou um pouco da sabedoria dele.

Como ‘treineiro’ não faz milagre com elenco limitado, Ênio acabou demitido após derrota em dérbi, três meses após chegada a Campinas, tempo pelo menos para plantar uma semente, pois claro estava que do limão sabia fazer uma boa limonada.

Aí estão o ex-ponteiro-esquerdo Mauro, nos tempos de Palmeiras, e ex-zagueiro Gomes, campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985, para não desmentir.

No caso da Ponte Preta em questão, podem até argumentar limitações dos Renan Fonseca e Reginaldo para a atribuição. Todavia, até Gotardo, quando designado para a atribuição naquele Guarani, tinha dúvidas sobre o êxito. Só que depois se surpreendeu.

ARIOVALDO IZAC - -
Jornalista esportivo há 35 anos. Trabalhou, como jornalista, nas emissoras de Rádio Brasil, Educadora, Central, Jequitibá e Capital (São Paulo). Nos jornais: Diário do Povo e Jornal de Domingo, ambos de Campinas, e editor de Economia e Opinião do Jornal Todo Dia, de Americana.
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