Reluzente ‘Ouro de Moscou’

A expressão teve origem durante a Guerra Civil espanhola, quando grande quantidade do minério foi guardado na Crimeia

por - - ALBINO CASTRO

Por Albino Castro

O planeta se deslumbrou com a esplêndida Copa do Mundo, organizada pela Rússia do petersburguês Vladimir Putin, nascido há 65 anos, na então Leningrado, hoje São Petersburgo, disputada por 32 seleções, de 14 de junho a 15 de julho, que teve como campeão o exuberante escrete multirracial da França, cujas estrelas são o franco-guinéu bissauense Pogba, do Manchester United, e o jovem franco-camaronês Mbappé, de 19 anos, companheiro do ex-santista Neymar e do uruguaio Cavani no milionário Paris Saint-Germain.

Foi um Mundial que elevou aos altares do futebol selecionados como a vice-campeã Croácia, do virtuoso Modric, do Real Madrid, a terceira colocada Bélgica, do belga-congolês Lukaku, do Manchester United, e a imprevisível Islândia, treinada pelo dentista Heimir Hallgrimsson, de 50 anos.

Franceses levaram ara casa o ouro da Copa do Mundo e as medalhas de campeões com méritos
Franceses levaram ara casa o ouro da Copa do Mundo e as medalhas de campeões com méritos

FRACASSOS DE TRADICIONAIS
Fracassaram seleções tradicionais como a pentacampeã Brasil, a tetracampeã Alemanha, a bicampeã Argentina, a campeã Espanha e a atual campeã da Eurocopa, Portugal, do madeirense Cristiano Ronaldo. Somemos também as ausências da tetracampeã Itália e da magnífica Holanda.

Neymar: fora de combate cedo
Neymar: fora de combate cedo

Mas, excluindo-se o baixo nível técnico dos jogos, o Mundial de Putin foi perfeito e bastante seguro, para surpresa de muitos em todos os pontos do globo. A XXI Copa do Mundo foi bem diferente, portanto, da anterior, em 2014, sediada no Brasil, marcada por sobressaltos e inúmeras denúncias de escândalos de corrupção que provocariam, dois anos depois, a deposição de Dilma Rousseff da presidência do País.

A Copa de 2018, aliás, foi tão reluzente quanto o celebrado ‘Ouro de Moscou’ que, entre 1945 e 1990, ou seja, do final da Segunda Guerra à queda do muro de Berlim, teria financiado tentativas revolucionárias em toda parte. De Cuba e América Latina, inclusive o Brasil, à Europa, até mesmo Portugal, à Ásia e às Áfricas.

OURO DE VERDADE

O ‘Ouro de Moscou’, a propósito, não era apenas uma figura de retórica dos anticomunistas de todos os continentes. A expressão teve origem durante a Guerra Civil espanhola, quando, em setembro de 1936, dois meses após a explosão do conflito, os governantes socialistas da Frente Popular da II República (1931 – 1939), aliados à época aos comunistas, independentistas da Catalunha e do País Basco, bem como aos anarquistas e anarco-sindicalistas da poderosa CNT (Confederação Nacional do Trabalho), decidiram, por ‘medida de segurança’, retirar todo o ouro guardado nos porões do Banco de Espanha, localizado até hoje numa das esquinas da legendária Plaza de Cibeles, no centro de Madri, e enviar o tesouro para a União Soviética do georgiano Josef Stalin (1878 – 1953).

Foram cerca de cinco toneladas do metal, em lingotes e moedas, armazenadas em caixotes de madeira, transportadas de navio, do porto de Cartagena, no Mediterrâneo, para Odessa, na Crimeia, no Mar Negro.

Juan Negrin: primeiro ministro espanhol
Juan Negrin: primeiro ministro espanhol

AÇÃO DE ESPANHOIS
A ordem foi dada pelo próprio Presidente da República, o castelhano Manuel Azaña (1880 – 1940), membro do grupo Esquerda Republicana, com vínculos maçônicos, ganhador do Prêmio Nacional das Letras Espanholas de 1926.

A execução do plano, no mínimo, ingênuo, correu por conta do Ministro da Fazenda, o socialista Juan Negrín (1892 – 1956), natural das Ilhas Canárias, também maçom, integrante do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol).

Ilustra a coluna um instantâneo de Negrín, que chegaria ainda em 1936 à presidência do governo, título equivalente ao de Primeiro Ministro, ficando no cargo até a ascensão do Generalíssimo Francisco Franco (1892 – 1975), comandante das forças vencedoras da Guerra Civil.

FORÇA NO PODER
Os socialistas voltariam ao poder muitas vezes, sendo a mais recente, em junho último, com a nomeação de Pedro Sánchez, de 46 anos, nascido em Tetuán, no antigo Marrocos Espanhol, substituindo o galego Mariano Rajoy, de 63 anos. O que jamais retornaria à pátria são as toneladas do ouro que Azaña e Negrín despacharam para serem custodiadas por Stalin –

representando naqueles tempos a quarta maior reserva do mundo.

Questionados, em meados dos anos 1950, quando o ucraniano Nikita Kruschev (1894 – 1971) promoveu uma ‘abertura’ no país, como novo chefe comunista da União Soviética, burocratas de Moscou responderam que o ouro já não existia mais.

Teria sido empregado no ‘esforço de guerra’ feito pelo PC Soviético para ajudar os tovarishchi ispantsy, isto é, os camaradas espanhóis, durante o confronto contra os franquistas.

ABRIGOU ASILADOS
O ‘Ouro de Moscou’ pode ter servido, ainda, para cobrir os gastos do exílio moscovita de dirigentes dos partidos comunistas de todos os hemisférios, entre os quais, o gaúcho Luis Carlos Prestes (1898 – 1990), chefe do PC Brasileiro, e o coimbrão Álvaro Cunhal (1913 – 2005), do PC Português.

O reluzente brilho da Copa de Putin seriam outros quinhentos?

- - ALBINO CASTRO
Albino Castro foi diretor de Jornalismo do SBT (1988 - 1998), TV Gazeta SP (2002 - 2006) e da TV Cultura SP (2006 - 2007). Chefiou a redação italiana da Telemontecarlo, em Roma, de 1986 a 1988, e comandou a TV Brasil (da EBC) em 2015 e 2016. Dirigiu também o serviço eletrônico do diário econômic
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