A Copa que Filó ganhou sozinho

Colunista do Portal Futebol Interior publicada no Futebol em Foco, de Portugal, sobre o primeiro brasileiro campeão do mundo

por - - ALBINO CASTRO

Por Albino Castro

Faltarão, sem dúvida, charme e elegância à Copa do Mundo, que começou, na Rússia, com a triste ausência da querida Squadra Azzura, vencedora, por quatro vezes, da maior competição do planeta – 1934, 1938, 1982 e 2006.

A Itália ficará pela terceira vez fora do Mundial – como em 1930, no Uruguai, após a Federcalcio, a Federação Italiana de Futebol, se recusar a enviar jogadores para cruzar o Atlântico e disputar, à margem Oriental do Rio da Prata, a recém criada Coupe du Monde, e em 1958, na Suécia, quando o Brasil conquistaria o primeiro de seus cinco títulos.

Outra lamentável ausência deste ano é a da deslumbrante Laranja Mecânica, a Holanda, que jamais ganhou uma Copa do Mundo, é verdade, mas, desde 1974, com a geração liderada pelo genial atacante Johan Cruijff (1947 – 2016), esteve sempre entre as grandes favoritas.

Filó: filho de português e de italiana, primeiro brasileiro campeão do mundo em 1934
Filó: filho de português e de italiana, primeiro brasileiro campeão do mundo em 1934

MUNDIAL INCOMPLETO
Um Mundial parece incompleto sem os peninsulares, donos de primoroso toque de bola e notável garra, a grinta, e a magia dos neerlandeses. Mesmo que estejam presentes campeões - como o próprio Brasil (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), Alemanha (1954, 1974, 1990 e 2014), Uruguai (1930 e 1950), Argentina (1978 e 1986), Inglaterra (1966), França (1998) e Espanha (2010).

E ainda a guerreira Seleção Portuguesa, ganhadora da Eurocopa de 2016, possuindo na equipe o maior jogador da atualidade, o madeirense Cristiano Ronaldo, de 33 anos, superstar do extraordinário Real Madrid, que acaba de vencer pela 13.ª vez a Liga dos Campeões da Europa.

AZURRA, PRIMEIRA BICAMPEÃ
A Itália foi a primeira bicampeã no auge do regime fascista do Duce Benito Mussolini (1883 – 1945), amante do futebol e um dos incentivadores da fundação, em 1927, da A. S. Roma – um dos times mais populares, hoje, do Bel Paese.

Foi o Duce, inclusive, quem encorajaria a escalação na Squadra Azzurra, sobretudo em 1934, de diversos jogadores oriundi, isto é, filhos de italianos, nascidos na diáspora. Um deles foi o arisco ponta-direita paulistano Filó (1905 – 1974), cuja foto ilustra a coluna, consagrado no calcio como Guarisi, sobrenome de sua mãe, que era italiana.

Niginho, entre Ninão e Bengala
Niginho, entre Ninão e Bengala

BRASILEIRO LEVANTA A COPA
Filó, então Guarisi, seria o primeiro brasileiro a levantar uma Copa do Mundo. Também jogaram pela Itália, naquela ocasião, quatro ítalo-argentinos: o centromédio Monti (1901 – 1983), vindo do San Lorenzo de Almagro, o meia-esquerda Demaría (1909 – 1990), do Gimnasia y Esgrima de La Plata.

Além dos ponteiros canhotos Orsi (1904 – 1986), do Independiente de Avellaneda, e Guaita (1910 – 1959), do Estudiantes de La Plata.

O técnico da Itália à época, o legendário Vittorio Pozzo (1886 – 1968), natural de Turim, costumava afirmar, para justificar a convocação de sul-americanos no seu escrete:

“Se eles podem morrer pela Itália (referindo-se aos oriundi que lutaram pela dinastia dos Savoia na Grande Guerra), também podem jogar pela Itália”.

FILHO DE PORTUGUÊS
Poucos sabem que Filó, batizado Amphilóquio Guarisi Marques, era filho de pai português, Manuel Augusto Marques, um dos fundadores, em 1920, da Portuguesa de Desportos, da qual foi o segundo presidente.

E, por isso, Filó iniciou a carreira no time do coração, a amada Lusa, entre 1922 e 1924, passando em 1925 à Seleção do Brasil e ao Paulistano – integrando o virtuoso elenco que, no mesmo ano, fez a primeira excursão de um clube nacional à Europa.

Consagrou-se goleador, ao lado do grande ídolo nos primórdios do ‘pébol’ brasileiro, El Tigre Arthur Friedenreich (1892 – 1969), bem como de outros cracks, entre os quais, Barthô, Nondas e Araken Patuska. De 1929 a 1931, ainda em São Paulo, no final da era do futebol amador no País, atuou pelo Corinthians.

Transferiu-se Filó, em seguida, para a capital italiana, contratado pela tradicionalíssima S. S. Lazio, da qual sou adepto – e, lá, teve o nome ‘italianizado’: Anfilogino Guarisi. Jogou na Squadra dell’Aquila, como é conhecida a Lazio, de 1931 a 1937.

Brasilazio fez sucesso em 1932 quando 12 brasileiros defenderam o clube de Roma. Filó acabou na Seleção Italiana
Brasilazio fez sucesso em 1932 quando 12 brasileiros defenderam o clube de Roma. Filó acabou na Seleção Italiana

BRASILAZIO COM TRÊS FONTONIS
Foram os anos míticos da Brasilazio, carinhosamente assim denominada porque contava com um quadro quase todo formado por fuoriclassi brasileiros. Levou com ele quatro corintianos, De Maria, Del Debbio, Rato e Amilcar, para além de outros três do Palestra Itália, o atual Palmeiras, Pepe, Duílio Salatin e Serafini, e mais três do Palestra Itália de Belo Horizonte, o Cruzeiro – os irmãos Ninão, Nininho e Niginho, que ficaram famosos como Fantoni I, Fantoni II e Fantoni III.

Viajaram, ainda, Tedesco (do Santos) e Benedito (do Botafogo carioca).

O brilho e o histórico da velha Itália, de Filó, serão uma lacuna no Mundial do país de Vladimir Putin.

- - ALBINO CASTRO
Albino Castro foi diretor de Jornalismo do SBT (1988 - 1998), TV Gazeta SP (2002 - 2006) e da TV Cultura SP (2006 - 2007). Chefiou a redação italiana da Telemontecarlo, em Roma, de 1986 a 1988, e comandou a TV Brasil (da EBC) em 2015 e 2016. Dirigiu também o serviço eletrônico do diário econômic
Veja perfil completo
Veja todos