Quando a foto é a própria legenda

Juarez Soares fez parte, pelo menos numa única e histórica foto, que ilustra a coluna, do maior ataque de todos os tempos

por - - ALBINO CASTRO

Definitivo nas suas corajosas análises e, apaixonadamente, enfático, como há 50 anos, o intrépido Juarez Soares, mestre dos mestres dos repórteres esportivos do rádio e da televisão, durante um almoço, três semanas atrás, no restaurante Roma, no coração do paulistano bairro de Higienópolis, bateu na mesa e, olhando-me nos olhos, proclamou que, na Copa do Mundo de 1986, disputada no México, teve o privilégio de fazer parte, pelo menos numa única e histórica foto, que ilustra a coluna, do maior ataque de todos os tempos.

Da esquerda: Puskas, Eusébio, Juarez, Júlio Mazzei (de óculos), Kopa e Pelé em 1986.
Da esquerda: Puskas, Eusébio, Juarez, Júlio Mazzei (de óculos), Kopa e Pelé em 1986.

Estávamos acompanhados, também pelo seu irmão, o querido Edgard Soares, meu amigo desde os idos de 1968, quando trabalhamos na editoria de esportes da vibrante Folha da Tarde – o então progressista e arejado vespertino das Folhas.

FOTO HISTÓRICA

O título do Mundial de 1986 foi conquistado pela Argentina, comandada pelo genial Maradona, numa final eletrizante contra a então Alemanha Ocidental, que terminou 3 a 2 para os nossos vizinhos, no entrañable Estádio Azteca, na Cidade do México.

Mas Maradona não está no super quinteto ofensivo, entretanto, Juarez Soares, sim. Ele tinha à época 45 anos e, na foto, ocupa o lugar de centroavante, contudo, teria sido o ponta-direita.

Quem sabe, no lugar de Garrincha, morto em 1983, com 49 anos. O meia-direita é o português Eusébio (1942 – 2014), A Pantera Negra, nascido em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, estrela do Benfica dos anos 1960 e da Copa do Mundo de 1966. O centroavante, pelos seus mais de mil gols, é, naturalmente, Pelé, que completará 78 anos em agosto próximo.

Kopa: mago da seleção francesa nos anos 50
Kopa: mago da seleção francesa nos anos 50

O meia-esquerda, que, na foto, está na ponta-direita, é o húngaro Puskas (1927 – 2006), maior dos astros da mágica seleção do Mundial de 1954 – vice-campeã em Berna, capital da Suíça, ao ser derrotada pela Alemanha Ocidental, na final, por 3 a 2, de virada, após estar ganhando por 2 a 0.

E, improvisado na ponta-esquerda, o célebre francês Raymond Kopa (1931 – 2017), do escrete gaulês da Copa do Mundo de 1958, companheiro, no poderoso Real Madrid, do próprio Puskas, bem como do argentino Di Stefano (1926 – 2014) e do ponta-esquerda Gento, de 84 anos, que era veloz como uma bala certeira.

É OU NÃO É ?

“É ou não é, Castro, o maior ataque de todos os tempos?” – questionava-me Juarez Soares.

Respondi que, pelo menos na foto, poderia ser. O valioso retrato, aliás, foi feito pelo uruguaio José Lazaro, irmão do festejado empresário de artistas dos anos 1960 e 1970, Marcos Lazaro, este polonês de nascimento, mas ambos radicados, primeiramente, em Buenos Aires e, depois, em São Paulo.

Os dois administraram carreiras de celebridades como Roberto Carlos, Wilson Simonal, Maysa Matarazzo, Jorge Ben, Elis Regina, Chico Buarque de Holanda e Ronald Golias. José Lazaro sempre foi mais vinculado ao futebol do que o irmão.

Eusébio, maior jogador da história de Portugal, comentou para a RTP
Eusébio, maior jogador da história de Portugal, comentou para a RTP

Esteve no Mundial de 1986 e pôde captar a foto, possivelmente, na tribuna de imprensa do Estádio Cuauhtémoc, em Puebla, no dia 16 de junho, pouco antes do início da partida entre Brasil e Polônia, pelas oitavas de final, com a goleada do selecionado de Telê Santana por 4 a 0.

Aquele ataque espetacular estava na Copa do Mundo comentando os jogos para seus respectivos países. Pelé e Juarez Soares eram enviados da Rede Bandeirantes de Televisão. Eusébio teria ido a convite da lusitana RTP.

Puskas era colaborador da televisão húngara, MTVA, e Kopa estaria credenciado pela francesa Antenne 2 (atual France 2).

MAGISTRAL ATAQUE EM CAMPO

Juarez Soares também jurou, diante de um prato de lasanha à bolonhesa, que aquele magistral ataque não ficou reduzido a uma fortuita foto, cuja única cópia, a todo color, está em seu acervo.

Puskas: barrigudo, décadas após a aposentadoria
Puskas: barrigudo, décadas após a aposentadoria

O ataque chegou a entrar em campo para jogar um amistoso, tradicional nos mundiais, entre uma seleção de jornalistas do país anfitrião contra a dos enviados especiais.

“Corria rente à linha de fundo e passava a bola, na velocidade, para o Puskas, que, muitas vezes, caia pela direita”, recorda Juarez Soares.

“Ele estava já com uma barrigona e muitas vezes não conseguia controlar meus lançamentos”.

Foi aí que o maestro da célebre Rapsódia Húngara, que falava bem o espanhol, aproximou-se do repórter brasileiro e, ofegante, sugeriu que corresse menos e passasse a bola com mais calma.

Justamente o contrário de Eusébio e Pelé que ainda davam velocidade ao ataque. Principalmente Eusébio.

PERDIDO NA MEMÓRIA...

O resultado desse inesquecível encontro nem o Juarez Soares se recorda.

Pelé e Puskas.
Pelé e Puskas.

“Era uma pelada entre colegas”, relata.

“A gente fazia um gol e os mexicanos, em seguida, marcavam outro”.

É o dono do único registro desse encontro das estrelas dos anos 1950 e 1960, porque, como me contou, só ele pediu uma cópia ao José Lazaro. A foto, portanto, existe - e quero uma réplica para incluir no meu imenso mural, em casa, que batizei de Fundamentos do Futebol.

Mas confesso que ainda guardo a dúvida. Este ataque teria mesmo entrado em campo há 32 anos sob o tórrido sol do México?

CONHEÇA UM POUCO DE ALBINO CASTRO

Albino Castro foi diretor de Jornalismo do SBT (1988 - 1998), TV Gazeta SP (2002 - 2006) e da TV Cultura SP (2006 - 2007). Chefiou a redação italiana da Telemontecarlo, em Roma, de 1986 a 1988, e comandou a TV Brasil (da EBC) em 2015 e 2016.

Dirigiu também o serviço eletrônico do diário econômico Gazeta Mercantil (de 1999 a 2001).

Albino Castro: craque do jornalismo
Albino Castro: craque do jornalismo

Esteve por 12 anos na Europa, entre 1976 e 1988, em Madri e Roma, onde, antes de ingressar na emissora do Principado de Mônaco, foi correspondente de O GLOBO, Istoé e do semanário português Expresso.

Passou ainda pela redação carioca de O GLOBO, entre 1972 e 1976, como repórter e redator, depois de ter atuado na Editoria de Esportes da Folha da Tarde(1968) e A Gazeta (1968 - 1969), ambos de São Paulo. Também comandou a Editoria de Esportes da Tribuna da Bahia, em Salvador, onde nasceu.

É, hoje, produtor independente, colunista do semanário Portugal em Foco e dirige, na Rádio Trianon de SP, o programa de debates políticos, Contraponto, de segunda-feira a sexta-feira, das 17 às 18 horas.

Tem grande paixão pelo universo do futebol.

- - ALBINO CASTRO
Albino Castro foi diretor de Jornalismo do SBT (1988 - 1998), TV Gazeta SP (2002 - 2006) e da TV Cultura SP (2006 - 2007). Chefiou a redação italiana da Telemontecarlo, em Roma, de 1986 a 1988, e comandou a TV Brasil (da EBC) em 2015 e 2016. Dirigiu também o serviço eletrônico do diário econômic
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