Por conta própria, grupo de torcedores segue com projeto para resgatar o Canindé

Grupo de torcedores uniu-se para reconstruir a Portuguesa com as próprias mãos

por Agência Futebol Interior

Por Guilherme Serrano e Maria Luiza Dourado

São Paulo, SP, 07 (AFI) - A Associação Portuguesa de Desportos, mais conhecida como Portuguesa ou simplesmente Lusa, é um clube fundado na cidade de São Paulo, no dia 14 de agosto de 1920. O Estádio do Canindé, um dos mais tradicionais da cidade, foi adquirido pelo clube no dia 14 de dezembro de 1956. Nesse mesmo dia, nascia Artur Cabreira Gomes, um lusitano fanático e predestinado que, 62 anos depois, seria um dos principais responsáveis por tentar resgatar a história e a dignidade da Portuguesa.

Muitos dos que hoje passam pelos arredores da Marginal do Rio Tietê, em São Paulo, mais precisamente na Rua Comendador Nestor Pereira, número 33, sequer imaginam o que aquele local significa. O Estádio do Canindé foi palco de muitas glórias da Portuguesa e casa de jogadores como Djalma Santos, Julinho Botelho, Félix, Leivinha, Marinho Peres, Enéas, Roberto Dinamite, Dener e Zé Roberto, craques que por lá desfilaram com a camisa rubro-verde. Em 2018, 98 anos após a sua fundação, a Portuguesa vive o pior momento de sua história, com uma profunda crise política, econômica e futebolística, e se outrora disputava decisão de Campeonato Brasileiro Série A, hoje não figura em nenhuma divisão do futebol nacional.

“A gente luta para tentar salvar a Portuguesa ainda. Com muito carinho, com muito amor, sabe? É uma coisa de paixão mesmo”, diz Artur.

Artur Cabreira Gomes é o criador do grupo de apaixonados pela Lusa que se juntou para realizar uma reforma no centro de treinamento do clube e uma revitalização no Estádio Doutor Oswaldo Teixeira Duarte, o Canindé, com direito a limpeza do fosso; pintura total das arquibancadas, vestiários, salas de imprensa, torre de iluminação e compra de novas lâmpadas para os refletores.

(Foto: Maria Luiza Dourado)
(Foto: Maria Luiza Dourado)

O projeto começou um tanto despretensioso, no início de 2017, com o objetivo inicial de comprar panelas e eletrodomésticos para o centro de treinamento da equipe, localizado no Parque Ecológico do Tietê, e hoje, mais de um ano depois, foi muito além, se estendendo para o Salão Nobre do clube e principalmente para o estádio, e já há novos desafios sendo projetados para o ano de 2019.

O INÍCIO DE TODO O PROJETO: CENTRO DE TREINAMENTO
Tudo começou em janeiro de 2017, quando Emerson Leão, ex-goleiro e ex-treinador de futebol, se propôs a ajudar a Portuguesa, assumindo um cargo voluntário de consultor de futebol. No entanto, ao chegar no CT, Leão percebeu que as condições de trabalho eram muito precárias, e sequer havia um forno elétrico para preparar comida para os jogadores.

Diante desse cenário, com reclamações por parte dos jogadores e principalmente de Leão, o diretor de futebol do clube, Nando, pediu a ajuda de Artur, que é conselheiro do clube, e ele prontamente se colocou à disposição.

Arrecadar o dinheiro para as reformas não foi fácil. Os integrantes do grupo criado por Artur contaram sobretudo com doações de eletro-eletrônicos para a realização de rifas, além de colaborações dos próprios torcedores. No entanto, mesmo com o progresso que o projeto significava para o clube, muitos se negaram a ajudar.

(Foto: Maria Luiza Dourado)
(Foto: Maria Luiza Dourado)

“Quem me ajudou mais foi o torcedor de arquibancada… O pessoal da classe alta do clube não me ajudou. Me negavam dez reais. Acho que todo mundo queria ver o clube indo pro fundo do poço mesmo. É estranho, né?”

“Credibilidade”. Essa é a palavra que Artur utiliza para definir o reflexo de seu trabalho dentro da Portuguesa. Como o torcedor também é conselheiro do clube, ele já tinha alguma influência dentro da Lusa. No entanto, após a realização das melhorias no centro de treinamento, Artur de fato obteve uma maior credibilidade, fator fundamental para que, posteriormente, ele fosse convidado para um novo desafio.

“O Artur sempre foi uma pessoa muito influente dentro do clube. Ao mesmo tempo em que o presidente pouco se posiciona, ou pouco se mobiliza para resolver questões essenciais para nós, o Artur, tanto no papel de conselheiro como no de torcedor, é conhecido por ir atrás e sempre dar a cara a tapa”. Quem explica é Manuel de Freitas Gouveia Junior, de 38 anos, torcedor da Portuguesa desde garoto e também filho de torcedor lusitano.

SEGUNDA ETAPA: SALÃO NOBRE DO ESTÁDIO DO CANINDÉ
Poucos sabem, mas dentro do Estádio do Canindé, nas dependências sociais do clube, há um Salão Nobre com capacidade para 500 pessoas. Lá são realizados diversos tipos de eventos organizados pelos sócios da Lusa, e o local também é alugado para eventos de terceiros. O problema é que o espaço contava com apenas dois banheiros, que não passavam por reformas há mais de 30 anos, e para resolver isso, os conselheiros logo pensaram em Artur.

Assim, surgiu um novo grupo no WhatsApp, diferente daquele que foi criado para reformar o CT. Agora, além de pessoas do setor futebolístico, Artur convidou também torcedores mais ligados à parte social do clube, aumentando assim o seu leque de contatos e colaboradores. Novamente houve aceitação, e além da reforma dos dois banheiros, foi construído mais um, acessível para cadeirantes e portadores de necessidades especiais.

“Eu olhei e pensei ‘precisamos fazer também um banheiro de acessibilidade. Ou fazemos os três ou não fazemos nenhum’. Porque aqui no clube não tem nenhum de acessibilidade… Aí toparam, mesclei o grupo entre social e futebol e reformamos os dois banheiros e construímos mais um. Essa reforma ocorreu de setembro a dezembro de 2017”

O MAIOR DESAFIO: PINTURA E REVITALIZAÇÃO DO ESTÁDIO
Depois de realizar as reformas nos banheiros, Artur achou que o seu trabalho de melhoria dentro da Associação Portuguesa de Desportos havia terminado. No entanto, em janeiro de 2018, o torcedor se viu em frente ao maior desafio até então: a revitalização do Estádio do Canindé.

“Começou a Copa São Paulo de Futebol Júnior, e a Portuguesa recebeu o América em um dia que chovia bastante. E lá em cima, onde fica a tribuna, onde ficam os jornalistas, tem vazamento, tem goteira. E ali ninguém arruma. Aí um dos jornalistas fez um áudio criticando a situação do Canindé e aquilo viralizou”.

O episódio provocou a ira dos torcedores, sócios e conselheiros do clube, que não gostaram de receber as críticas. Quem estava dentro de campo, contudo, concordava completamente com as reclamações, pois as más condições do estádio afetavam não só os jornalistas e torcedores, mas também os jogadores.

Dessa forma, Artur reconheceu a necessidade de melhoria e ficou do lado do jornalista e dos atletas, dizendo que as reclamações dos profissionais eram justas e coerentes. Dessa forma, acabou sendo também duramente criticado, mas respondeu com a criação de um novo grupo. Assim surgiu o SOS Estádio do Canindé.

“Comecei a ligar para as pessoas dizendo que o Canindé estava muito feio, que precisávamos arrumar antes que a laje caísse. E foi indo. Comecei com 10 pessoas, fui para 15, depois 20, depois 30… Liguei para o Lambão, que foi um torcedor que doou uma televisão para rifarmos quando estávamos reformando o CT e ele me entregou uma TV nova em casa. Aí fiz a rifa e comecei a vender. Arrecadei R$10 mil em menos de um mês”

O torcedor conseguiu o dinheiro necessário para iniciar as obras, mas ficou em um dilema entre reformar a laje que estava com infiltrações e vazamentos ou fazer a pintura do estádio. Após conversar com um engenheiro que fazia parte do grupo, Artur teve a certeza de que a laje ainda resistiria por um bom tempo, então preferiu começar pela pintura.

(Foto: Maria Luiza Dourado)
(Foto: Maria Luiza Dourado)

“Contratei um pessoal e fizemos a limpeza e pintura do fosso. Aí foi o primeiro passo, já deu uma clareada. Aí conversei com o Aleixo Leopoldo, um torcedor que também é engenheiro, e ele calculou para mim a quantidade exata de tinta que eu precisava para pintar toda a arquibancada. Precisava de 90 latas de tinta de três cores diferentes: amarelo do ouro, vermelho da paixão e verde da esperança. Tudo que a Portuguesa precisa, né?”

Independentemente do clima, o trabalho árduo era realizado todos os dias. Quando chovia, o plano B era pintar a sala de imprensa, os vestiários, a sala de marketing e a administração, setores que o grande público não vê, mas que também estavam em más condições. Nem as torres de iluminação ficaram de fora. Artur fez questão de contratar um profissional para subir lá e refazer a pintura do gigantesco emblema da Lusa que dá cor ao visual cinzento da Marginal Tietê. Tudo isso com a ajuda não só de torcedores da Portuguesa, mas sim, de apaixonados por futebol.

“Toda a mão de obra, tudo vem com a ajuda de torcedores até de outros times. Apareceu torcedor do Botafogo, arrumei palmeirense, arrumei corinthiano, e por aí foi…”

Naturalmente, nem todos os torcedores quiseram ou puderam participar do projeto. Mas independente de qualquer coisa, depois de tudo que foi realizado, todo lusitano se sente feliz pelo o que esse grupo fez pelo clube.

“Não participei das reformas por questões pessoais e de logística, mas me sinto muito orgulhoso com esse projeto. Frequento o Estádio do Canindé desde quando era criança e já vivi os altos e baixos desse clube. Realmente, a situação era uma das piores da história, e as condições, tanto do estádio quanto do centro de treinamento, estavam muito ruins. Agora, isso mudou: os jogadores têm um CT com condições um pouco melhores, e os torcedores têm uma casa revitalizada. Tudo isso feito por nós, os apaixonados pela Lusa. É algo indescritível”, diz Manuel.

As reformas, de fato, foram feitas pelos torcedores e para os torcedores. No entanto, os esforço não ficou longe de passar despercebido dentro das quatro linhas, sendo admirado também pelos atletas.

CONTINUIDADE DO PROCESSO E PROJEÇÕES DO CLUBE PARA 2019
A pintura de todo o Canindé, tanto interna quanto externa, já está concluída. As grades que ficam em volta do estádio também foram pintadas, os fossos entre o gramado e a arquibancada agora estão limpos e foram compradas novas lâmpadas para melhorar a iluminação dos refletores, que também passaram por limpeza e pintura. Mas o trabalho está longe de acabar. Artur já tem novos projetos e novos objetivos a serem alcançados a partir de 2019. A prioridade, agora, é a reforma da marquise, obra que exigirá ainda mais dedicação em busca de recursos e mão de obra.

“A pintura já está concluída, foi um processo de dia a dia que demorou nove meses. Agora nós estamos com um saldo para poder mexer na marquise do estádio, que é o maior desafio, porque é uma coisa mais técnica”

Se fora de campo a dedicação é total, os torcedores não veem isso refletido dentro das quatro linhas. A Portuguesa precisava vencer a Copa Paulista, torneio disputado entre cinco de agosto e dois de dezembro, para conseguir acesso à Série D, mas isso não aconteceu, pois a Lusa foi eliminada ainda na primeira fase, no final de setembro. Assim, o clube fica sem nenhuma atividade futebolística profissional até o dia 20 de janeiro de 2019, quando começa a disputa do Campeonato Paulista Série A2.

“Infelizmente, o feito realizado pelos torcedores não refletiu como esperávamos dentro de campo, e a Portuguesa agora terá um longo período de inatividade. Isso, quer queira quer não, é reflexo de algumas más gestões pelas quais o clube vem passando, ainda que nós, das arquibancadas, sempre façamos nossa parte”, afirma Manuel.

Mas amor de torcedor é mesmo algo inexplicável. Independentemente do sofrimento, o apaixonado pelo clube jamais vai deixar de torcer. Muito pelo contrário. As dificuldades só fazem com que o amor pela Portuguesa continue. E é por esse ideal que Artur luta, todos os dias, para que a nação lusitana nunca se acabe.

“Se a Portuguesa amanhã acabar, eu não mudo de time. É uma coisa de paixão que está enraizada na minha pele. Eu sou casado com uma portuguesa, e tenho a outra Portuguesa que é a minha amante. Então tenho duas portuguesas na minha vida que eu amo de paixão… Eu já chorei muito, mas hoje eu não quero mais chorar”, finaliza.

 
 
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