Paixão pela Ponte, união de torcidas rivais, dramas e polêmica: Washington Coração Valente

Em entrevista ao repórter Kim Belluco, o atacante relembrou boas façanhas durante toda a carreira

por Kim Belluco

Campinas, SP, 17 (AFI) - Maior artilheiro de uma única edição de Campeonato Brasileiro, com 34 gols, Washington se tornou ídolo de três clubes nacionais (Ponte Preta, Fluminense e Athletico Paranaense), passou por muito dramas na carreira, mas venceu todas. Como um verdadeiro brasileiro, nunca desistiu de suas lutas.

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Com passagens também por São Paulo, Caxias e futebol japonês, Washington conversou com o repórter Kim Belluco e relembrou seu início de carreira, momentos marcantes e frustrações. O ex-atacante se diz apaixonado pela Ponte Preta e falou sobre a polêmica que culminou com sua demissão da CBF.

Ele não deixou de falar sobre seus títulos e por sua característica marcante, a de artilheiro. Contou à reportagem como recebeu o apelido de 'Coração Valente' e de como foi aplaudido de pé por duas torcidas em meio a um clássico.

Washington com a camisa da Ponte Preta. Foto: Rodrigo Ceregatti
Washington com a camisa da Ponte Preta. Foto: Rodrigo Ceregatti

Confira a entrevista completa com Washington 'Coração Valente'

Washington, apresentamos aos torcedores da Ponte Preta vários nomes de atletas com passagens pelo clube. O seu foi escolhido dentre eles para entrevistarmos. Como você vê todo esse carinho?

Fico lisonjeado. Muito honrado por ter sido escolhido pelos torcedores da Ponte. É um reconhecimento por tudo que a gente fez pelo clube. Sempre procurei honrar a camisa alvinegra, a história. Fico emocionado de ser lembrado até hoje.

Preparamos uma entrevista de modo cronológico. Sendo assim, como era a vida do Washington antes do futebol?

Comecei muito cedo. Nasci em Brasília. Jogava muito futebol com a família e amigos, sempre estava envolvido. Participava dos campeonatos de colégio. O futebol estava muito integrado na minha vida. Consegui disputar um campeonato estadual, pelo Brasília, até que fui chamado para atuar no Caxias.

No Caxias, foi um processo mais profissional. Já treinava todos os dias, morava na concentração. Já era uma outra vida. Em Brasília só jogava no final de semana.

Do Caxias, você foi para o Internacional. Como foi a primeira experiência em um time grande?

Foi o único clube no qual não consegui render o esperado. Estava sendo o principal atleta do Caxias, mas rompi os ligamentos do tornozelo. Fiz a cirurgia, mas não tive tempo de recuperação. Voltei sem fazer fisioterapia. E fui contratado pelo Internacional. Além de estar fora de forma, tinha acabado de recuperar de uma grave lesão. Não tinha condição de render. Fiz minha recuperação no Inter, aí voltei para minha condição ideal e acabei indo para o Paraná.

Da primeira passagem da Ponte para a segunda, qual foi a diferença?

A primeira passagem foi muito boa. Fiz vários gols jogando a Série A2 do Campeonato Paulista. Existia uma grande expectativa, em 1998, em cima da Ponte de buscar o acesso, mas não conseguimos. Acabando o período de empréstimo, voltei para o Caxias.

No Caxias fiz uma bela campanha, de novo, quando acabei vendido ao Paraná. Fiz um campeonato muito bom. Fui vice-artilheiro do paranaense, marquei dez gols no brasileiro, mas novamente sofri uma lesão na perna, acabei a quebrando. Recuperei, aí veio o interesse da Ponte, que, desta vez, comprou meu passe (estipulado em U$ 1 milhão, na época).

A segunda passagem foi tudo aquilo que todos conhecem. Fui artilheiro do Paulista de 2001 (16 gols), da Copa do Brasil (14 gols), veio a convocação para defender a seleção brasileira. Acabei sendo valorizado.

Em 2001, a Ponte Preta foi muito bem na Copa do Brasil, mas não conseguiu render a mesma coisa na semifinal contra o Corinthians. A perda de um título a nível nacional pela equipe foi uma de suas decepções no futebol?

A Ponte iria brigar pelo título, mas eu não disputei a semifinal por ter sido convocado para a seleção para disputar a Copa das Confederações. Eu fui para a seleção e o Nelsinho Baptista acabou saindo da Ponte Preta.

Parece que teve uma discussão com a diretoria e acabou pedindo para sair. Chegou o Marco Aurélio. Mesmo sendo de Campinas, conhecendo o elenco, o Marco Aurélio colocou uma filosofia de jogo totalmente diferente da de Nelsinho. O time acabou sendo muito prejudicado com tudo isso.

Foram 106 partidas, 83 gols, guarda um carinho especial pela Ponte?

Tenho um carinho muito especial pela Ponte Preta. Todos times que passei tenho um carinho especial, mas três são diferenciados: Ponte, Athletico e Fluminense. Torço pela Ponte, assisto jogos, estou sofrendo no Campeonato Paulista, com a equipe lutando contra o rebaixamento, algo que não é costume do clube.

Quando chegou na Ponte, você esperava ser convocado para defender a seleção ou foi uma surpresa?

Quando fui para a Ponte, não esperava que chegaria à seleção. Mas por tudo o que aconteceu, a possibilidade cresceu de acordo com o que vinha fazendo. Se tornou realidade. Para mim foi uma realização de um sonho.

Depois da Ponte foi para Turquia. Novo estilo de vida, novo país, e foi diagnosticado com Síndrome coronariana aguda. Qual foi a reação, de onde tirou forças? No passado, também chegou a enfrentar a diabetes, isso ajudou a superar todo o drama?

Eu estava vivendo um grande momento na Ponte Preta. E o clube recebeu grandes propostas de fora e de dentro do Brasil, mas a minha vontade era atuar no exterior. Veio a proposta do Fenerbahçe e acabou sendo interessante para ambas as partes.

Eu estava muito bem na Turquia. Gostava da cidade, era artilheiro do Campeonato Turco, mas acabou acontecendo todo esse problema. Acabei sentindo uma queimação no peito durante o treino e essa sensação foi aumentando durante os dias.

Quando veio a notícia, fiquei muito triste, chocado. Os médicos me disseram que eu não poderia voltar a jogar, mas acreditei. Falei para mim mesmo que tentaria até o fim. Iria usar todas as chances para correr atrás da recuperação e ela veio, graças a Deus. Nunca pensei em desistir ou parar de jogar. Sou muito grato ao meu cardiologista. Temos amizade até hoje.

A doença quebrou minha sequência e acabou atrapalhando minha experiência no exterior. Mas o Athletico me abriu as portas e acabei fazendo toda minha recuperação no clube.

Recebeu o apelido de 'Coração Valente' no Athletico?

Recebi quando voltei a jogar no Athletico. Fui artilheiro do paranaense (dez gols), do Brasileiro (34 gols - segue sendo o maior artilheiro de uma única edição do certame). Aí o apelido acabou pegando e ficou até hoje.

Como foi voltar a jogar depois de todo aquele drama? Nos conte um pouco do carinho dos athleticanos.

Fiquei um ano e dois meses parado. Por toda essa luta, acabou se criando uma expectativa muito grande. Voltei em um clássico contra o Paraná. Nesse jogo, marquei um gol, que acabou ganhando o apelido de 'gol da vida'. A torcida do Athletico festejou muito, obviamente, mas a do Paraná bateu palmas, algo inédito até então. Fui saudado por toda aquela luta que tive para voltar aos gramados.

Washington é ídolo do Athletico
Washington é ídolo do Athletico

Do Athletico foi para o Japão. Como foi a adaptação? Pelos números, parece que foi muito tranquila, com tantas conquistas e títulos.

Minha segunda saída do Brasil foi para o Japão. Aconteceu o inverso do que rolou na Turquia. Não pelo país, mas por tudo o que aconteceu, Artilheiro de todos os campeonatos, campeão praticamente de tudo que disputei.

Aconteceu tudo de bom comigo no Japão. Fui o artilheiro do mundial de 2007 (com três gols). Fui considerado pela revista 'Number', uma das mais conceituosas do país, como o melhor atacante estrangeiro a já ter atuado na J-League. Um prêmio que ficará marcado.

Como foi o retorno ao futebol brasileiro para jogar no Fluminense? Foi uma decisão sua?

Recebi uma proposta do Fluminense. O time iria disputar Libertadores, e era um torneio no qual não tinha disputado. Time era muito forte, havia grandes jogadores. Fizemos a melhor campanha da Libertadores de 2008, mas acabamos perdendo na final nos pênaltis para LDU. Foi muito marcante esse retorno.

Washington, me recordo da partida nas quartas de final contra o São Paulo. Para você, foi uma das mais marcantes? A perda do título acabou sendo uma frustração?

Sim, com certeza. A torcida do Fluminense elegeu o gol contra o São Paulo como um dos mais marcantes da recém história do clube. O São Paulo era favorito. Apesar de termos a melhor campanha, o São Paulo era acostumado com a Libertadores, era copeiro.

Fiz o gol aos 47 minutos do segundo tempo. Classificamos para semifinal, eliminamos o Boca Juniors, partida que acabei marcando também. O torneio foi memorável, mas infelizmente na final não conseguimos o título. É uma partida que se disputássemos mais dez vezes, venceríamos as dez, mas aquela perdemos. São coisas que acontecem no futebol.

A atuação contra o São Paulo levou o clube a te contratar?

Sim, mas não só nesse jogo. Fiz uma excelente partida na Libertadores, mas também marquei no Brasileiro. Chamou a atenção. Foi uma Honra vestir a camisa do São Paulo. Minha passagem foi excelente. Eles (torcida e imprensa) falam que no São Paulo não fiz como nas outras equipes, ao contrário. Tive uma média de gol excelente. Nenhum atacante fez algo semelhante (Foram 56 jogos e 32 gols na primeira temporada pela equipe tricolor).

A eliminação em 2008 acabou ficando registrada. 'Você me tirou da Libertadores e não está fazendo gols', mas briguei pela artilharia, fui um dos artilheiros da Libertadores pelo clube. Por uma decisão do treinador da época (Ricardo Gomes), acabei saindo e retornando ao Fluminense, onde fui campeão brasileiro de 2010.

No Fluminense, fechou sua carreira com chave de ouro?

Fui campeão brasileiro e optei por encerrar a carreira. Uma história vitoriosa, limpa, de muita luta, batalha e dedicação. Fechamos com chave de ouro.

Washington em sua passagem pelo Fluminense
Washington em sua passagem pelo Fluminense

Sente falta um camisa 9 no futebol brasileiro, com características semelhantes a sua?

Sinto! Não só eu como o futebol brasileiro. Teve mudança tática, mudança de estilo, mas o futebol brasileiro só foi vitorioso com um centroavante, sempre. A seleção, campeã do mundo, sempre teve um camisa 9, é cultural. Quando tem um centroavante que começa a surgir nesse estilo, todo time que comprar, que ter em seu elenco. Faz muita falta.

Terminado a carreira no futebol, investiu como treinador. Como foi a experiência? (Washington fala aqui da polêmica que causou sua demissão da CBF).

Fiz curso de treinador na CBF, curso de gestão. Optei por começar em equipes menores, para aprender e poder crescer. Passei por Vitória da Conquista. Classifiquei o Itabaiana para segunda fase da Série D, mas acabei saindo. Foram passagens rápidas.

Logo em seguida veio o convite para ser Secretário Nacional do Esporte. Fiz um trabalho excelente e acabei aceitando a proposta, na sequência, para ser diretor da CBF. Mas aconteceu uma situação muito chata em um jogo no qual acabei sendo homenageado na Copa do Brasil entre Caxias e Botafogo.

Estava subindo ao camarote, mas ainda no gramado, quando aconteceu um lance de pênalti. Na inocência, acabei mostrando a imagem a um amigo, que é preparador de goleiros do Caxias. A transmissão acabou mostrando esse momento e acabei me desligando do cargo.

O futuro de Washington será de treinador ou na política?

Estou preparado para todas as situações. Se as coisas começarem a acontecer, estarei preparado e seguirei no meio do futebol.

Você vê espaço para o retorno do futebol no meio à pandemia?

Estamos vivendo um pico. É complicado você voltar em qualquer situação. Temos que respeitar, ouvir as autoridades de saúde. E quando a curva começar a descer, aí sim se pensar em começar a voltar com o futebol, até porque a economia não pode parar. Tem que respeitar o coronavírus.

Você segue sendo o maior artilheiro de uma edição de Campeonato Brasileiro com 34 gols (Gabigol, ano passado, fez 25. Acha que conseguirão bater sua marca?

Eu acho difícil. Pode acontecer, mas não será fácil não. Não digo que será impossível, mas fácil não vai ser.

Manda uma mensagem para os torcedores da Ponte Preta...

Tenho um respeito e sou apaixonado pela torcida da Ponte Preta. É uma torcida confiante, que envolve o clube, a cidade. Quero agradecer todo esse carinho que a torcida tem por mim. Que a gente possa se encontrar novamente.