ESPECIAL PAULISTÃO: A última alegria corintiana e a birra palmeirense

Final história do campeonato estadual ficou marcada por episódio polêmico

por Agência Futebol Interior

Campinas, SP, 17 (AFI) - “O Palmeiras é muito maior que um Paulistinha”. A frase com altas doses de desdém foi forjada na cabeça escalvada do presidente palmeirense Maurício Galiotte e proferida em tom choroso. Ao mesmo tempo, foi uma declaração de guerra à Federação Paulista de Futebol. Por fim, a tentativa de diminuir o título do grande rival Corinthians ficou marcada como um dos momentos mais melodramáticos da temporada e serviu apenas para intensificar a rivalidade entre os dois clubes paulistanos.

Para o lado corintiano, tratou-se de um Paulistão, talvez um Paulistãozão. Bater um inimigo mortal em uma final de campeonato é sempre um grande feito, um dos maiores possíveis no mundo do futebol. Soma-se a isso o fato de o resto do ano do Timão ter decorrido em uma série de frustrações, o que leva o sofredor alvinegro a se apegar ainda mais à conquista já distante, mas reconfortante.

A polêmica está aí para estragar belos momentos. Ela vira protagonista de uma hora para outra e sua sombra se projeta sobre os outros fatos de um mesmo episódio. Os torcedores do Corinthians, com certeza, vão lembrar eternamente do gol marcado por Rodriguinho – carrasco mor do Verdão nos últimos clássicos – no primeiro minuto de jogo. Não devem esquecer também os nada simpáticos Dudu e Lucas Lima parando no gigante deformado Cássio na disputa de pênaltis, encerrada com uma cobrança perfeita de Maycon, orgulho do Terrão. Os palmeirenses e muitos torcedores neutros, no entanto, recordarão apenas a mácula largada no meio da história.

Foto: Ag Corinthians
Foto: Ag Corinthians

FINAL DO CAOS
Para quem não se lembra, o Palmeiras venceu por 1 a 0 em Itaquera, com gol marcado por Borja. Na volta, Rodriguinho esfriou a Arena Palmeiras com apenas um minuto de jogo ao acertar um tapa de primeira após excelente jogada de Clayson. Depois disso, a partida correu com Timão sofrendo, mas segurando, e buscando a velha oportunidade de rebater no contra-ataque.

A confusão foi formada por volta dos 25 minutos do segundo tempo, quando o árbitro Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza marcou pênalti de Ralf em cima de Dudu. Alguns momentos depois, ele mudou a decisão com o auxilio do quarto árbitro e do quinto árbitro. De fato, não foi pênalti, mas a demora de oito minutos para voltar atrás despertou a desconfiança de uma possível interferência externa, o que é proibido pela regra.

'O Palmeiras é maior que um Paulistinha', disse Galiotte.
'O Palmeiras é maior que um Paulistinha', disse Galiotte.

Diante deste cenário, o Palmeiras entrou com um pedido junto ao STJD para que a final fosse impugnada. A conclusão do Tribunal foi de que as provas apresentadas pelo clube não sustentavam o argumento de interferência externa e o pedido foi rejeitado. A decisão foi tomada em setembro, após muita insistência da cúpula palmeirense, que chegou a contratar uma empresa multinacional para investigar a arbitragem da final estadual.

Tudo isso aconteceu no mesmo ano em que muitas competições, inclusive a Copa do Mundo, investiram no árbitro de vídeo, em movimento que deu resultado, mas não zerou os erros. As reclamações contra arbitragem foram mais uma vez a tônica da temporada.Teve erro para todos os gostos. Com árbitro de vídeo, sem árbitro de vídeo, para o time visitante, para o time da casa, a favor do Corinthians, a favor do Palmeiras.

RAZÃO E PARANOIA
Não é exagero concluir que coube aos palmeirenses certa paranoia, como se eles fossem os grandes perseguidos do futebol brasileiro, em uma digna cruzada pela Justiça contra a toda a sujeira dos bastidores. Já diria o mais célebre palmeirense da atualidade: “Tem que mudar isso aí!”. É claro que o Corinthians tem um histórico no mínimo suspeito em relação à arbitragem, por conta de 2005, mas todo a confusão da maldita final estadual de 2018 não parece estar ligada a um grande esquema orquestrado pelo fanfarrão André Sanchez.

Foto: Ag Corinthians
Foto: Ag Corinthians

A verdade é que a legitimidade sempre será discutida, mesmo diante do fato: o Corinthians foi campeão Paulista em cima do Palmeiras, na casa do Palmeiras, em um momento no qual o Palmeiras tinha um poder de fogo muito maior. Mesmo vindo de um título brasileiro, o time alvinegro que disputou a final já vinha cambaleante, sem passar muita confiança ao torcedor, que sempre acreditou apenas porque essa é sua função. Não fosse a estrela de Rodriguinho brilhar aos 47 minutos do segundo tempo, no segundo jogo da semifinal contra o São Paulo, o Timão não teria disputado a final. As coisas deram certo.

QUANDO A MARÉ BAIXOU
O corintiano até já imaginava, e esses foram os últimos momentos de alegria genuína de 2018. O saldo do ano pode ter sido ligeiramente positivo por conta da conquista sobre o grande rival, mas depois foi frustração atrás de frustração, começando pelas saída de Rodriguinho e Fábio Carille. Depois, eliminação na Libertadores, título perdido na final da Copa do Brasil e luta contra o rebaixamento nas últimas rodadas do Brasileirão.

É por isso que não adianta se iludir com um título ou chorar só porque perdeu uma final. O futebol vai te dar uma nova oportunidade, por bem ou por mal. Após derramar lágrimas, o Palmeiras terminou a temporada por cima do rival. Teve um pouco mais de sofrimento, com a derrota por 1 a 0 para o Timão no primeiro turno do Brasileirão, após uma atuação muito superior do adversário.

Foto: Ag Corinthians
Foto: Ag Corinthians

A vingança não veio na primeira chance, mas chegou em setembro. Vitória por 1 a 0, com direito a gol e provocação do nada lúcido Deyverson. Por fim, veio o título Brasileiro, consagrado com o melhor turno da história dos pontos corridos, superando o próprio Corinthians de 2017. A diferença foi pequena, com empate no número de pontos (47) e vantagem no saldo de gols, mas quando se fala em clássico, qualquer vitória ganha proporções descomunais.

Por conta dessa força inerente ao que é relativo a Corinthians e Palmeiras, o Paulistão de 2018 não acabou. Nada que envolve esses dois nomes acaba. Marcos pode ser visto defendendo o pênalti de Marcelinho até hoje, repetidamente, dentro de um bar, na descrição eloquente do cliente mais bêbado.Esse mesmo palmeirense estará retrucando sobre os oito minutos de demora na final mais triste do Allianz Parque, quando um alvinegro quiser invocar a chapada de Rodriguinho.