Centro de e-sports em comunidade do Rio de Janeiro procura apoio para se manter

O investimento inicial para montar uma estação de jogo, oscila de R$ 7 mil a 18 mil

por Agência Estado

Campinas, SP, 16 - O sonho do estudante Ronald Nascimento é ser um jogador profissional de League of Legends, game que deixa alucinados oito milhões de pessoas por dia e simboliza o crescimento do mercado de e-sports no mundo.

Morador da comunidade de Parada de Lucas, ao lado de Vigário Geral, na zona norte do Rio de Janeiro, o menino de 18 anos tem um obstáculo para transformar seu desempenho virtual em trabalho com carteira assinada. O investimento inicial para montar uma estação de jogo, formada por computador, mesa, cadeira e periféricos, oscila de R$ 7 mil a 18 mil.

SAÍDA

Os bicos que ele faz como servente de pedreiro com o avô servem apenas para ajudar a mãe, a cozinheira Patrícia Luana, a sustentar os cinco irmãos. Ele não tem computador e o celular foi furtado. A saída que Ronald encontrou para jogar LoL, o apelido de League of Legends, foi se inscrever no Afrogames, o primeiro centro de treinamento de jogos eletrônicos localizado em uma favela no Brasil.

Foto: Reprodução / Twitter
Foto: Reprodução / Twitter

Gratuito, o curso foi criado para tentar democratizar e popularizar a prática dos e-sports. Depois de um ano de sucesso, o centro diminuiu muito o ritmo por falta de recursos e agora busca patrocinadores para voltar a funcionar plenamente. Isso atrapalhou o sonho de Ronald.

AFROGAMES

O Afrogames é fruto de uma parceria entre os empresários José Junior, fundador do AfroReggae, instituição que promove a inclusão por meio da arte, da cultura afro-brasileira e da educação, e Ricardo Chantilly, empresário da área de entretenimento responsável pelas carreiras de bandas como Jota Quest e O Rappa. No ano passado, o projeto começou com força.

Cem adolescentes tinham à disposição 20 computadores para jogar o próprio LoL e também estudar trilha sonora e programação de computadores para games. Todos tinham aulas de inglês, ganhavam lanches e vestiam uniformes. O projeto contava com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro e da empresa de telefonia Oi, para infraestrutura de conexão com internet. O programa exigia que o jovem, de 12 a 18 anos, estudasse na rede pública.

Por causa da crise econômica, os investidores não renovaram o patrocínio no início do ano. As aulas, antes de segunda a sexta-feira, hoje só acontecem uma vez por semana.

RETOMADA

Os meninos e os organizadores acreditam na retomada. Chantilly afirma estar perto de assinar um contrato com uma empresa de bebidas. A ideia seria formar um time do projeto para disputar as fases qualificatórias do Circuito Desafiante, a segunda divisão de LoL no Brasil.

Os participantes vão contar com a supervisão técnica da INTZ, uma das mais importantes equipes do País. Os jogadores teriam ajuda de custo de um salário mínimo, uma espécie de bolsa para treinar. "Um trabalho remunerado na área de e-sports teria um grande impacto na comunidade", disse Chantilly.

SEGURANÇA

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Vigário Geral é de 0,763, o 107.º colocado entre 126 regiões do Rio de Janeiro. Um dos principais problemas é a segurança pública.

"Às vezes, a comunidade é tranquila. Às vezes não tem ninguém na rua. Qualquer coisa a polícia já quer enquadrar. Fora isso, é um lugar bom", afirmou Daniel Felipe, que ganhou o apelido de Messi, obviamente por causa de sua habilidade no futebol de verdade. "Melhor ficar aqui (jogando games) do que ficar na rua vendo coisa errada. A parada é complicada. Só quem está aqui dentro dá para ver a realidade que a gente vive", contou o menino de 18 anos.

Além de se tornar um jogador mais habilidoso, Messi aprendeu um pouco de inglês, a jogar em equipe, deixando de lado a individualidade, e também "várias paradas maneiras".

BRAZUCAS PELO MUNDO

Marcio Canosa, diretor de e-sports da desenvolvedora de jogos Ubisoft, diz que os brasileiros são disputados por equipes estrangeiras. No Rainbow Six Siege, a alta qualidade dos atletas profissionais do País e o calendário estruturado fizeram com que grandes organizações estrangeiras investissem na contratação de equipes inteiramente formadas por jogadores daqui. "É como se Barcelona e Real Madrid decidissem contratar um elenco formado apenas por brasileiros para jogar o Brasileirão e a Libertadores".