'Pandemia' no Guarani, democracia, críticas e títulos: histórias de Zenon

Ídolo de Bugre e Corinthians, o ex-meia falou sobre momentos marcantes de sua carreira

por Kim Belluco

Campinas, SP, 31 (AFI) - Arquiteto do futebol, Zenon marcou época com as camisas de Guarani, Corinthians e Atlético Mineiro. Levou o Bugre ao tão sonhado título brasileiro em 1978, vivenciou a história no Timão em meio à ditadura e a famosa democracia corintiana. No Galo, foi bicampeão mineiro, novamente, apresentando um futebol elegante, digno de ser assistido.

Em entrevista ao repórter Kim Belluco, Zenon relembrou momentos marcantes da carreira, revelou polêmicas com o técnico Telê Santana e com o próprio Guarani, em 1989, ano que deixou em esquecimento. Nas suas próprias palavras: 'foi uma pandemia', dando o exemplo dos tempos atuais.

O ex-meia ainda contou histórias dos tempos de Portuguesa e de suas aventuras pelo futebol internacional. Falou que não esperava ter deixado o Corinthians e da falta de oportunidades em uma seleção brasileira recheada de craques. Fez também duras críticas ao futebol atual e sobre o retorno do esporte no país.

Zenon com a camisa do Guarani. Foto: Letícia Martins - le
Zenon com a camisa do Guarani. Foto: Letícia Martins

Confira abaixo pontos importantes da entrevista com Zenon:

Como você enxerga o carinho da torcida do Guarani por sua pessoa?

Acho que tudo isso se deve ao fato de eu ter sido um jogador muito honesto e prestativo dentro das quatro linhas. Não é à toa que você pega o carinho dos torcedores. É através do trabalho que você vai cativando e adquirindo credibilidade com eles.

Como era a vida do Zenon antes do futebol?

Era um cara que trabalhava e precisava se sustentar. Família era muito grande, de nove irmãos. Eu tinha que correr atrás do meu 'troquinho', até aparecer o futebol na minha vida. No segundo semestre de 1971, o Hercílio Luz, da cidade de Tubarão, que está fazendo aniversário, me abriu às portas.

Como chegou o convite do Avaí? E criou-se uma expectativa para atuar em um time de mais renome?

No ano que iniciei minha carreira, fui o destaque na minha posição. Em 1972, já estava na seleção do Campeonato Catarinense e comecei a despertar interesse de muitos clubes. Antes do Avaí, eu tive uma proposta do Aurora, da Bolívia, mas meu pai não deixou eu ir.

Ainda bem, pois logo depois apareceu a proposta do Avaí, onde fiquei três anos, fui bicampeão catarinense e pude disputar pela primeira vez um Campeonato Brasileiro, em 1974.

Do Avaí se transferiu para o Guarani. Passava pela cabeça que teria tanta identificação pelo clube?

Eu sabia que seria difícil vencer no Campeonato Paulista com um time médio. Não tinha essa representatividade de Corinthians e São Paulo, mas com muito trabalho de todo o grupo de atletas, desde 1976, conseguimos fazer história.

Em 76, fomos campeões do primeiro turno do Paulistão, desbancamos todos os grandes e só não fomos na final, porque mudaram o regulamento no meio da competição. Era campeão do primeiro turno contra o campeão do segundo, mas mudaram e conquistamos apenas um ponto por ter vencido primeiro turno. No final das contas, o Palmeiras foi campeão contra o XV de Piracicaba.

Campeão Brasileiro de 1978
Campeão Brasileiro de 1978

Na sua visão, qual foi a partida mais marcante com o Guarani?

Os amantes de futebol têm a mesma opinião que a minha. Foi o jogo contra o Internacional, em Porto Alegre, por 3 a 0. Foi um divisor de águas. A partir daí começamos a acreditar que poderíamos chegar ao título, já que vencemos de um time que era candidatíssimo.

O gol contra o Palmeiras, na primeira partida da final, foi o mais marcante?

Tiveram gols especiais até chegar contra o Palmeiras. O gol do Internacional foi importante, assim como contra o Sport, em Recife, os dois contra o Vasco, no Maracanã, até o gol da primeira final contra o Palmeiras.

Foi de pênalti, mas de muita importância e responsabilidade. Era um jogador de linha que estava debaixo da trave. Aumentou demais a responsabilidade. Bati com muita tranquilidade e não dei chances para o goleiro fazer a defesa. Praticamente ai conquistamos o campeonato brasileiro.

Como foi a experiência fora do país?

A experiência foi útil em sentindo cultural. Trabalhar dentro da Arábia Saudita em 80 não era fácil. Eles tinham muitos costumes. Eles seguiam muitas regras. Hoje não existe tanta rigidez. Estão mais maleáveis. Você tinha que seguir o regime. Frequentar a praia dos estrangeiros, que ficava a 20km da cidade, concordar com muitas medidas em cima da esposa. Em termos de futebol não acrescentou muito na minha vida, não. Foi uma passagem muito boa, pois acabamos valorizando muito mais a vida, o dia a dia.

Nos conte um pouco mais de sua passagem pelo Corinthians, da Democracia Corintiana, tudo que representou aquela época...

Passar pelo Corinthians é o sonho de todo atleta de futebol, ainda mais por ter sido vitoriosa. Foram quatro anos e meio, 304 jogos, 60 gols, muitos importantes. Você fica eternizado dentro de um clube que tem uma representatividade muito grande. Não só Brasileiro, mas mundialmente.

A democracia é decantada em prosas e versos. Sempre sou chamado para dar entrevista a respeito. Foi um projeto criado para brigar pela democratização do país. A ditadura era muito forte, tinha muita repreensão. E nós, através de um jogador que era um craque (Sócrates), e do Adilson Monteiro Alves, dirigente muito inteligente, tocamos em frente.

Necessitávamos muito dos resultados positivos dentro de campo para que o projeto pudesse se fortalecer. Fomos campeões paulistas, chegamos na semifinal do brasileiro. Tudo isso fortaleceu o projeto. Não conquistamos aquilo que desejávamos no ano que gostaríamos, que foi em 84, quando Sócrates subiu no palanque, junto com grandes políticos, jornalistas, atores, brigando pela emenda Dante de Oliveira.

Ela não foi aprovada naquele ano, mas tivemos uma grande participação para que o povo pudesse votar e escolher o seu presidente em 1989.

Na sua visão, foi algo além do futebol?

Sim, foi além do futebol. Foi a primeira vez que um clube do futebol mundial se envolveu com política para o bem da sociedade e isso é falado por um dos grandes atletas do futebol mundial, de uma representatividade muito grande, que foi Eric Cantona, o francês, que hoje virou ator de filmes.

Em suas declarações, ele falou que gostaria muito de ter participado daquele momento da democracia corintiana. Isso é motivo de muito orgulho. Ouvir isso de um atleta famoso, um ator de Hollywood, nos dá essa moral que o projeto não foi em vão, atravessou fronteiras.

Como ocorreu sua saída do Corinthians?

Não gostaria de ter saído do Corinthians, mas o time entrou em um processo de reformulação por não ter ido bem nos campeonatos de 1985. Não tiveram paciência. Eu tenho certeza absoluta que se o time tivesse permanecido nos anos seguintes brigaria em todas as competições por títulos. Com uma nova diretoria, uma nova comissão, acharam que tinham que fazer mudanças. Negociaram oito jogadores de seleção brasileira e um da seleção uruguaia, que era o De Leon.

Em 86, veio a proposta do Atlético. Eu ainda disputei um torneio de verão pelo Corinthians e fomos campeões. Achava que eu ficaria, pois tive uma boa participação no torneio, mas a comissão técnica estava decidida que oito jogadores iriam embora.

Acabei indo para o Atlético, fui bicampeão, cheguei a duas semifinais de brasileirão. Foi uma passagem muito positiva. Só sai do Atlético porque entrei com uma discussão com Telê Santana e acabei tomando a decisão de sair e voltar para São Paulo, quando houve o interesse da Portuguesa.

Zenon com a camisa do Corinthians
Zenon com a camisa do Corinthians

Como avalia sua passagem pela Portuguesa?

Foi um ano fantástico da Portuguesa. Dentro do Paulistão, chegamos perto de disputar o título. No Brasileiro, se fosse pontos corridos, teríamos chegado em quarto pela pontuação que alcançamos. Foi um ano maravilho. Só tenho a agradecer por esses anos, pelos clubes que passei e por ter tido identificação com os clubes e com os torcedores.

Como foi retornar ao Guarani?

Foi o único passe errado que dei na minha vida durante esses 20 anos como jogador de futebol, principalmente, por ter saído da Portuguesa. Os diretores não queriam que eu saísse, mas, sei lá por que razões, mais família, acabei voltando para Campinas. Foi uma volta que não gosto nem de lembrar. Uma volta amarga. Eu pedi para sair do Guarani, porque não aguentava mais tantos desaforos comigo durante esse momento. Peguei meu passe, já tinha direito a passe livre, e fui ao Grêmio do Maringá, onde fui vitorioso. Fomos campeões do primeiro turno do Paranaense, desbancando os grandes. Foi uma experiência muito boa.

Como foi o fim de carreira?

Para encerrar a carreira, fiquei três meses no São Bento para agitar o futebol de Sorocaba. Fui eu, Waldir Peres, Barbieri, Piris, Catanoce. Serginho Chulapa era para ter ido, mas não foi. Foi para dar um 'tchan' no futebol de Sorocaba. E, nesse meio tempo, eu já estava atuando na seleção de masters do Luciano do Valle. Estava disputando o mundial, em 1989, e era campeão.

Era profissional e estava atuando na seleção brasileira com aquela geração maravilhosa do futebol brasileiro, Rivelino, Zico, Edu, Claudio Adão, Nelinho, Amaral, Luiz pereira, os grandes atletas da época. Fiquei cinco anos, sendo tricampeão mundial: Brasil, Estados Unidos e Áustria.

Foram anos maravilhosos com Luciano do Valle. Até hoje jogo com a seleção de master, do Brasil, do Corinthians. É prazeroso. Minha vida futebolística não acabou, mas paralelamente a isso entrei na imprensa esportiva, onde estou de 1992. Isso me satisfaz e me deixa muito feliz.

Como avalia sua experiência pela seleção principal?

Chegar na seleção brasileira era sonho de todo o atleta. Você brigava com cinco ou seis concorrentes. Você poderia fazer várias seleções em frações de segundos. Quantidade e qualidade de jogadores eram grandes na época. Fui servir a seleção em 1979. O Guarani me colocou na seleção, através de meu trabalho muito bem realizado.

Minha estreia aconteceu contra o Ajax, no Morumbi, quando vencemos por 5 a 0. Eu, Renato, Mauro, Careca. Dali eu fui convocado para disputar a Copa América, com a comissão técnica do falecido Cláudio Coutinho. Eu achei que teria um lugar na Copa de 82, mas entrou um novo treinador, que tinha suas preferências e acabei não sendo convocado.

Em 86, a mesma coisa, eu tinha condições de participar daquele grupo. Fui capitão da seleção durante a partida contra Inglaterra, eu achei que iria para Copa, mas foi o mesmo técnico de 82 e fiquei fora do grupo. Faltou um pouco mais de oportunidade, mas, ao mesmo tempo, fiquei muito satisfeito, na época, que era uma concorrência muito grande, ter vestido a camisa da seleção brasileira.

Teve alguma decepção?

Não tive frustração, de forma nenhuma. Depois disputando pela seleção de masters, eu joguei contra esses todos grandes jogadores. Eu pude me satisfazer em termos de disputar Copa do Mundo.

Qual treinador serviu de inspiração?

Eu tive grandes treinadores, não posso citar apenas um. Crespo, no Hercílio Luiz. No Avaí tive Jorge Ferreira. Aprendi muito com ele, tinha uma capacidade muito grande de conhecimento no futebol. Tive privilegio de trabalhar com Paulo Amaral, no Guarani. Depois apareceu Carlos Alberto Silva, que era desconhecido. Ele, com sua forma de trabalhar, sempre muito humilde, também faz parte dessa lista. Mario Travaglini foi sensacional. Maravilhoso trabalhar com ele no Corinthians. Esses treinadores marcaram muito.

E companheiro de clube?

São vários também. Todos times que passei, contei com ajuda de companheiros. Falando em genialidade, o Pelé nem vou citar, pois é acima da genialidade. Mas posso citar Rivelino, Gerson, Sócrates e Zico. Dá para montar várias seleções com olhos fechados. Vário gênios, craques, excelentes, muito bons, bons e jogadores regulares.

Tivemos o prazer de ser o primeiro a entrevistar Dadá Maravilha durante a pandemia, que citou o seu nome dentre os maiores que ele viu jogar...

Fico muito feliz de fazer parte da seleção do Dadá Maravilha, assim como a do Roberto Dinamite, André Catimba, do Casagrande. Isso me deixa muito feliz. Me faz pensar que tive otima performance como jogador. Era considerado fabricante de artilheiros e o grande arquiteto. Me deixa completo em vários sentidos.

*Nesse momento Zenon recorda uma passagem marcante na Portuguesa

Tivemos um campeonato na Ilha da Madeira. Acho que o Cristiano Ronaldo era mascote de um dos times. Eu fui campeão pela Portuguesa desse torneio Internacional. Fui considerado o grande jogador. Me denominaram, o grande arquiteto e falaram para a diretoria da Portuguesa que eles tinham que fazer uma estátua minha no Canindé, porque nunca viram um jogador ter um desempenho tão fantástico.

Como você vê o nível técnico do futebol brasileiro com sua época?

Não existe comparação. Nós tínhamos muito mais jogadores em quantidade e qualidade. Não digo que não temos qualidade, mas não excesso. Hoje é raríssimo dentro do futebol. Outra coisa que mudou foi a forma de jogar. Antigamente jogávamos de uma forma onde todos faziam dentro de campo aquilo que cada companheiro fazia. Eu defendia, mas sabia atacar. O atacante sabia atacar, mas sabia defender. Era um sintonia, harmonia muito grande que tinha dentro dos times de futebol. Um querendo ajudar o outro. A tática, o esquema, a metodologia mudaram muito ao que é hoje.

Praticamos um futebol europeu de 70 e 80. Joga por uma bola de jogada aérea ou depende de um individualismo de um Neymar, referente à seleção. Nos clubes, se tiver um bom elenco você consegue fazer grandes campeonatos e atingir objetivos. Hoje não da pra fugir de Palmeiras e Flamengo. Diferente no nosso tempo. Os times do interior faziam frente. No nosso tempo, tinha 10 gols de falta por rodada no Campeonato Brasileiro, hoje não se vê isso.

O que fazer para recuperar o bom futebol?

Falta um trabalho melhor nas categorias de base. Os responsáveis por isso são os técnicos. Eles são aqueles profissionais que tem maior responsabilidade para um futuro melhor do nosso futebol

Você sempre teve um engajamento político muito forte, teve participação efetiva na Democracia Corintiana, como você analisa nosso momento político atual?

Eu lamento muito que neste momento tenhamos, dentro do nosso quadro político, muitas diferenças, muitas discussões, em um momento como esse de pandemia. Era para todos estarem focados para resolver o problema da sociedade. Comandantes deveriam estar unidos para buscar soluções e ter menos sofrimento na nossa sociedade. Confusão que se encontra hoje. É um absurdo o que está acontecendo hoje. Sou completamente contra esse momento da nossa política.

É favorável ao retorno do futebol?

Eu acho que os atletas estão se colocando em risco. Os atletas estarão convivendo com seus familiares, com outras pessoas. Para ter um futebol seguro, precisaria ser feito testes nos profissionais que trabalharão no jogo antes da bola rolar. Seria o protocolo mais correto, antes de entrar em campo e não dias antes. Dentro desse período, alguém pode ser infectado. Se eu fosse atleta no momento, eu não gostaria de participar de um jogo de futebol.

O que aconteceu na sua segunda passagem pelo Guarani?

Não gosto de falar dessa passagem, não. Esse ano de 89 é igual a essa pandemia. Eu quero esquecer.

Manda um recado aos torcedores bugrinos..

Só tenho que parabenizar desde o final do ano passado até agora, o clube achou seu caminho. Os torcedores estão apoiando, o que é muito importante. Precisam apoiar ainda mais pós-pandemia para que o clube se fortaleça dentro das competições que irá disputar. Continuem com esse amor para o bem do clube.

Eu continuo na torcida, sempre. Não só para o Guarani, mas para que o futebol brasileiro, de uma forma geral. Que ele encontre o seu melhor e que proporcione muitas alegrias aos torcedores, aos amantes do esporte, para que possamos ter chance em Copas do Mundo, algo que não vejo hoje.

Confira abaixo a entrevista completa:

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