Ídolo de Guarani e Sport, Fumagalli revela mágoa, fala das conquistas pessoais e mais

Em entrevista ao repórter Kim Belluco, o meia relembrou pontos marcantes em sua carreira

por Kim Belluco

Campinas, SP, 17 (AFI) - Revelado pela Ferroviária, José Fernando Fumagalli se tornou um dos maiores ídolos do Guarani Futebol Clube. Foram 307 jogos, 90 gols e muito suor com a camisa bugrina. O meia se aposentou no final de 2018, deixando o clube na elite do futebol paulista e na Série B do Campeonato Brasileiro.

Espaço incorporado por HTML (embed)

Com passagens também por Santos, Corinthians, Vasco da Gama e Sport, Fumagalli conversou com o repórter Kim Belluco e contou sobre seu início da carreira, a experiência de jogar no futebol japonês, a disputa jurídica com o Santos, além de sua idolatria por Sport e Guarani.

O meia ainda lembrou de momentos marcantes de sua carreira, como quando pôde construir uma casa para seus pais, revelou uma certa mágoa por pessoas que dirigem o Guarani, falou sobre o futuro e deu sua opinião sobre o retorno do futebol em meio à pandemia.

Fumagalli é um dos maiores ídolos do Guarani. Foto: Reprodução/Guarani
Fumagalli é um dos maiores ídolos do Guarani. Foto: Reprodução/Guarani
Confira a entrevista completa com José Fernando Fumagalli!

Fumagalli, a entrevista com você ocorreu a pedido dos torcedores. Como você enxerga esse carinho?

É muito legal receber esse carinho. Sou muito grato ao Guarani por tudo que me proporcionou. Pude honrar a camisa do Guarani. E o torcedor é grato por eu ter ajudado dentro e fora de campo. Uma das maiores crises da história do clube, eu enfrentei junto ao torcedor. Ninguém abandonou o time. Além de todas as conquistas, acessos, os momentos difíceis que enfrentamos foram cruciais para eu me tornar um dos maiores ídolos do Guarani nesses últimos anos.

Fizemos um roteiro cronológico para abordar assuntos importantes da sua carreira. Como era a vida do Fumagalli antes do futebol?

Sou natural de Aparecida de Monte Alto, um distrito de Monte Alto, interior paulista. Jogava futebol amador, com amigos da cidades e disputava campeonatos da região. Em um deles, o vice-presidente da Ferroviária me viu jogando. Cidade próxima de Araraquara. Tinha entre 15 e 16 anos. Fiz um teste, e já me destaque no primeiro treino. Fiz gol. Passei no time de cima, marquei, de novo. Fui aprovado no primeiro dia. Em 1994, fomos vice campeões paulista, juvenil, perdemos para o Santos.

Final de 96, eu fui emprestado ao Santos para disputar Copa São Paulo e minha carreira deslanchou. Fui um dos artilheiros da Taça São Paulo de 97. O Santos ficou em terceiro e acabei me destacando. Com isso, o Luxemburgo, que estava no time principal, pediu meu nome. Acabei subindo e fiquei vinculado no Peixe até 2001.

Do Santos, fui emprestado ao futebol japonês, passei pelo América (SP), onde acabei sendo campeão paulista da Série A2, e artilheiro da competição. Fui para o Guarani em 2000, disputei paulista e o brasileiro. Fui artilheiro (do Bugre) no ano, marquei oito gols no brasileiro. Com isso, o Guarani acabou prorrogando meu contrato para 2001. Disputei o paulista e novamente fiz oito gols no brasileiro. Ai despertou interesse de varias equipes e acabei indo para o Corinthians.

Voltando ao Santos, chegou a criar certa expectativa por ser o primeiro clube grande, o mesmo de Pelé?

Sem dúvida. Você está indo para uma equipe onde jogou um dos maiores de todos os tempos, é um grande honra. Era garoto. Tinha sonho de jogar em uma equipe como o Santos, ainda mais por ter feito parte da base. Subi, joguei no profissional.

Atuei com grandes jogadores como Careca, Muller, Zetti, Ronaldão, Narciso, Marcos Assunção, entre muitos outros. Peguei uma safra muito boa. Foi um aprendizado muito grande. Não joguei muito como esperava, infelizmente não aconteceu de ter uma sequência e acabei seguindo minha carreira longe do Santos.

Como foi a experiência no futebol japonês?

Experiência muito boa, a primeira fora do país. Amadureci muito. Cheguei na reta final do Campeonato Japonês. O Tokyo Verdy estava brigando para não cair e ajudei a livrar do rebaixamento.

Acabei também fazendo um contrato melhor. Foi três vezes mais do que eu ganhava no Santos. Pude construir a casa dos meus pais, a que eles moram até hoje, no interior de São Paulo. Foi muito importante pela parte financeira e técnica. Eu tive a oportunidade de ficar, mas como fui emprestado ainda tinha desejo de me firmar no Santos. Optei por retornar, mas o Leão, técnico na época, não me utilizou e acabei indo para o América, para jogar Série A2.

Fumagalli com a camisa do Sport: Foto: Superesportes
Fumagalli com a camisa do Sport: Foto: Superesportes

Depois do Corinthians, passou por Marília, Santo André e Fortaleza, até chegar no Sport. O Sport é a segunda casa do Fumagalli, além do Guarani, claro?

O Sport me marcou muito. Nessa saída minha do Guarani para o Corinthians, tive uma ação judicial com o Santos e me atrapalhou. Vivia o auge, estava em uma crescente. No processo, fiquei sem jogar por sete meses. Isso me atrapalhou. Perdi condição física. Voltei em 2003, joguei bastante no Corinthians, mas não consegui me firmar na sequência do ano. Fui para outros clubes...

E o Sport, foi o clube que retomei minha carreira, consegui jogar como em 2000 e 2001. Está em meu coração. É uma torcida que lota a Ilha, apaixonante. Em 2006, fomos campeões pernambucanos em cima do Santa Cruz, que estava na Série A, e, depois, conquistamos o acesso, com o vice-campeonato. Fui o vice-artilheiro com 18 gols (Vanderlei, do Gama, marcou 21)

Fumagalli, lembro muito da Libertadores de 2009, quando o Sport acabou caindo nas oitavas de final após dominar o jogo contra o Palmeiras. Aquela partida escapou entre os dedos. O Sport poderia ter ido mais longe?

Escapou entre os dedos, sem dúvida. Vínhamos em um momento muito bom. Fomos bicampeões e acabei saindo para o futebol árabe. Voltei para o Sport. A equipe tinha sido campeã da Copa do Brasil e se fortaleceu ainda mais. Fomos campeões pernambucanos e fizemos uma primeira fase diferenciada. Classificamos em primeiro, em um grupo com Palmeiras, Colo Colo (CHI) e LDU (EQU), perdemos apenas para o Palmeiras, em São Paulo.

Acabamos pegando o Palmeiras nas oitavas. Perdemos de 1 a 0, em São Paulo. Na volta, controlamos o jogo. Poderíamos ter definido durante os 90 minutos. Infelizmente, não conseguimos e, nos pênaltis, o Marcos teve uma noite feliz defendendo três, o meu, o do Luciano Henrique e do Dutra. Ficou um gosto de quero mais. Pelo grupo que a gente tinha, atmosfera que tinha, poderíamos ter chegado muito mais longe.

Fumagalli foi campeão da Série B pelo Vasco
Fumagalli foi campeão da Série B pelo Vasco
Depois do Sport, passou por Vasco e Americana. Como foi a passagem por esses clubes? E o retorno para o Guarani, como surgiu o convite?

Acabei indo para o Vasco. Era um sonho jogar no Rio de Janeiro. Conseguimos o título da Série B de 2009, acabei renovando e no término do contrato fui para Americana, antigo Guaratinguetá, com o intuito de ser um dos líderes daquele equipe, que tinha acabado de mudar de nome e cidade. Quase subimos para a elite.

Depois, o Vadão veio para o Guarani e fez o convite para eu voltar para o clube. Tinha recebido sondagens, mas nunca para trabalhar com Vadão. Ele me convidou, e o Guarani acabou fazendo uma proposta. O time vinha de um momento difícil, com salários atrasados. Sabia do peso da daquela camisa e sempre tive vontade de retornar à Campinas.

Foi o clube que abriu as portas para o futebol brasileiro. Aceitei o desafio, a equipe encaixou. Vadão contratou peças pontuais. A uma semana da estreia, não tínhamos 18 jogadores para atuar. Foram atletas da base. Chegamos na final do Paulista - 2012 - e, novamente, fui um dos destaques. Foi um ano muito marcante para mim e para o Guarani.

Podemos dizer que faltou um título de expressão em sua passagem pelo Guarani, talvez, aquele paulista de 2012?

Seria completo. Marcaria ainda mais. Eu tive o titulo da Série A2, mas não se compara com um Paulistão, Brasileiro... Demos azar. Pegamos um dos melhores Santos dos últimos anos. Neymar e Ganso no auge, mas ainda assim acredito que se tivessem todos os jogadores à disposição no nosso time daríamos mais trabalho. Na final, ficou de fora eu, Neto, Oziel, Wellignton Monteiro, teve mais.... Se tivessem todos... um jogo na Vila e outro no brinco, teríamos dificultado mais.

Não era para ser. O bugrino entendeu e comemorou o vice. Uma equipe desacreditada e chegar na final, foi incrível. O resto a história está para contar. Acesso da Série B, titulo da Série A2 e muito mais.

São mais de 300 jogos, você é o sétimo maior artilheiro da história do clube, ídolo, tem também alguma decepção?

Foram 307 jogos, 90 gols, realmente foi muito marcante minha história no Guarani. Não nasci bugrino, mas vou morrer bugrino. É uma história muito bonita. Mas teve momentos muito difíceis, dificuldades. Teve, claro, muitas decepções. Em 2014, passamos por dificuldade financeira, greve, o fato de não conseguir classificar na Série C. Era muito frustrante para mim, uma tristeza, ainda mais por toda minha história dentro do clube. Eu tinha que deixar o Guarani na Série B e na elite do Paulistão, e consegui.

Após a aposentadoria, virou dirigente. Como foi essa experiência?

Eu não poderia falar não para o Guarani naquele momento. Havia uma briga política, como há, e eu estava como coordenador técnico do clube. Me convidaram para ser superintendente e eu me sentia na obrigação de ajudar fora de campo. Infelizmente, as coisas não aconteceram. Fizeram um Paulistão regular. Série B, não se encaixaram.

Tínhamos a convicção que era um grupo que poderia dar uma resposta positiva, poderia reverter, com aconteceu. Me decepcionei com algumas pessoas da forma que sai. Não foram 10 jogos, 10 dias, foram 10 anos, de história muito bonita. Acabei mandado embora, foi muito triste, muito difícil a minha saída do Guarani

Depois da demissão, não vimos mais Fumagalli no Brinco, esse sentimento explica o afastamento?

Eu preferi me afastar um pouco para assimilar o golpe, porque da forma que foi, foi muito difícil. Me machucou bastante. Me afastei, mas sempre torci, principalmente na Série B para não cair. Montamos aquele grupo. Todos jogadores que ali estavam foram contratados na nossa gestão. Acompanhei de longe, mas não me sentia a vontade de estar no Brinco para ver os jogos, em função do desgaste com algumas pessoas.

Existe alguma possibilidade do Fumagalli voltar como técnico ou o futuro será dentro de um escritório?

Hoje sou sócio de um escritório de atletas e pretendo seguir nessa carreira, nessa função dentro do futebol. Recebi convite do Neto, meu ex-empresário para ser sócio da empresa dele. Pensei muito bem, refleti tudo o que aconteceu e resolvi aceitar em outubro do ano passado. A pandemia atrapalhou bastante. A ideia, na hora que passar a pandemia, é a gente seguir o trabalho... ajudando o futebol, ajudando os atletas, mas em uma outra área.

Falando em pandemia, é a hora do futebol voltar?

Nesse momento, eu acho que ainda é cedo. Tenho acompanhado que alguns clubes têm treinado. Tem que ser gradativamente. Para que em junho possa estar em condição melhor para iniciar os treinos presenciais. Hoje, treinar no clube, não seria o melhor caminho.

O que esperar do futuro do Guarani?

O Guarani vinha muito bem. Vinha jogando de uma forma bonita, agressiva, sabia o que queria. Teria chance de classificar e chegar longe no Paulistão. A gente não sabe como será depois dessa parada. Torcemos para que volte. Sobre Série B, mantendo a base, entra forte para brigar pelo acesso. É isso que eu, de fora, vejo nesse momento.

Recado para os bugrinos...

Agradecer por tudo o que fizeram por mim. Sou muito grato ao torcedor bugrino. Recebo um carinho imenso. Estamos juntos. Hoje tem um torcedor que acompanha e torce pelo clube e que em breve eu vou estar mais próximo para acompanhar os jogos.