Por Luciano Luiz: Uma viagem de 23 horas para nunca mais esquecer na vida

De Kazan até São Petersburgo: vinte e três horas, quase um dia para acompanhar a semifinal da Copa

por Luciano Luiz

  • A cobertura da Copa do Mundo é um oferecimento

LUCIANO LUIZ
Enviado Especial do
FUTEBOL INTERIOR

Confesso que desde muito pequeno ouvia falar sobre as travessias de trem na Europa, das grandes distâncias e os desafios que isso gerava aos usuários destes serviços, mas jamais imaginava efetivamente como seria tal realidade.

Eis que chega meu dia, as vésperas da primeira semifinal da Copa do Mundo da Rússia, cá estava eu na estação de trem de Kazan rumo a São Petersburgo. A competição já tinha me deixado cascudo, afinal de contas já tinha encarado um de dezessete horas para Rostov, outro de doze para Samara mas este era de vinte e três horas. Quase um dia para ser preciso.

Se reclamávamos de voos entre Brasil e Europa que oscilam entre dez e doze horas, como encarar esse desafio.

Uma longa, cansativa, porém, divertida viagem de trem na Rússia
Uma longa, cansativa, porém, divertida viagem de trem na Rússia

SEGURANÇA E CONFORTO
Quero deixar claro aos meus leitores que estamos falando de um transporte absolutamente seguro onde somos colocados em cabines com sofás que se transformam e ótimas camas, com mesa e wifi e energia para carregar celulares e computadores.

Além de cada vagão possuir dois funcionários que possuem toda estrutura para comer e beber o que desejarmos e ainda um vagão restaurante onde o pessoal utiliza como grande point de conversas, risadas e para comer também.

Evidente que estamos falando de um trem de longa distância o que gera vários trechos de total apagão na internet, mas já estamos acostumados com quedas de sinal no Brasil e sem precisar estar em ambientes tão afastados do centro, isso não é um problema.

CRIATIVIDADE BRASUCA
Como bons brasileiros e sempre precavidos fizemos nossos kits de sobrevivência para a longa estada no vagão. Ao lado de dois amigos que me acompanham na cobertura da Copa do Mundo embarcamos com refrigerantes, chás, macarrão instantâneo, biscoitos, dentre outros produtos.

No início tem bastante assunto, risadas e tudo é belo, aos poucos a certeza da grande demora dá espaço para uma ansiedade em buscar opções para passar o tempo. Desde o trabalho a frente do computador, a procura por sinal pelo telefone ou a admiração de paisagens que por segundos nos passam pela janela.

Um cochilo aqui, um livro ali, uma navegada pelos arquivos já produzidos durante a cobertura, enfim tudo é válido para que o tempo passe. O conforto não transforma a viagem em sofrimento mas a distância realmente é algo nos deixa psicologicamente cansados.

FESTA E ALEGRIA
Depois das primeiras quatro horas que tal uma visita no restaurante, comer e beber algo para passar um pouco o tempo. Andamos do vagão um até o oito e nos deparamos com uma grande festa.

Cerca de cem pessoas em um espaço reduzido como se o mundo fosse terminar ali e aí mais uma decepção com o comportamento de alguns brasileiros que há instantes tinham sido quase conduzidos pela segurança do trem pelo excesso de "alegria" . Tudo por dano ao patrimônio público, já que as empresas de transporte na Rússia são estatais.

Não sei se os mais de trinta dias de cobertura ou mesmo por conta da eliminação da seleção brasileira do mundial me fazem não aguentar mais as chatas músicas dos torcedores, ainda mais em espaços que seriam apenas para que as pessoas conversassem e se alimentassem.

CANSAÇO AMARGURA
Realmente o cansaço vai nos deixando um pouco amargos e sem paciência. Nem preciso dizer que após uma rápida refeição de uma omelete bem nota quatro o destino foi a cabine para voltar ao silêncio. Como castigo, aguentar a saga de ainda não chegarmos na metade do caminho.

Bom que por conta da grande cobertura e do fuso daqui com o Brasil o nosso relógio biológico fica bem atrapalhado e que outra oportunidade para dar uma equilibrada no sono não será tão fácil.

Deitar e ler para relaxar, ver fotos da Copa e de familiares nos ajudam a descansar e mais uma vez cairmos no sono durante o trajeto.

MUITAS HORAS
Já passamos das dezoito horas de viagem, tempo de acordar e escrever um pouco, de comer um macarrão leve com salsicha e ovos cozidos, um verdadeiro banquete na cabine que cruza o maior país do planeta.

Recomendo essa experiência para as pessoas, tenho certeza que não se arrependerão pois além de ser efetivamente um grande deslocamento ainda se faz uma experiência maravilhosa e histórica na vida de cada um.

Quem entende que seu dia precisa ser super dinâmico e sem espaços para reflexões, taí uma oportunidade onde mesmo com tempo para produzir conteúdo, conversar com amigos e fazer novos de culturas e línguas tão diferentes.

REFLEXÃO E ALÍVIO
Ainda nos sobram momentos para uma conversa com seu próprio eu, onde o diálogo com o pensamento nos dá muitas respostas e encaminhamentos. Tão simples, mas tão necessário para seguir nosso caminho.

E lá vai o trem, agora a atendente já bate na porta da cabine para avisar que temos apenas trinta minutos. Já, nem vi passando.

Agora com árvores que vejo ao meu lado direito pela janela agradeço tal experiência e vou encerrando esse texto com a certeza que vivi um dia de minha vida dentro de um trem e me diverti bastante.

Viva a Copa !!!

 
 
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