Com resquícios de amadorismo, técnicos não se livram da 'gangorra' no Brasileirão

Em um abraço entre Ney Franco e Abel Braga, no jogo entre Goiás e Cruzeiro, Abel disse que a "vida de técnico está f...".

por Agência Estado

Campinas, SP, 03 - Os treinadores no Brasil estão acuados. Na última segunda-feira, em um abraço entre Ney Franco e Abel Braga, no jogo entre Goiás e Cruzeiro, Abel disse que a "vida de técnico está f...". Ele se referia à rodada anterior do Campeonato Brasileiro, em que quatro colegas foram demitidos em menos de 24 horas.

Na contramão da modernização do futebol brasileiro, com a intenção de transformar times em clubes-empresa e o uso do VAR, ainda há resquícios de amadorismo. Os técnicos estão sujeitos à degola o tempo todo. Cuca deixou o São Paulo após cinco meses de trabalho. Rogério Ceni caiu no Cruzeiro. Zé Ricardo foi trocado no Fortaleza. Oswaldo de Oliveira foi dispensado do Fluminense.

Com resquícios de amadorismo, técnicos não se livram da 'gangorra' no Brasileirão
Com resquícios de amadorismo, técnicos não se livram da 'gangorra' no Brasileirão
Não houve explicações convincentes em nenhum dos casos. A reportagem ouviu treinadores e especialistas para analisar o que ocorre nesta relação. Alguns sintomas parecem evidentes. A saúde tem tirado profissional da beira do gramado. Muricy Ramalho parou. Cuca não quer correr riscos. Ele "saiu" do hospital para assumir o São Paulo e não suportou a pressão. Os dirigentes também continuam tomando decisões em cima dos resultados do dia. Ganhou, fica. Perdeu, vai embora. Os trabalhos dos técnicos também não são dos melhores.

OPINIÃO
Fernando Pires, presidente da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol (ABTF), acredita faltar ética entre os próprios técnicos e vê omissão na CBF. "Existe um mercado fechado de técnicos. Vão de um clube para outro. Entre eles está faltando ética. Não dá só para culpar clubes. Se houvesse mais respeito, talvez não acontecessem casos como esses recentes."

Na opinião de Pires, clubes e treinadores deveriam ao menos cumprir a lei 8.650/1993, do Treinador Profissional de Futebol, que determina como tempo mínimo de contrato o prazo de três meses. Ceni e Zé Ricardo não ficaram nem isso em seus últimos trabalhos, no Cruzeiro e Fortaleza, respectivamente. "Se o técnico é chamado para substituir um companheiro que foi demitido antes desse período, ele deveria pensar duas vezes. O mesmo pode acontecer com ele", afirma.

Há em estudo projeto de lei, chamada Caio Jr. (técnico morto no acidente aéreo da Chapecoense), que tem como objetivo modernizar as leis trabalhistas. Jair Ventura, desempregado desde que dezembro, quando foi demitido pelo Corinthians, diz que os técnicos precisam ser amparados pela legislação. "Os treinadores têm de reconhecidos como profissionais. A legislação tem de limitar o número de trocas por times. Dois treinadores no máximo por temporada", afirma. "Outro ponto é fazer os clubes cumprirem os contratos dos treinadores, como ocorre com os jogadores."

Este ano, a CBF obrigou todo treinador da Série A a fazer o curso Pro da entidade. "Isso é um absurdo. O exemplo de que está tudo uma bagunça é o que aconteceu com o Cuca. Para assumir o São Paulo, mesmo com sua experiência, precisou se matricular no curso." Para ele, a entidade deveria ter o papel de monitorar o que ocorre na profissão. "A CBF é uma entidade privada, ela regulamenta a competição, não faz lei. A lei em vigor diz o que deve ser cumprido."

Confira as mudanças de técnicos no Brasileirão até a 22ª rodada:
2019: 14

2018: 19

2017: 16

2016: 17

2015: 18

2014: 19

2013: 17

2011: 15

2012: 11

2010: 21

2009: 19

2008: 23

2007: 21

2006: 24