Atacante 'Coração Valente' se despede dos campos no Jogo da Paz

Renda da partida será revertida para uma entidade social

por Felipe Esteves

Caxias do Sul, RS (AFI) - O ex-atacante Washington Stecanela Cerqueira, o Coração Valente, vai reunir um grupo de craques para realizar oficialmente a sua última partida como jogador profissional. O Jogo da Paz será dia 13 de dezembro, às 19h30min, no Estádio Centenário, e terá renda revertida para a ONG Centro Educativo Casa Anjos Voluntários, que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social em Caxias do Sul. Washington brilhou em vários clubes do Brasil como Ponte Preta, São Paulo e Fluminense, além de chegar à seleção brasileira.

Os ingressos custarão R$ 10 (arquibancada) e R$ 30 (cadeiras). A partida ocorre exatamente 11 meses após Washington ter anunciado oficialmente sua aposentadoria. A iniciativa do Jogo da Paz, evento de caráter inédito no futebol nacional, é do empresário e vice-presidente da ONG, Rony Lemos.

Temporada 2009/2010

Carreira
Washington começou sua vitoriosa carreira na S.E.R. Caxias. Deixou cidade e clube, anos mais tarde, para se transformar em um dos maiores artilheiros do Campeonato Brasileiro atuando em clubes como Ponte Preta, Atlético Paranaense e Fluminense – ao todo, foram mais de 600 gols oficiais em 20 anos de carreira. Também teve passagem pela Seleção Brasileira, consolidando uma trajetória profissional marcada pela disciplina e pelo respeito.

Washington dividiu o gramado com Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Fernandão, Danrlei e Fred, jogadores convidados a participar do Jogo da Paz. “Será uma ótima oportunidade de a comunidade caxiense prestigiar grandes craques e de colaborar com uma causa nobre”, destaca o ex-atacante.

Duas equipes vão se enfrentar ao longo de 90 minutos de partida. De um lado estará a Amigos do Washington, com ele e outras estrelas do futebol nacional (estão confirmadas as participações de Gilmar Rinaldi, Conca, Ricardo Berna, Flávio Conceição e Marquinhos, além do técnico Picolli, do Juventude, e do ídolo alviverde Lauro).

Ex-ídolos
No time Craques Grenás atuarão ex-ídolos e jogadores atuais do Caxias, entre eles Paulo Turra, Gilmar,Gil Baiano, Delmer, Adão e Jajá. Para comandar as equipes foram convidados os técnicos caxienses Tite e Luiz Felipe Scolari, que ainda não confirmaram presença. A escalação oficial e o trio de arbitragem, porém, serão confirmados na semana do jogo.

Pelo Flu em 2010

“Será um jogo festivo, um reencontro de amigos. A torcida não será para um dos times, mas para o futebol. O Centenário estará aberto para todos os clubes. Queremos ver camisas do Caxias ao lado das do Juventude, camisas do Inter, Grêmio, Fluminense, São Paulo, Flamengo..., todas juntas. Todos que gostam de futebol são convidados. Espero que a minha despedida seja marcada pela alegria, por isso o Jogo da Paz, para festejar o futebol”, diz Washington, sem esconder o entusiasmo.

Centro Educativo Casa Anjos Voluntários
O Centro Educativo Anjos Voluntários é uma organização não-governamental (ONG) que atende a cerca de 140 crianças e adolescentes cm idades entre 6 e 16 anos em situação de vulnerabilidade social. Os alunos, que precisam estar matriculados na rede pública de ensino, recebem atendimento diferenciado e personalizado, prestado por profissionais de psicologia e educação. Saiba mais: WWW.anjos voluntários.org.

“O coração vai bater mais forte, mas está preparado para isso”

Nascido em Brasília em 1º de abril de 1975, Washington Stecanela Cerqueira ganhou o apelido de Coração Valente por ter superado um problema cardiovascular diagnosticado em 2003, quando chegou ao Atlético Paranaense. O jogador teve de se submeter a uma cirurgia de cateterismo e a um longo tratamento de recuperação.

Por pouco não teve que abandonar prematuramente o futebol. No entanto, mostrou-se determinado a enfrentar o problema e, um ano depois, no Campeonato Brasileiro, defendeu o Atlético Paranaense brilhando nos campos e fazendo 34 gols em 38 jogos, se tornando o artilheiro daquele Brasileirão. Encerrou a carreira no Fluminense, no ano passado, ocasião na qual sagrou-se Campeão Brasileiro.

Artilheiro com 34 gols em 2004

Hoje, o ex-jogador é empresário em Caxias do Sul, cidade que escolheu para morar. Casado com Andréa e pai de Catarina, 4 anos, e Ana Carolina, 9, será também pai de um menino – Andréa está no quinto mês de gravidez. De seu escritório, no bairro Nossa Senhora de Lourdes, o ariano que leva no antebraço direito uma tatuagem onde se lê Coração Valente falou mais sobre seu último jogo oficial e sobre o outro lado do seu coração valente, o coração generoso.

Confira a entrevista
Pergunta: Exatamente 11 meses após anunciar sua aposentadoria, você faz seu jogo oficial de despedida. Por que a decisão de realizá-lo em Caxias do Sul?

Washington: Eu vinha recebendo propostas e convites de outras cidades para fazer essa despedida, inclusive da minha cidade natal, Brasília. Mas escolhi Caxias porque foi onde eu realmente comecei no futebol, é a cidade que eu escolhi para morar. A minha mãe é daqui, meus familiares maternos são daqui, minha esposa é daqui, minhas filhas nasceram aqui. Minha ligação com Caxias é muito forte. Além disso, a S.E.R. Caxias faz parte da minha vida, é o clube onde, além de iniciar, aprendi muita coisa. Então, a cidade e o clube têm o direito de sediar esse jogo, de prestigiar esse evento. Está sendo uma alegria imensa poder fazer essa minha despedida aqui e no estádio do Caxias.

Pergunta: Muito da decisão de realizar a partida em Caxias foi devido a uma visita sua ao Centro Educativo Casa Anjos Voluntários, o que motivou a tornar benemerente o Jogo da Paz. Como você desenvolve seu lado solidário?

Washington: Esse é um ponto que faço questão de destacar. Eu sempre, na minha vida, recebi ajuda. Mas é claro que, também por merecimento, conquistei muitas coisas. Por isso hoje sempre costumo ajudar naquilo que eu posso, um irmão, um familiar, um amigo, ou até um desconhecido. Quando sentimos que uma pessoa precisa, temos que estar à disposição. Isso é o que se deixa na vida. E na visita que fiz ao Centro Educativo Casa Anjos Voluntários, me sensibilizei com as crianças que estão lá, que passam por necessidades. E também me sensibilizei com as pessoas que dedicam seu tempo a elas, ajudando a quem, no pensamento de muitas outras pessoas, não passaria de um drogado ou um ladrão. Daqui a pouco essa criança pode se transformar em um campeão no esporte, ou um grande médico, um grande professor, um grande técnico de qualquer área. Nós temos que, pelo menos, oferecer oportunidades às pessoas. Por isso, a iniciativa de reverter a renda do Jogo da Paz a essas crianças é muito legal. Eu ficarei muito feliz se, no futuro, algumas dessas crianças se tornar um grande médico, um grande professor, por causa do jogo da despedida do Washington.

Pergunta: Por que denominar sua despedida como Jogo da Paz?

Washington: Além de marcar a minha despedida, a gente quer convocar torcedores dos mais variados times para assistir ao jogo juntos, misturados, cada um com sua família. Que curtam juntos, e não para mostrar que um time é melhor do que o outro. Com certeza será um jogo de alegria e em clima de festa.

Pergunta: Qual a sua expectativa de pisar em campo novamente? A gente está falando de emoção...

Washington: Minha expectativa maior é com o público. Eu sei que o público vai participar, porque terão grandes nomes em campo, mas quero que o público se sinta bem, que aproveite o evento junto comigo. Fora isso, vai ser aquele nervosismo de entrar novamente em campo depois de praticamente um ano, e tentar fazer algumas coisas para o público, um belo gol, por exemplo. Vai ser uma emoção muito grande. Não é fácil uma despedida. Com certeza vai aflorar a emoção, e espero poder passar essa emoção para as pessoas. O “coração valente” vai bater mais forte, mais uma vez. Mas ele está preparado para isso...

Pergunta: Você preparou-se fisicamente para esse jogo?

Washington: Sinceramente, não tenho me empenhado muito no preparo em academia, por exemplo. Tenho jogado minhas “peladinhas”, que me ajudam bastante. Jogo com amigos às segundas-feiras e aos sábados. Jogo um pouco de tênis, e na academia tenho feito fortalecimento muscular, que é bom para ex-atletas. Mas não é “aquele” preparo que estava acostumado a ter.

Pergunta: O Jogo da Paz vai coroar o final de uma carreira de alto nível, que sempre se destacou por esse seu lado humano, de caráter, de disciplina. Fale um pouco sobre isso.

Washington: Realmente, a intenção é que o evento mostre tudo aquilo que eu fui na minha carreira. Procurei sempre, além de tentar fazer o melhor dentro de campo, preservar a minha imagem, ser correto em todos os lugares onde fui. A minha base disciplinar eu tive com a minha família, e a continuidade se deu quando eu vim morar em Caxias, então com 15 anos, quando aprendi isso no Caxias (clube). E consegui demonstrar isso na Turquia, no Japão, no mundo. Graças a Deus, posso dizer que por todos os clubes por onde passei sou recebido de portas abertas, todos, sem exceção. Isso é o que se leva, esse é o legado da vida. Sempre me preocupei muito com isso.

Pergunta: Você se realizou como jogador?

Washington: Eu não costumo reclamar da minha carreira. Agradeço a Deus sempre, todos os dias, pelo o que Ele me deu, que foi maravilhoso. Consegui fazer aquilo que eu sonhava, gostava e gosto até hoje, que é jogar futebol, e ser um profissional dessa área já me deixa muito agradecido. E além disso, jogar em grandes clubes, ser campeão, ser artilheiro de vários campeonatos, esse algo a mais eu também agradeço, me sinto muito realizado. É claro que sempre se deseja algo a mais, disputar uma Copa do Mundo... Mas quase cheguei lá, disputando os últimos amistosos para a Copa de 2002 pela Seleção Brasileira. Infelizmente, ou felizmente, não fui escolhido. E é claro que tiveram títulos que eu gostaria de ter ganho, mas isso é do esporte, é natural. Mas tudo foi muito bom, tudo o que eu tive eu só agradeço a Deus, não reclamo de nada.