Quarentena e Jogos Olímpicos: goleira da Seleção Brasileira abre o jogo

Em isolamento social há quase 20 dias na Europa, Aline Reis defende o Granadilla UDG Tenerife, na Espanha

por Agência Futebol Interior

Campinas, SP, 06 - O ano de 2020 foi reservado para disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio e, naturalmente, aumentou a expectativa de todos os atletas.

O que ninguém esperava, entretanto, era que pandemia fosse isolar o mundo todo. Neste retraimento social, Aline Reis está driblando a falta de espaço e, com criatividade, conseguiu montar os treinamentos para não perder o ritmo e voltar ao campeonato em excelente condição física – atualmente, a goleira da Seleção Brasileira defende o Granadilla UDG Tenerife, na Espanha.

A arqueira também tem aproveitado o tempo livre para interagir mais com seu público no Instagram, participando de algumas transmissões ao vivo, popularmente conhecidas como lives, relacionadas ao futebol. Diariamente, Reis tem postado vídeos curtos de suas atividades, até como forma de incentivo à pratica esportiva, mesmo dentro de casa.

Aline Reis em atividade no futebol espanhol
Aline Reis em atividade no futebol espanhol

Em entrevista ao Portal Futebol Interior, Aline revelou estar em isolamento social há 17 dias, enquanto a pandemia se alastra na Espanha, um dos países mais afetados da Europa.

“Estamos em completo isolamento e só saímos para ir à farmácia e ao supermercado. Sempre vou sozinha, pois viaturas da Polícia circulam o tempo todo pela ilha, questionando as pessoas sobre a real necessidade de sair”.

LEIA A ENTREVISTA:

Quais são as orientações recebidas do treinador do seu time?

Desde o começo da quarentena, recebemos sugestões de treinamentos diários para serem feitos em casa. Além disso, também realizamos reuniões online com a comissão e as atletas do clube. A princípio, os treinamentos eram apenas físicos. Com a extensão do período de isolamento, começamos a ter reuniões grupais e individuais para falar sobre questões táticas. Todos os treinamentos e os encontros são opcionais, ou seja, apenas sugestões do corpo técnico. Afinal, perante a lei não podemos fazer nada obrigatório neste período.

Já há definição sobre o retorno do Liga Iberdrola, onde você atua?

No momento, a Liga encontra-se suspensa, na mesma situação que a grande parte dos campeonatos de futebol ao redor do mundo. Estamos todos com esperança de que o vírus será controlado e, em breve, podemos voltar a treinar e competir. Um exemplo positivo é o Campeonato Chinês, tanto feminino quanto masculino. Nesta semana, eles retomaram os treinos e, em breve, já voltam a jogar.

Como você reagiu com a notícia do cancelamento das Olimpíadas?

O cancelamento das Olimpíadas não foi uma notícia agradável, embora seja uma medida necessária. A maioria dos atletas olímpicos tem um planejamento de quatro anos para chegarem na melhor fase. A remarcação dos Jogos Olímpicos para julho de 2021 afeta todos os profissionais, que terão de se adaptar às novas datas.

Embora as Olimpíadas seja uma competição tão prestigiada, muitas vezes o auge da carreira dos atletas de alto nível, mais importante do que o que a competição representa, é o bem estar da humanidade. O adiamento foi a melhor decisão tomada pelo COI. No momento, o combate ao coronavírus tem que ser a prioridade de todo indivíduo. Temos que nos unir para combatermos, juntos, todas as dificuldades criadas pela pandemia. De uma forma ou de outra, todos nós somos capazes de ajudar alguém, seja com um apoio financeiro ou emocional.

A comissão técnica da Seleção mantém contato com você e demais meninas?

Sim. Todas as jogadoras da Seleção Brasileira estão sendo monitoradas. Diariamente, temos que responder a um questionário da comissão técnica, informando sobre os nossos treinos e nosso estado psicológico. Nós também realizamos reuniões online com a comissão e outras atletas.

Como ainda não há previsão da nossa próxima convocação, as reuniões online têm permitido que a gente siga evoluindo como uma equipe. Além do monitoramento físico, eles também trabalham a parte tática e psicológica.

Como estão os treinos durante esse período de quarentena?

Por conta da situação critica que estamos vivendo com altos números de contagio e mortes causados pelo vírus, a quarentena aqui na Espanha tem sido muito rígida. Estamos em completo isolamento e só saímos para ir a farmácia e supermercado, mas sempre sozinha. As viaturas da Polícia circulam o tempo todo pela ilha, questionando as pessoas sobre a real necessidade de sair. Ou seja, nem sair de casa para correr é permitido.

Você mesma monta os treinos ou recebe orientação?

Com essas restrições, é necessário ser muito criativo para montar treinos dentro de casa. É claro que eu tenho algumas vantagens. Uma das minhas especializações na faculdade foi fisiologia do exercício e minha companheira de apartamento é formada em Educação Física. Nós montamos os treinos juntas, combinando nossos conhecimentos, experiências e criatividade, sempre levando em conta as minhas necessidades como atleta.

Mesmo antes da pandemia e da quarentena, eu sempre tive o costume de fazer treinos extras. Eu considero uma atleta pró-ativa, que sempre procurou o aperfeiçoamento, muitas vezes treinando coisas por conta própria. Essa mentalidade tem me ajudado muito durante a pandemia.

Antes eu não tinha o costume de postar meus treinos por conta própria, mas na quarentena decidi compartilhá-los nas mídias sociais com intenção de incentivar outras pessoas a se manterem ativas durante esse período de confinamento.

Espero que, ao assistir aos meus treinos, as pessoas se sintam motivadas a treinar e também possam pegar algumas ideias para fazer em casa. Os treinos não são apenas para goleias. Além dos específicos para posição, fazemos exercícios técnicos de futebol e, principalmente, treinamentos físicos que servem para todo mundo.

Aline é cotada para defender o Brasil nos Jogos de Tóquio
Aline é cotada para defender o Brasil nos Jogos de Tóquio

Neste momento de isolamento, as pessoas têm usado ainda mais as redes sociais e você participou de lives e seu público tem gostado. Pretende continuar com elas após o fim do isolamento?

Estou adorando fazer as lives. Dessa maneira, as pessoas podem conhecer mais sobre a Aline como pessoa, não apenas como atleta. É uma maneira de eu me aproximar mais dos fãs e poder retribuir o carinho que recebo deles.

Após o fim do isolamento, eu gostaria de continuar utilizando as lives para me aproximar mais do público, mas isso vai depender da disponibilidade. O meu calendário de atleta é uma loucura e o meu tempo livre é reduzido. Mesmo assim, espero continuar com as lives, mas em menor proporção.

O que você tem aprendido com esse isolamento?

A quarentena também tem sido um período de reflexão para mim. O isolamento pode ser muito precioso para cada um de nós. Fora desse ritmo frenético do nosso dia a dia, existe a possibilidade de olharmos para dentro e pensarmos se estamos vivendo o tipo de vida que queremos, se nossas escolhas e atitudes estão alinhadas com nossos propósitos e com o que nos traz realização e felicidade.

Quando olho para sociedade e cultura atuais, penso que não poderemos seguir vivendo assim por muito tempo, pois essa maneira de viver não é sustentável. Espero que esse período único possa trazer novas ideias para as pessoas e que possamos dar passos em direção a um mundo mais sustentável, justo e com mais empatia.

*A reportagem contou com a colaboração de Luiza Mathias