Em 1932, futebol paulista parou para mudar a história do Brasil

Revolução Constitucionalista de 1932 paralisou o Campeonato Paulista e teve Friedenreich no campo de batalha

por Federação Paulista (FPF)

São Paulo, SP, 24 (AFI) - Sinônimo de progresso e democracia, o Estado de São Paulo foi peça fundamental na história do Brasil na década de 1930. Após assumir o poder à força, Getúlio Vargas pôs fim à República Velha e instaurou o Governo Provisório. A falta de uma constituição –a de 1891 havia sido revogada–, porém, fez com que São Paulo levantasse um movimento legalista em 1932, levando a um conflito que paralisou o Campeonato Paulista, colocou o craque Friedenreich no campo de batalha e fez até aparecer um troféu sumido em 1911. O ano histórico terminou com o Palestra Itália igualmente fazendo história.

Contando com 12 participantes, o Campeonato Paulista de 1932 começou no dia 1º de maio com todos em campo. Campeão do ano anterior, o São Paulo venceu a Portuguesa por 4x2, enquanto o Palestra Itália, vice de 1931, fez 4x0 no Sírio e o Corinthians foi derrotado pelo Juventus por 5x4.

Na rodada seguinte, São Paulo e Palestra Itália se encontraram e o alviverde levou a melhor por 3x2. O Germânia, que havia vencido o Santos na estreia, ganhou do Sírio e seguiu empatado na liderança. Além do Germânia, outro perseguidor no início do campeonato foi o Juventus. O time de Parque Antárctica e o da Mooca duelaram na quinta rodada, quando ambos estavam com 100% de aproveitamento. Com vitória de 3x1, o Palestra Itália se isolou na liderança.

Time do Palestra Itália campeão paulista no ano em que os jogadores foram para as trincheiras
Time do Palestra Itália campeão paulista no ano em que os jogadores foram para as trincheiras
Quando a Revolução estourou em 9 de julho de 1932, a classificação do campeonato era a seguinte:
1. Palmeiras – 14pts / 7J
2. São Paulo – 11pts / 8J
3. Juventus e Germânia – 10pts / 7J

MMDC, O TROFÉU PERDIDO E OS ATLETAS NA REVOLUÇÃO
Embora tenha, de fato, explodido em 9 de julho, a Revolução Constitucionalista teve um capítulo importante no dia 23 de maio. Durante um protesto em frente ao Partido Popular Paulista (PPP), quatro civis (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) foram mortos pelas tropas federais. A partir dali, a insatisfação paulista contra o governo de Getúlio Vargas ganhou corpo e uma campanha para arrecadar fundos para o Exército Constitucionalista foi criada.

Entre os itens doados, havia muitas medalhas e troféus conquistadas por atletas e clubes. Uma doação em especial, porém, chamou a atenção: a taça Conde Penteado, desaparecida desde 1911. Naquele ano, a AA das Palmeiras tinha sua posse por ser campeã paulista de 1910 e deveria entregá-la ao SPAC. Porém, o detentor abandonou o campeonato faltando seis rodadas e na cerimônia de premiação não levou o troféu e posteriormente disse que o item havia sumido.

Além das doações, muitos foram os atletas que se prontificaram a participar da Revolução, que teve os conflitos armados iniciados em julho. Liderados por ninguém menos que Arthur Friedenreich, o Batalhão Esportivo contou com cerca de 3.000 integrantes. Eles foram deslocados até a região de Itapira, onde permaneceram por 25 dias até sofrerem um ataque aéreo.

Em virtude da movimentação em torno do conflito, o Campeonato Paulista foi paralisado, como relata comunicado da APEA divulgado pelo jornal O Estado de São Paulo em 11 de julho: “Devido a situação deixaram de ser disputadas todas as competições esportivas que estavam anunciadas para ontem. Estas competições, serão, naturalmente, levadas a efeito no próximo domingo, 17, sendo bem possível, entretanto, que algumas delas se realizem no decorrer da semana entrante”.

O exército paulista, porém, não recebeu o apoio que esperava de outros estados. Sofrendo retaliações econômicas e ataques das tropas federais, a Revolução Constitucionalista aguentou o quanto pôde, até que, após 85 dias de batalhas que se alastraram por todo o território paulista, São Paulo se rendeu em 2 de outubro, embora os conflitos tenham se estendido até o dia 4, deixando oficialmente cerca de 1.600 baixas.

Embora, militarmente, São Paulo tenha sido derrotado, os paulistas lograram êxito na reinvidicação e Getúlio Vargas se viu obrigado a realizar uma eleição para a Assembleia Constituinte, em maio de 1933. Após ser aberta em novembro daquele ano, ela entrou em vigor em 1934, trazendo disposições importantes como a implantação do voto secreto, do voto feminino e a criação da Justiça do Trabalho, além de medidas como a jornada trabalhista de oito horas, férias, indenização para demissões sem justa causa e a igualdade de salários sem distinção de sexo, idade, nacionalidade ou estado civil.

RETOMADA E O HISTÓRICO DE TÍTULO PALESTRINO
Em 8 de outubro, a APEA decidiu pelo retorno do Campeonato Paulista. Para isso, porém, foi definido que o torneio teria fim ao término do primeiro turno. Ou seja, ao invés das 22 rodadas programadas no início, seriam 11 jogos para ser conhecido o campeão.

Com 100% de aproveitamento, o Palestra Itália mostrou que nem mesmo a Revolução Constitucionalista era capaz de tirar o título do Parque Antárctica. O primeiro jogo pós-parada foi o dérbi contra o Corinthians, vencido por 3x0. Pelo mesmo placar, derrotou a Portuguesa e conseguiu o título antecipado antes de finalizar a campanha com incríveis 9x1 e 8x0 sobre o Germânia e o Santos, respectivamente, terminando o torneio com aproveitamento máximo.

CLASSIFICAÇÃO GERAL
1. Palestra Itália - 22pts
2. São Paulo - 17pts
3. Juventus - 16pts
4. Germânia - 11pts
5. Ypiranga, Corinthians, Portuguesa e Santos - 10pts
9. AA São Bento - 9pts
10. Sírio e Atlético Santista - 8pts
12. SC Internacional – 1pts

CAMPANHA DO TÍTULO
01/05/32 Palestra Itália 4x0 Sírio
08/05/32 São Paulo 2x3 Palestra Itália
22/05/32 Palestra Itália 2x1 AA São Bento
29/05/32 Palestra Itália 3x1 SC Internacional
12/06/32 Palestra Itália 3x1 Juventus
19/06/32 Palestra Itália 7x0 C.A. Santista
03/07/32 Palestra Itália 4x2 Ypiranga
06/11/32 Palestra Itália 3x0 Corinthians

Por Ruben Fontes Neto, especial para FPF