Jogo mais longo da história deu título para o Andradina FC em 1966

Partida disputada contra o Transauto de São Caetano teve cinco prorrogações e duração de 208 minutos

por Federação Paulista (FPF)

Andradina, SP, 14 - Há jogos que ficam marcados para sempre na história. A final da Terceira Divisão de Profissionais de 1965 é um desses. Em campo, Andradina e Transauto de São Caetano fizeram a partida oficial mais longa que se tem registro na história do futebol mundial. Foram precisos 208 minutos para definir o campeão do torneio. Melhor para o Andradina, que venceu a ‘batalha de Araraquara’ e ficou com a taça há exatos 54 anos.

Andradina e Transauto já haviam se enfrentado no dia 8 de maio, também na Fonte Luminosa, em Araraquara, e a partida terminou empatada em 3 a 3. Um novo jogo foi marcado para o dia 15, no mesmo local, mas para que houvesse de vez uma definição, a FPF determinou que, em caso de novo empate, seria disputada prorrogações até que saísse um gol.

O árbitro da partida foi Albino Zanferrari, que recebeu uma comunicação interna sobre como deveria proceder. Nos 90 minutos do tempo regulamentar, cada equipe balançou a rede uma vez. Sendo assim, o árbitro Zanferrari seguiu o que foi lhe recomendado.

O que ninguém esperava, porém, é que seriam necessárias cinco prorrogações. Narrador da Rádio Andradina na partida histórica, Vanderlei Silva Leão foi o responsável pela transmissão. Aos 83 anos, ele ainda lembra as sensações vividas naquele dia.

Equipe do Andradina, campeã da Terceira Divisão de Profissionais de 1965. Hélio Duran é o terceiro agachado (Foto: Reprodução / Terceiro Tempo)
Equipe do Andradina, campeã da Terceira Divisão de Profissionais de 1965. Hélio Duran é o terceiro agachado (Foto: Reprodução / Terceiro Tempo)
“Foi uma aventura. O jogo não terminava. Era um martírio. Para meu azar, meu comentarista não foi, então tive que fazer os dois papéis. Foi uma loucura, fiquei com dor no pescoço durante três dias de tanto ter que olhar da direita pra esquerda, da esquerda pra direita… Valeu como experiência de vida”, relembra.

Se Leão sofreu na cabine de transmissão, em campo, não foi diferente com os atletas das duas equipes.

 Foto 2: duração da partida ganhou destaque nos jornais (Foto: Folha de S. Paulo / Reprodução)
Foto 2: duração da partida ganhou destaque nos jornais (Foto: Folha de S. Paulo / Reprodução)
“De 15 em 15 minutos, virava o jogo. O juiz parava e nos intervalos os jogadores chegavam a deitar no campo de tanta canseira. Não havia água que desse conta. Era água dos dois lados. Foi um dia de muito calor. O jogo começou a tarde e só terminou a noite. Apesar disso, não houve nenhum acontecimento extra. Os dois times se comportaram com o devido respeito e consideração. Um até tomava água do outro. Quando acabou, os jogadores já não tinham tanto entusiasmo para comemorar. Deram graças a Deus”, conta.

O gol do título, marcado por Mazola aos 208 minutos de jogo, até hoje está gravado na memória de Leão.

“Ele entrou na área driblando e chutou. Não foi um chute apoteótico não, foi um chute comum, mas que deu sorte e a bola entrou. Foi um chute a meia altura. 2 a 1, Andradina campeão estadual da Terceira Divisão. No mundo, acredito eu, não há uma partida decisiva que durasse 208 minutos”, narra.

Mazola, na verdade, era Hélio Duran, que atuou com um pseudônimo já que era procurado pela Justiça do Mato Grosso.

“Havia um mandado de prisão para o Hélio Duran por falta de pagamento de pensão alimentícia. Meu comentarista Alecio Jaruche, que era advogado, não foi ao jogo porque estava em Cuiabá para tentar o habeas corpus. Como não sabia se daria certo, ele jogou com o nome de Mazola para não ser detido. Depois do jogo, o habeas corpus chegou e ele não foi preso”, revela Leão.

 Foto 1: comunicado interno para o árbitro Albino Zanferrari (Foto: Reprodução / Terceiro Tempo)
Foto 1: comunicado interno para o árbitro Albino Zanferrari (Foto: Reprodução / Terceiro Tempo)
COMO FOI?
Em uma primeira fase regionalizada, diante de outros cinco adversários, o Andradina não teve dificuldade e liderou a chave após oito vitórias, um empate e apenas uma derrota.

O regulamento previa que apenas o primeiro de cada uma das 10 séries avançava para a segunda etapa.

Novamente regionalizada, a segunda fase colocou o Andradina no mesmo grupo de Ferroviário de Araçatuba, Operário de Palmital, Rinópolis e Murutinga.

Os cinco times fizeram uma disputa extremamente acirrada, com a diferença de apenas dois pontos entre o líder e o lanterna.

Um empate na última rodada, em Muritinga do Sul, evitou que todos os times terminassem com oito pontos. Sendo assim, a classificação ficou da seguinte forma:

1. Andradina - 9pts*
2. Ferroviário, Operário, Rinópolis – 8pts
5. Muritinga – 7pts

*classificado para a Final

A CAMPANHA EM DETALHES

1ª Fase
27/06/1965: Andradina FC 3x1 Aparecida d’Oeste
04/07/1965: Mouran 0x0 Andradina FC
11/07/1965: Andradina FC 1x0 CA Jalesense
18/07/1965: SOREA 1x4 Andradina FC
25/07/1965: XI de Agosto 0x1 Andradina FC
15/08/1965: Aparecida d’ Oeste 1x3 Andradina FC
22/08/1965: Andradina FC 5x0 Mouran
29/08/1965: CA Jalesense 2x1 Andradina FC
05/09/1965: Andradina FC 6x0 SOREA
19/09/1965: Andradina FC 1x0 XI de Agosto

2ª fase
27/03/1966: Ferroviário 2x1 Andradina FC
30/03/1966: Andradina FC 5x1 Operário
03/04/1966: Rinópolis 2x0 Andradina FC
06/04/1966: Andradina FC 1x0 Murutinga
13/04/1966: Andradina FC 4x1 Ferroviário
17/04/1966: Operário 3x0 Andradina FC
21/04/1966: Andradina FC 3x2 Rinópolis
24/04/1966: Murutinga 0x0 Andradina FC

Final
08/05/1966: Andradina FC 3x3 Transauto
13/05/1966: Andradina FC 1x1 Transauto (Prorrogação: 0x0, 0x0, 0x0, 0x0, 1x0).
Local: estádio da Fonte Luminosa, em Araraquara.

Ruben Fontes Neto