Um drama de Marcelo Bahia Odebrecht: Meu senhor do Bonfim, delato Itaquerão ou não?

A delação de Marcelo deve durar mais um mês e ele sabe que não pode livrar a cara de ninguém.

por DALMO PESSOA - São Paulo

Na penumbra e na cela fria da Polícia Federal em Curitiba, Marcelo Bahia Odebrecht deve refletir muito sobre o caminho a tomar para sair da cadeia e escapar de uma punição mais grave. Sergio Moro não perdoa e o que sua mão escreve nas sentenças duras é o resgate da lei e talvez do fim da impunidade dos criminosos de colarinho branco. A delação de Marcelo deve durar mais um mês e ele sabe que não pode livrar a cara de ninguém.

Imaginem o drama de Marcelo! Vai deletar tudo o que sabe sobre aqueles que roubaram a nação? Talvez, ele apele até para o Senhor do Bonfim. Se a lista dos criminosos se colarinho branco, que assaltaram os cofres públicos e quebraram a Petrobras, já bate em 80; e imaginem a hora em que a Lava Jato chegar às arenas do futebol, onde a turma meteu a mão à vontade.

Odebrechet: das capas da Forbes para a cadeia da Polícia Federal em Curitiba
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Marcelo, no silêncio de sua cela, deve estar selecionando aqueles que vão fazer as próximas visitas a Sergio Moro, acompanhados daquele japonês da Polícia Federal. Resta-lhe rezar muito para o Senhor do Bonfim e delatar quem, realmente, enfiou a mão no dinheiro do povo. E aliviar um pouco sua situação.

Até porque, Alexandrino Alencar, aquele que viajava com o presidente da República para o Exterior, e pilotou, junto com o engenheiro Carlos Frederico, as obras no Itaquerão e todos sabem que Moro não come enrolado. Aquele político mais honesto do Brasil sabe bem disso.

Enquanto não saem todas as delações, a pergunta das ruas é a seguinte: a Lava Jato vai chegar no Itaquerão? Só o tempo dirá. Por enquanto, o Itaquerão surge nas mídias, com indícios ruins, mas ninguém sabe de nada. Até porque essa história do Itaquerão é zero de transparência.

Duvidamos que, além de Andrés Sanchez, e mais o Lula, conforme disse o ex-presidente do clube, que alguém sabia como fizeram toda a negociação. A falta de transparência estimula ilações e até opiniões estapafúrdias começam a surgir em muitas conversas.

Já que ninguém quer abrir o jogo, cabe-nos apenas perguntar e lembrar alguns fatos que já vieram a público:

1- Na pautas de delações, o pessoal da Odebrecht quer salvar a joia da coroa – a empresa Brasken. Chegaram a comentar que, se for preciso, a empresa poupa o Itaquerão, se alguém lá estiver enroscado, mas querem salvar a Brasken.

Itaquerão com arquibancadas móveis na Copa do Mundo e agora drama nas finanças do Corinthians
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2- A Comissão de Sindicância, no Parque São Jorge, requerida pelo Conselho, para apurar os valores da obra, perdeu o escopo. Ora, arquiteto ou engenheiro, pode, quando muito, revelar o que a Odebrecht não fez em Itaquera. Mas a discussão não é essa. O que se diz é que aumentaram o custo em 160 milhões, mais ou menos, e isso não encontra lastro nas contas.

Se obras faltaram – não foram terminadas, por que essa conta a mais de 160 milhões? É BDI – borderô de despesas indiretas que o mercado faz, sem precisar comprovar os pagamentos? Isso é comum em obras públicas.

3- Se a Odebrecht não concluiu o projeto quem é que recebeu a obra da empreiteira antes da Copa? Falha de quem? Se o questionamento é quanto aos 160 milhões, não será um engenheiro ou um arquiteto para fazer o levantamento. Isso é tarefa para um auditor, alguém que entenda de cálculos atuariais e, aliás, o Corinthians tem gente competente para fazer esse levantamento.

4 - Argumentar que a Comissão, pedida pelo conselho, está impedida de fazer levantamentos, porque existe cláusula de confidencialidade, é uma explicação que não convence nem a velhinha de Taubaté.

Roberto Andrade não quer pagar contas sem fim do Itaquerão
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5 – Existem fatos que precisam ser explicados por quem de direito. Como é que um estádio, aprovada sua construção por 350 milhões no Conselho, pode ter custado 820 milhões? 985 milhões ou até 1,4 bilhão de reais? Outra coisa que deve ser explicada é como o clube vai pagar essa conta, feita em cima dos joelhos; e mais 350 milhões de debêntures com vencimento em 17 de dezembro de 2021, três anos após o término do pagamento do empréstimo do BNDES?

6 – A própria Caixa teria mudado o contrato com esse lançamento de debêntures. Ora, como é que um banco credor (no repasse que veio do BNDES) pode comprar debêntures de um dos sócios do empreendimento – Odebrecht Participações e Investimentos com transferências de suas garantias (clube e da Arena Itaquera?).

7 – Este foi o segundo lançamento de debêntures. Elas foram lançadas pela OPI – Odebrecht Participações e Investimentos. A própria Caixa não é mais interveniente-anuente e a OPI ficou com várias garantias dadas à Caixa.

8 – Essa conta vai longe porque o Corinthians é o cedente na operação e os juros das debêntures será de 117% até o resgate em 2021. A conta não fecha, sem falar que fizeram outro lançamento de debêntures no começo do estádio.

9 – Tudo isso por falta de transparência. Desde março o clube não paga a prestação de mais de 5 milhões mensais, à espera de que a Caixa aumente a carência e o Corinthians possa fazer caixa para reiniciar os pagamentos.

10 – Lá em Itaquera dos serralhos – os sultões da orgia financeira – não se explicam. Só que de repente, fogem da verdade como o diabo da cruz. Marcelo Odebrecht, pode perguntar ao Senhor do Bonfim: delato ou não a historia do Itaquerão? Vamos aguardar.

DALMO PESSOA
Um dos mais importantes e polêmicos jornalistas esportivos do país, foi colunista do Notícias Populares, jornal de maior venda avulsa da capital por vários anos. Falando uma linguagem direta para o torcedor, ele era temido pelos dirigentes e pelos que pisavam no tomate. E Carlos Caldeira Filho,
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