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Controle estatístico de lesões virou imprescindível no futebol

As lesões no futebol brasileiro se tornaram comuns e freqüentes

Publicado na sábado,
2 de fevereiro de 2013

Campinas, SP, 2 (AFI) - A pergunta que se faz neste momento no mundo do futebol é: como as lesões vêm ocorrendo e por que elas se manifestam de forma crescente ou demasiada? Este estudo mostra as principais incidências por toda a temporada de 2012 do futebol paulista. Foram analisados 6 importantes clubes: Corinthians, Guarani, Palmeiras, Ponte Preta, Santos e São Paulo, nas disputas do Campeonato Paulista, Copa Libertadores da América, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa Sulamericana e Mundial Interclubes.

O super-clássico Santos x São Paulo marca como destaque os dois clubes de menor incidência de lesões do futebol paulista da temporada 2012, conforme estudo apresentado a seguir.

O estudo baseou-se apenas no aspecto de caráter científico do futebol, através da quantificação investigativa longitudinal, mapeamento e análise estatística descritiva das incidências. Os dados foram coletados através de boletins informativos dos clubes e informativos complementares, ambos de domínio público.

O protocolo utilizado foi o conceitual de Fuller e Colaboradores (2006): uma lesão é qualquer tipo de ocorrência de origem traumática ou de sobre-uso, da qual resulta incapacidade funcional momentânea, sofrida por um jogador, que o obrigue a interromper a sua atividade e o impeça de participar em, pelo menos, um treino ou jogo1.

O estudo mostra que o monitoramento e o controle estatístico das lesões por toda uma temporada anual são imprescindíveis aos clubes de futebol.

OS NÚMEROS DAS LESÕES NOS CLUBES
No total das incidências dos seis clubes analisados os jogadores se lesionaram 415 vezes na temporada 2012, dos quais 214 lesões verificaram-se no 1º semestre contra 201 lesões do 2º semestre (51,57% x 48,43%). No 1º semestre as ocorrências se manifestaram mais no Corinthians, Guarani e Ponte Preta (*); enquanto que Palmeiras, Santos e São Paulo (*) apresentaram incidências menores no período. Todavia, Palmeiras e Guarani aumentaram suas lesões, de forma significativa, no 2º semestre (Palmeiras: mais que dobrou; Guarani: + 20%) comparados ao 1º semestre. (*) em ordem alfabética.

Quando o assunto é minimização das incidências, Ponte Preta e Corinthians alcançaram expressivos 44,44% e 30,77%, respectivamente, na redução das ocorrências lesivas do 2º semestre. Isto pode ter contribuído de maneira significativa para a boa campanha da Ponte Preta no Campeonato Brasileiro e na conquista do Corinthians no Mundial Interclubes em 2012. Ajustes de treinamentos, formas de recuperação mais eficientes e replanejamento na periodização são destacados como prováveis medidas estabelecidas.

Santos e São Paulo foram os clubes de menor incidência de lesões da temporada 2012 (13,01% cada) seguidos do Corinthians (15,90%).

Considerando a faixa etária, as lesões machucaram mais os jogadores de 26 a 30 anos (37,59%), seguidos dos jogadores de 21 a 25 anos (31,81%) e de 31 a 35 anos (19,76%). Os jogadores até 20 anos e acima de 35 anos se mostraram ter as menores incidências no ano (7,95% e 2,89% respectivamente).

Entretanto, no 2º semestre, as incidências nos jogadores acima de 35 anos triplicaram e aumentaram em 20% nos jogadores até 20 anos, enquanto nas outras faixas etárias diminuíram. A explicação provável para isto pode estar relacionado com a condição maturacional do jovem atleta, em treinamentos acima dos limites de tolerância e na resposta individual e diferenciada de recuperação psicofísica.

Quando o assunto é “bola rolando”, as lesões aconteceram mais no 2º tempo de jogo (30,60%), destacadamente nos últimos 15 minutos (11,81%), seguido do período entre 16’ aos 30’ (13,49%). Os últimos 15 minutos do 1º tempo a incidência foi de 10,12%.

FADIGA E SUAS CAUSAS
Vários estudos têm mostrado que a fadiga acontece no final de um jogo, podendo ser causado pela baixa concentração de glicogênio muscular. A quantidade de sprints, corridas de alta intensidade e distâncias percorridas são diminuídas no 2º tempo, comparadas com o 1º tempo, podendo indicar queda de desempenho nos últimos 45 minutos de jogo, sugerindo que a fadiga tende a ocorrer no final da partida.

Fatores como calor e umidade, desidratação e uma redução da função cerebral podem contribuir para a deterioração do desempenho do jogador no jogo7.

Estudos indicam ainda que as distâncias percorridas por sprints durante jogos competitivos de futebol caracterizam uma diminuição de ocorrências nos períodos intermediários dos dois tempos (15’-30’) e diminuição acentuada no último período do 2º tempo (30’-45’)7.

No estudo, os primeiros 15 minutos de cada tempo de jogo mostraram as menores incidências (3,37% e 5,30%).

As lesões nos primeiros minutos dos jogos podem estar relacionadas com aquecimento insuficiente dos jogadores antes da partida, ou ainda, sobrecarga elevada da atividade de aquecimento pré-jogo, ou ainda, condição de enrijecimento demasiado da musculatura dos jogadores.

A habilidade dos jogadores de futebol para o desempenho máximo pode estar inibida na fase inicial do 2º tempo, pela diminuição da temperatura muscular com o intervalo de jogo, agravada pela ausência do reaquecimento muscular dos jogadores. Quando os jogadores executam atividades de baixa intensidade no intervalo entre os dois tempos, tanto a temperatura muscular quanto o desempenho são preservados7.

Todavia, 15,18% das lesões foram acusadas pelos jogadores após os jogos e 36,15% ocorreram nos treinamentos dos clubes durante os microciclos. Assim, os treinamentos machucaram tanto quanto os últimos 15 minutos dos jogos, período de maior fadiga dos jogadores.

Já no aspecto “posição tática de jogo” os atacantes foram as maiores vítimas (27,95%), seguidos dos zagueiros (19,28%), meias (18,08%), volantes (15,90%), laterais direito (9,40%), laterais esquerdo (6,26%) e goleiros (3,13%). Como destaque, a lateral direita machucou mais jogadores da posição que a lateral esquerda. O compartimento de defesa lesionou mais (38,07%), seguido dos meio-campistas (33,98%).

Muitos estudos têm mostrado que os atacantes são os mais lesionados4; outros indicaram os meio-campistas como os mais acometidos 5,6.

NÚMEROS IMPORTANTES
Os jogadores tiveram as seguintes distribuições no tempo de afastamento para tratamento e recuperação: 42,17% em até 1 semana; 29,64% em 2 semanas; 12,05% em 3 semanas; 11,08% em 4 semanas; 2,65% em 2 meses; 0,24% em 4 meses; 2,17% acima de 6 meses. Portanto, as lesões com menores períodos de afastamento apresentaram ser mais freqüentes.

Isto pode estar diretamente relacionado com as melhores estruturas médicas e fisioterápicas dos clubes no tratamento e recuperação dos jogadores lesionados. O conhecimento e os avanços da ciência do esporte estão inseridos neste contexto.

A classificação da gravidade de uma lesão baseia-se no número de dias em que o jogador se mantém afastado da atividade2,3: ligeiras (um a três dias de ausência), “minor” ou leves (três a sete dias), moderadas (oito a vinte e oito dias), “major” ou graves (mais de 28 dias)3.

As lesões nos membros superiores foram as que apresentaram as menores incidências: cabeça (1,93%); ombro (2,65%); lombar (1,69%). Já o quadril representou 1,44%. Quanto às lesões dos membros inferiores, a coxa foi a campeã (47,47%). As lesões de tornozelo machucaram tanto quanto as lesões nos joelhos (14,46% x 14,22%), seguidos do adutor (7,23%); panturrilha (6,02%); púbis (2,89%).

OS MOTIVOS DAS CONTUSÕES
Músculos demasiadamente enrijecidos, fadiga muscular, intensidade de treinamentos, eficiência na recuperação dos jogadores, condições dos gramados e características das chuteiras são alguns aspectos que podem estar envolvidos neste processo.

Nas lesões de coxa, 91,37% das ocorrências foram nos músculos posteriores que são os músculos do arranque (bíceps femoral, semimembranoso e semitendinoso) e apenas 8,63% ocorreram nos músculos anteriores ou quadríceps femoral (reto, vasto lateral, vasto intermédio e vasto media), dos quais está o músculo do chute (reto-femoral). Vale observar que os músculos anteriores são os responsáveis pela extensão de joelho e os músculos posteriores pela flexão.

As lesões nos músculos da parte de trás da coxa ocorrem com frequência no futebol. A maior parte delas acontece durante uma arrancada ou uma corrida a toda velocidade, sem qualquer impacto ou contato com outros jogadores. As contraturas, estiramentos e distensões estão relacionados com a fase de acoplamento e a fase de desacoplamento da “ponte cruzada”, no processo de contração ou relaxamento/alongamento exagerado dos músculos.

As lesões de tornozelo foram classificadas como entorse (96,67%), fratura (3,33%) e ruptura (0%). Nas lesões de joelho a distribuição mostrou da seguinte forma: entorse (62,96%), tendinite patelar (25,93%), ruptura do ligamento cruzado anterior (11,11%), ruptura do ligamento cruzado posterior e ligamento colateral medial (ambos 0%).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora a metodologia deste estudo descritivo-percentual seja ainda pouco explorada no meio científico, inegavelmente os resultados de informações desta pesquisa não devem ser descartados pela comunidade científica do futebol, principalmente pela equipe multidisciplinar constituída por médicos, fisioterapeutas, fisiologistas, preparadores físicos, bioquímicos, nutricionistas e psicólogos.

Entretanto, novos estudos continuados tornam-se muito relevantes e necessários, não só para o enriquecimento da literatura científica do futebol, mas também para maior determinação do perfil das incidências das lesões dos futebolistas nos clubes de futebol de alto rendimento, quanto ao propósito de minimizar e prevenir as lesões nos treinos e jogos.

O monitoramento estatístico das incidências de lesões vêm se tornando uma ferramenta complementar de controle e ajuste imprescindível aos clubes de futebol profissional para se alcançar performance e resultados satisfatórios por toda a temporada anual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.Fuller CW, Ekstrand J, Junge A, Andersen TE, Bahr R, Dvorak J, et al. Consensus statement on injury definitions and data collection procedures in studies of football (soccer) injuries. Scand J Med Sci Sports. 2006;16(2):83-92.

2. Hagglund M, Walden M, Bahr R, Ekstrand J. Methods for epidemiological study of injuries to professional football players: developing the UEFA model. BR J Sports Med. 2005; 39(6):340-6.

3. Brito J, Soares J, Rebelo AN. Prevenção de lesões do ligamento cruzado anterior em futebolistas. Porto. Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Portugal; 2008.

4. Silva AA. Estudo epidemiológico das lesões no futebol profissional e propostas de medidas preventivas. In: I Premio INDESP de literatura desportiva. Brasília, 1999; v. 2, 47-94.

5. Freitas IBd, Felin L, Rubin ML, Radunz RL. Análise dos índices de lesões musculares em atletas de futebol do Esporte Clube Internacional de Santa Maria/Novo Horizonte-RS. Disciplinarum Scientia. Série: Ciências da Saúde, Santa Maria, v. 6 , n. 1, 2005.

6. Mellion M. Segredos em medicina desportiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

7. Mohr M, Krustrup P, Bangsbo J. Fatigue in soccer: a brief review. Journal of Sports Sciences. 2005; 23(6):593-99.

 
Agência Futebol Interior
 
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